
Bruna Tertuliano (*)
O diabetes é uma das doenças crônicas mais prevalentes no mundo — e também uma das mais mal compreendidas. Durante muito tempo, foi associado à culpa, à restrição e ao medo. Mas a ciência nos mostra outro caminho: o diabetes não precisa ser um estigma. Pode ser prevenido, controlado e ter suas complicações evitadas. E o ponto de partida está no estilo de vida.
Nossas escolhas diárias, o que comemos, como nos movimentamos, a qualidade do nosso sono e a forma como lidamos com o estresse influenciam diretamente nossa capacidade de regular a glicose e proteger nossa saúde metabólica. Alimentação equilibrada, prática de atividade física e sono reparador atuam juntos para reduzir a resistência à insulina, melhorar o controle glicêmico e evitar complicações. Pequenas atitudes, como incluir mais fibras, praticar esportes e manter uma rotina adequada, têm impacto real e comprovado.
A doença
Existem diferentes tipos de diabetes. O diabetes tipo 1 é uma condição autoimune. O organismo não produz insulina, sendo que o hormônio precisa ser reposto diariamente e por toda vida.
Já no tipo 2, que representa a grande maioria dos casos, o corpo produz insulina, mas passa a utilizá-la de forma menos eficiente — um fenômeno chamado resistência à insulina. Esse processo está intimamente relacionado a fatores como alimentação rica em ultraprocessados, obesidade e sedentarismo. Com o tempo, a glicose começa a se elevar e, gradativamente, o diabetes se instala.
Quando falamos em resistência à insulina, estamos descrevendo um processo em que algumas células deixam de responder adequadamente à insulina. A consequência é a sobrecarga do pâncreas, que, pouco a pouco, começa a falhar. Paralelamente, o excesso de insulina e glicose circulando cria um ambiente que prejudica vasos sanguíneos, rins, retina, sistema nervoso e coração — explicando o porquê do diabetes está tão ligado a doenças cardiovasculares, neuropatia e problemas renais e oculares.
É importante lembrar que o estilo de vida também tem papel fundamental no diabetes tipo 1. Embora o uso da insulina seja indispensável, hábitos saudáveis ajudam a manter a glicemia mais estável, promovendo qualidade de vida.
O tratamento
O cuidado com o diabetes evoluiu muito nas últimas décadas. Houve um tempo em que o tratamento era focado na glicose e em ajustes constantes de insulina e medicamentos. Hoje, vivemos uma nova era, contando com medicamentos modernos e melhorando o estilo de vida.
O GLP-1 é um hormônio naturalmente produzido no intestino que atua sinalizando saciedade no cérebro, ajudando o pâncreas a liberar insulina de forma mais eficiente e reduzindo a liberação de glicose pelo fígado. Quando usamos medicamentos que imitam esse hormônio (os análogos do GLP-1), conseguimos uma melhor regulação da glicemia. Além disso, estudos também mostram que esses medicamentos oferecem proteção cardiovascular, reduzindo o risco de infarto e AVC em pacientes de alto risco, bem como auxiliam na perda de peso.
Outra classe moderna de medicação é composta pelos inibidores de SGLT2. Esses medicamentos atuam nos rins, impedindo que parte da glicose filtrada volte ao sangue, auxiliando no controle da glicemia, da retenção de líquido e da pressão arterial.
Outro avanço importante está na tecnologia de administração de insulina. As chamadas bombas de insulina inteligentes são dispositivos pequenos que liberam insulina de forma contínua ao longo do dia, imitando o funcionamento do pâncreas. Muitos modelos atuais se conectam a um sensor contínuo de glicose, formando um sistema que "conversa" entre si: quando a glicose começa a subir, a bomba aumenta automaticamente a liberação de insulina; quando há risco de queda, ela reduz ou interrompe a dose. Na prática, isso significa menos oscilações, mais estabilidade ao longo do dia e mais segurança e liberdade para a pessoa que vive com diabetes.
Apesar de tantos avanços, um ponto permanece essencial: o estilo de vida continua sendo a base do cuidado. O diabetes não define ninguém. Com informação, apoio e acompanhamento adequado, é possível viver com autonomia e qualidade de vida.
À luz do Dia Mundial do Diabetes, celebrado nesta sexta-feira (14), fica a lembrança: prevenir e cuidar são escolhas que estão nas nossas mãos, todos os dias!
(*) Médica de família e comunidade, pós-graduada em Nutrologia e diretora do Núcleo de Atenção Primária à Saúde do Simers




