The New York Times

Quer deixar um legado? Vire o mentor de alguém

O vínculo entre gerações pode deixar um impacto duradouro

Sem conexão

Inspirado por um professor da Cornell que tinha aquela aura bondosa de avô, no segundo ano da faculdade fiz um discurso em que perguntei aos meus colegas: "Quando chegarem aos seus últimos dias, vocês serão capazes de escrever o próprio epitáfio?"

Eu os impeli a se concentrar em objetivos significativos e no legado que gostariam de deixar após o fim da vida terrena. Por legado não quis dizer dinheiro, estruturas nem qualquer outro objeto tangível, mas sim o impacto positivo que eles poderiam ter e que os manteria vivos na memória e na vida de outros.

Por isso me identifiquei imediatamente com o novo livro de Marc Freedman, "How to Live Forever: The Enduring Power of Connecting the Generations" (Como viver para sempre: o poder duradouro de conectar gerações). Lembrei-me daquele querido professor, George Eric Peabody, que de fato foi meu mentor, me encorajando a sair da zona de conforto e desenvolver talentos que nem eu sabia que tinha.

Peabody, que morreu em 1967, aos 70 anos, deixou de fato um legado invejável. Como expressou o memorial da universidade, ele foi "um professor inspirador e desafiador que ajudou milhares de alunos a desenvolver serenidade, confiança e, em suas palavras breves, a habilidade de 'levantar – falar – e se calar'".

Freedman, fundador do Encore.org e cofundador do Experience Corps, ambos dedicados a ajudar adultos mais velhos a encontrar um propósito nos anos avançados, é um autodenominado empreendedor social. Ao ser perguntado sobre o que é preciso para ser um mentor, ele respondeu de forma sucinta: "Estar presente e calado: sendo consistente e ouvindo. Você não precisa ser um super-herói carismático. Não precisa de diplomas. É muito mais uma questão de relacionamento do que dar conselhos sábios. O fundamental não é ser interessante. O que é realmente fundamental é estar interessado – estar presente e prestar atenção."

Freedman afirma que há uma vasta fonte inexplorada de mentores nos Estados Unidos que poderia ser empregada, para benefício mútuo do mentor e do aprendiz. É necessário apenas juntar os dois, uma tarefa que tem se mostrado mais difícil à medida que cresce a segregação de adultos mais velhos em comunidades de idosos desprovidas de crianças. "Pessoas mais velhas têm um talento único para ser mentoras. As habilidades essenciais para nutrir relacionamentos – a saber, controle emocional e empatia – florescem conforme envelhecemos", disse em uma entrevista. E, claro, aqueles que estão aposentados também dispõem de mais tempo para se dedicar aos mais jovens, sejam eles netos, vizinhos ou estranhos.

A mais recente empreitada de Freedman, agora já em seu segundo ano, é chamada Generation to Generation, um projeto nacional beneficente cujo objetivo é "desenvolver um movimento de pessoas mais velhas focado no bem-estar das gerações futuras".

O aumento anual da expectativa de vida confirma a importância da iniciativa. Cada vez mais pessoas estão vivendo 20 a 30 anos além da idade de aposentadoria tradicional. Será que todas querem passar a "melhor idade" assistindo à televisão, jogando cartas ou golfe, lendo ou viajando? Ou será que algumas prefeririam uma velhice mais produtiva e significativa, uma que possa enriquecê-las física, mental e socialmente e, em alguns casos, economicamente?

"A verdadeira fonte da juventude é a fonte com juventude. É passar menos tempo obcecado em ser jovem e mais tempo focado em estar disponível para a próxima geração", asseverou Freedman. Como o psicólogo do desenvolvimento e psicanalista Erik Erikson declarou há quase 70 anos, "sou o que restar depois que eu partir".

