
Pedro do Valle Teichmann (*) e Sérgio Hofmeister Martins-Costa (**)
Antes de o bebê nascer, muito já está em jogo. O coração que pulsa no ventre da gestante depende de algo maior que o instinto materno: depende de um sistema de cuidados que começa no pré-natal e que, no Brasil, ainda está longe de alcançar todas as mulheres como deveria.
Todo mundo conhece alguém que se emociona ao ouvir o primeiro batimento cardíaco do bebê no ultrassom. Mas o que pouca gente percebe é que esse som é também um chamado: o de cuidar da vida antes do nascimento. Idealmente, isso deveria ter início ainda antes da concepção, quando um casal planeja a gestação. Sua implementação formal, no Brasil, começou na primeira metade do século 20, devido às altas taxas de mortalidade materna.
Hoje, a medicina permite identificar o DNA do feto no sangue da mãe, detectar alterações genéticas e até operar bebês malformados ainda dentro do útero. Crianças que nasceriam com graves limitações podem, graças à ciência, caminhar, correr e brincar. Essas conquistas colocam a humanidade em um novo patamar: nunca soubemos tanto sobre como proteger a vida que está por vir.
O pré-natal pode identificar doenças gestacionais, e uma conversa empática pode minimizar o isolamento e a depressão. Um olhar atento pode salvar duas vidas.
Apesar dos avanços, seguimos falhando no básico. No Brasil, ainda nascem crianças com sífilis congênita, HIV e hepatite B, doenças que poderiam ser totalmente evitadas com um pré-natal adequado. Somente em nosso país, são cerca de 30 mil casos de sífilis em gestantes por ano, e no RS a taxa de gestantes com HIV chega a 5,2 a cada mil nascidos vivos.
Esses números têm rostos: mães que não fazem todos os exames, profissionais sobrecarregados, serviços sem estrutura. Cada caso representa uma vida que começa com desvantagem, por algo que poderíamos ter evitado.
O pré-natal não é só uma sequência de consultas e exames. É uma rede de proteção. Pode-se detectar doenças gestacionais como diabetes e hipertensão arterial, assim como cuidar de gestantes com enfermidades prévias, como cardiopatias e doenças renais que no passado eram proibitivas à gestação.
O aumento da pressão arterial é a principal causa de morte materna no Brasil, cerca de 300 a cada ano – todas mortes evitáveis com um pré-natal bem feito! Um simples exame de urina, por exemplo, pode identificar bactérias que aumentam o risco de parto prematuro. Uma conversa empática pode minimizar o isolamento e a depressão; um olhar atento pode salvar duas vidas.
O número mínimo de consultas
Cada consulta é uma oportunidade para fortalecer vínculos, promover o abandono do cigarro, ajustar a alimentação, incentivar a atividade física, revisar vacinas, orientar sobre o parto e a amamentação. O cuidado mental também é parte essencial desse processo, porque uma gestante que se sente amparada cria um ambiente emocionalmente saudável para seu bebê.
O Ministério da Saúde recomenda, no mínimo, seis consultas de pré-natal para gestantes de baixo risco. Mais importante do que o número é a qualidade do encontro entre a mulher e a equipe de saúde. Ali se constrói o futuro. O pré-natal é o primeiro investimento em uma vida saudável, não apenas da criança, mas da sociedade que ela vai ajudar a construir. Cuidar do pré-natal é cuidar do amanhã. É lutar para que cada bebê que nasce no Brasil tenha o mesmo direito: começar a vida com dignidade, esperança e o máximo de saúde possível.
(*) Professor de Obstetrícia da PUCRS e integrante do programa Novos Talentos da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM)
(**) Professor titular de Ginecologia e Obstetrícia da UFRGS e membro titular da ASRM
Parceria com a Academia
Este artigo faz parte da parceria firmada entre Zero Hora e a Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) em março de 2022.
Uma vez por mês, o caderno Vida publica conteúdos produzidos (ou feitos em colaboração) por médicos da entidade, que completou 35 anos em 2025, conta com cerca de 90 membros de diversas especialidades (oncologia, psiquiatria, oftalmologia, endocrinologia, otorrinolaringologia etc.) e atualmente é presidida pelo psiquiatra Sérgio de Paula Ramos.
Os textos são assinados por um integrante do Programa Novos Talentos, coordenado pelo eletrofisiologista Leandro Zimerman, e por um tutor com larga experiência na área.

