
Carla Rojas Braga (*)
Comemorar as festas de final de ano nem sempre é fácil para algumas pessoas. Nesta época, faz-se um balanço de tudo o que aconteceu no ano e das metas do Réveillon anterior, e nem sempre essa equação é positiva. Algumas pessoas não lidam bem com a frustração e a tristeza — e adoecem emocionalmente. Algumas pensam inclusive em não chegar vivas no ano que vem.
São registrados 14 mil suicídios todos os anos no Brasil. Os casos entre jovens têm aumentado, sendo que um entre quatro consideraram seriamente o suicídio nos últimos 30 dias, segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria relativos a 2024. A grande maioria dos casos está relacionada a doenças mentais como o transtorno bipolar ou depressão e ao uso de drogas e álcool.
Uma boa coisa a se fazer como meta de final de ano é ajudar alguém. Não se preocupe com a cor da roupa que vai usar na virada para 2026. A melhor cor, na verdade, é "nude": o importante é despir-se por dentro. Deixar a cabeça e o coração descobertos para poder ajudar alguém que esteja deprimido.
Ao contrário do que muitos pensam, conversar sobre ideias suicidas e sobre depressão é positivo e funciona como forma de prevenção. Quando uma pessoa manifesta sintomas de depressão e ideação suicida, ela não está "fazendo fiasco" ou querendo chamar atenção. Ela está doente e precisando de ajuda. Os sinais podem ser velados, e as pessoas deprimidas têm, em geral, sentimentos de culpa por seus pensamentos e se fecham, mas os familiares e amigos não podem embarcar nesse isolamento e se omitir.
Os principais sintomas de depressão, tanto para adultos quanto para adolescentes e crianças, são tristeza, humor deprimido, desânimo persistente, baixa autoestima, sentimentos de inutilidade, perda de interesse em atividades que antes a pessoa apreciava, mudança de apetite, ganho ou perda de peso importantes, insônia ou dormir em excesso, perda de energia ou fadiga acentuada, baixo rendimento escolar, esportivo ou laboral. Tristeza é um dos sintomas da depressão, mas não é a mesma coisa. Todos nós nos sentimos tristes e eventualmente com vontade de morrer, mas somente as pessoas seriamente deprimidas pensam em se matar.
O ideal é conversar e perguntar abertamente sobre o que está ocorrendo, sobre os pensamentos e sobre as ideias suicidas. "Você está pensando em se matar?" é uma pergunta difícil de fazer, mas fundamental. Perguntar para uma pessoa deprimida se ela está pensando em se matar não vai estimulá-la a fazer isso _ na verdade, vai aliviá-la daquele peso que está carregando sozinha. Se a resposta for sim, perguntar se ela já tem um plano também ajuda a avaliar a gravidade do momento e a necessidade de internação a fim de proteger a vida daquela pessoa.
Não fuja da conversa. A pessoa já se sente sozinha o suficiente para, no pior momento de suas vidas, ser abandonada por quem ela pensava amá-la.
A vida pode ser uma tempestade em alto-mar, cheia de raios, trovões, bússolas avariadas e grandes ondas, mas não pode ficar sem um salva-vidas. Você pode salvar a vida de alguém deprimido no final do ano conversando e oferecendo ajuda.
Neste ano, assisti de novo à série After Life (2019-2022, disponível na Netflix), do ator e diretor Ricky Gervais. No Brasil, recebeu um subtítulo ridículo, Vocês Vão Ter que me Engolir, mas é excelente. Um homem que acabou de perder a esposa pensa em suicídio constantemente e ao mesmo tempo resolve que, por causa de sua dor, não se importa mais em dizer tudo o que pensa, mesmo quando provoca a dor em outros.
A perda de um ente querido é uma das experiências mais dolorosas. Nestas festas de final de ano, todas as lembranças ficam muito presentes. Lidar com a morte de alguém que se ama não é tarefa fácil. Mas o luto é um processo pelo qual, infelizmente, todas as pessoas deverão passar. Felizmente, tem começo, meio e fim.
Existem basicamente cinco fases do luto — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação —, mas é difícil e errado simplesmente tentar enquadrar a pessoa em uma delas, pois às vezes ela pode passar por todas as fases ao mesmo tempo, ou simplesmente não passar por nenhuma.
Diversas reações emocionais são despertadas com a morte de alguém, tais como tristeza, ansiedade, raiva e, principalmente, culpa. Invariavelmente, nos perguntamos o que poderíamos ter feito para evitar aquela morte, ou para ter diminuído o sofrimento daquela pessoa, ou nos sentimentos culpados pelo que dissemos ou deixamos de dizer.
A pessoa enlutada pode, num primeiro momento, querer se isolar do convívio social. Pode haver alterações físicas como taquicardia e fraqueza, já que o corpo fica sob estresse, além de aumento da pressão arterial e distúrbio do sono.
Não existe um tempo certo para superar a perda de alguém, isso depende de cada pessoa. O primeiro ano é o mais difícil, porque é nesse ano que ocorrem todos os primeiros aniversários e outras festas, como Natal e Ano-Novo, sem a pessoa por perto.
Vem, em seguida, a fase de adaptação, caracterizada por alternâncias imprevisíveis entre aceitação e emoções negativas. Um processo de elaboração de luto é bem sucedido e finalizado quando a pessoa consegue superar a perda e seguir em frente. Não é que ela vá esquecer, mas a perda não vai mais ter protagonismo. O problema ocorre quando essa fase natural se torna mais difícil do que o habitual: o que os especialistas chamam de "luto complicado" ou luto patológico.
Enquanto alguns procuram evitar situações que lhes tragam a lembrança da perda, há os que se apeguem às roupas e objetos da pessoa que se foi. Geralmente isso acontece com pessoas que perderam entes de maneira abrupta, como em acidentes, tragédias, suicídio. Nesses casos, a pessoa não consegue se desligar. Ela deixa de realizar as atividades costumeiras, como ir ao trabalho e ao supermercado.
Em contrapartida, há aqueles que agem como se nada tivesse acontecido e, alguns dias após a morte, voltam a trabalhar e lotam a agenda de compromissos. Mas esses também precisam de cuidados especiais, pois ocupam-se excessivamente para fugir do problema, e a tristeza vai acabar implodindo a pessoa mais tarde.
Elaborar a perda de uma pessoa amada é um processo doloroso, longo e demorado e requer paciência de todos. As pessoas deprimidas precisam de carinho, proteção e colo, mas o que mais ajuda nessas horas é poder conversar sobre os sentimentos, sobre a morte e suas circunstâncias e, principalmente, sobre a pessoa que morreu. Vale lembrar das coisas boas e ruins, vale recordar as gracinhas e as chatices.
(*) Psicóloga e psicoterapeuta