Caso você esteja pensando que tudo isso foi desenvolvido para beneficiar os mais jovens, pesquisas importantes têm mostrado o valor incomparável desse tipo de investimento pessoal para a saúde dos mais velhos. O convívio social é um benefício consagrado para o bem-estar e a longevidade da comunidade idosa. Em Alameda, na Califórnia, pesquisadores concluíram, após um estudo que durou nove anos, que aqueles com conexões sociais de qualidade tinham 80% menos chances de morrer.

O dr. Robert Waldinger, psiquiatra da Escola de Medicina de Harvard e diretor do Estudo Harvard de Desenvolvimento de Adultos, que tem 81 anos, relata que, à medida que as pessoas envelhecem, laços mais próximos ajudam a manter a vitalidade e a felicidade, prevenindo o declínio. O dr. George Vaillant, psiquiatra e professor da Escola de Medicina de Harvard, que liderou o estudo por quatro décadas, documentou no livro "Aging Well" (Envelhecendo bem) que pessoas de meia-idade e idosas que investiram no bem-estar da próxima geração tinham três vezes mais chances de ser felizes do que aqueles que não o fizeram. Além de terem vivido mais.

Na Universidade Washington, em St. Louis, pesquisadores descobriram que os voluntários mais velhos que participaram de um programa da Experience Corps, para melhorar o desempenho acadêmico de alunos, eram menos propensos a desenvolver depressão e declínio da saúde física do que o grupo de comparação.

Em um estudo com pessoas recrutadas para ajudar crianças de baixa renda a prosperar, Michelle C. Carlson, da Escola de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins, e coautores mostraram que, ao participar da Experience Corps, mulheres afro-americanas mais velhas, sem educação formal e mostrando sinais de perda cognitiva melhoraram a habilidade de tomada de decisões e função cerebral, ao mesmo tempo que as crianças com as quais interagiam progrediram no contexto acadêmico. Uma das coautoras, Linda Fried, reitora da Escola de Saúde Pública Mailman, da Universidade Columbia, explica da seguinte forma: a participação no Experience Corps eliminou as teias de aranha no cérebro delas.

Mesmo vivendo em uma instituição exclusiva para um determinado grupo etário, não é necessário excluir uma interação mutuamente vantajosa entre idosos e crianças. No bairro Little Havana, em Miami, o Rainbow International Learning Center & Child Care Program (Centro de Aprendizado e Cuidados Infantis) trabalha lado a lado com centros de cuidados para idosos. Os mais velhos recebem renda suplementar, alívio por não ficarem sozinhos e estímulo juvenil ao cuidar das crianças, cobrando preços acessíveis, e participam de atividades criativas e educacionais com crianças oriundas de famílias de baixa renda.

Um programa britânico batizado de Now Teach possibilita um caminho para que profissionais aposentados possam ensinar as lições duramente aprendidas àqueles que estão começando essa jornada geralmente árdua que é a vida. A bandeira do programa é: "Você teve uma carreira de sucesso. Agora é hora de fazer algo mais importante. Agora ensine."

Infelizmente, Freedman escreveu, o que temos feito nas últimas décadas nos Estados Unidos é "forçar os mais velhos a se desconectar da sociedade, louvando uma existência na 'melhor idade' como se envelhecer fosse sinônimo de brincar, promovendo playgrounds que só fazem segregar as idades", o que, complementa, "vai contra os fundamentos do desenvolvimento das gerações mais velhas, as necessidades dos mais jovens e as exigências de uma sociedade que, pela primeira vez na história, tem mais idosos do que jovens".

Portanto, deixo aqui um apelo: leve em consideração tornar-se membro de uma instituição que siga a mesma premissa intergeracional da Peace Corps. É uma ótima maneira de assegurar um legado com potencial para abrandar a dor de saber que todas as vidas precisam chegar ao fim. Uma possibilidade é tornar-se Avô Adotivo no programa nacional que recebe adultos acima dos 55 anos, que tenham renda limitada, para atuarem como modelos, mentores e amigos de crianças com necessidades excepcionais ou especiais.

Por Jane E. Brody

Mais GaúchaZH