
Carolina Leães Rech (*)
No Brasil, mais de 16 milhões de pessoas vivem com diabetes. No mundo, já são 540 milhões. Números que seguem crescendo de forma alarmante. Mas, apesar de todos os avanços tecnológicos e farmacológicos, existe uma dimensão dessa pandemia que permanece invisível: o sofrimento emocional que acompanha o diagnóstico.
Quem vive com diabetes pensa na doença, em média, a cada 12 minutos. É acordar, dormir, comer, trabalhar e se relacionar em vigilância constante. É estar sempre alerta, mesmo quando o corpo e a mente pedem descanso. De acordo com a Associação Europeia de Diabetes, um em cada três adultos com diabetes apresenta uma condição chamada "diabetes distress", a angústia do diabetes, em português. Não se trata de depressão, mas aumenta o risco de desenvolvê-la, piora o autocuidado, desfavorece o controle glicêmico, eleva o risco de complicações e reduz a qualidade de vida.
A estimativa é de que até 80% dos pacientes apresentem sofrimento emocional relacionado ao cuidado. Não se trata de falta de disciplina, mas de um desgaste compreensível diante das responsabilidades e expectativas de viver com a doença. É injusto responsabilizar indivíduos por uma condição que exige acesso e apoio de redes de cuidado. A diretriz é clara: o acolhimento deve fazer parte de cada consulta, com metas realistas e uma abordagem não punitiva. Isso também é medicina baseada em evidências.
Vale reafirmar o óbvio, que ainda relutamos em enxergar: cuidar da glicemia é essencial, mas cuidar das pessoas é urgente. Controle metabólico sem suporte emocional não é cuidado completo, é apenas metade da história. O diabetes pode ser desafiador. A solidão diante dele não precisa ser. Se quisermos mudar o rumo dessa epidemia, o avanço mais transformador não será apenas tecnológico, será humano.
A doença
O diabetes é uma condição crônica que afeta a forma como o corpo utiliza o açúcar (glicose), sua principal fonte de energia. A insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas, é responsável por transportar essa glicose do sangue para as células. Quando há pouca insulina, ou quando ela não atua de forma eficaz, o açúcar se acumula no sangue, em vez de ser absorvido pelas células.
Existem diferentes tipos da doença. No tipo 1, o sistema imunológico destrói as células do pâncreas que produzem insulina, exigindo seu uso diário desde o diagnóstico. O tipo 2, mais comum, está ligado a fatores genéticos e de estilo de vida, como alimentação inadequada, estresse e sedentarismo. Há ainda o diabetes gestacional, que surge durante a gravidez e requer acompanhamento próximo.
Mais do que uma "doença de açúcar", o diabetes é uma condição complexa e multifatorial. Seu tratamento envolve medicação, alimentação equilibrada, atividade física e, sobretudo, informação. Conhecer o que acontece no corpo é o primeiro passo para lidar com o diagnóstico sem culpa e com mais autonomia e confiança no próprio cuidado.
Cuidado além da glicemia
Cuidar do diabetes é mais do que vigiar números e ajustar doses. É aprender a equilibrar ciência e vida real, rotina e emoção. Cada medição, cada refeição e cada decisão fazem parte de um cotidiano que pede constância, mas também gentileza.
O autocuidado vai além da glicemia: inclui dormir bem, manter uma alimentação possível e prazerosa, praticar alguma atividade física e, quando necessário, buscar apoio psicológico. O suporte emocional não é um luxo, é parte essencial do tratamento. Reduz o risco de complicações, melhora o controle metabólico e protege a saúde mental.
Profissionais de saúde têm papel central nesse processo. Ouvir, acolher e construir metas realistas com o paciente faz diferença. Pequenos avanços merecem reconhecimento. Porque cuidar do diabetes não é apenas controlar uma condição, mas ajudar pessoas a viverem com mais leveza, dignidade e esperança.
(*) Chefe do Serviço de Endocrinologia da Santa Casa de Porto Alegre e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia — Regional RS
