
O uso de medicamentos e tecnologias para ampliar a memória, a concentração e a cognição já se tornou rotina para muitos estudantes universitários, executivos e atletas de alta performance. O avanço dessas práticas, porém, levanta uma questão: até onde é aceitável intervir no funcionamento da mente humana em busca de mais produtividade? Essa é a discussão levantada por Veljko Dubljevic no livro Neuroética, Justiça e Autonomia: A razão pública no debate sobre o aprimoramento cognitivo.
Recém-lançada no Brasil em tradução inédita pela PUCPRESS, a obra analisa os desafios éticos, jurídicos e sociais provocados pelo uso crescente das chamadas drogas inteligentes, questionando seus impactos sobre a autonomia individual, a justiça social e os direitos fundamentais. Neurocientista e filósofo, Dubljevic figura entre os pensadores mais influentes da Neuroética e da Filosofia da Ciência e Tecnologia.
Atualmente, ele é professor associado na North Carolina State University e conduz pesquisas pioneiras sobre as implicações éticas do aprimoramento cognitivo, das neurotecnologias e da inteligência artificial (IA). Além da produção acadêmica, Dubljevic tem orientado governos, profissionais de saúde e organizações da sociedade civil na construção de marcos que assegurem o avanço da neurociência sem abrir mão da justiça social e do respeito à autonomia humana.
Em entrevista exclusiva para Zero Hora, o pesquisador sérvio traz reflexões e questiona não apenas os riscos e benefícios médicos dessas substâncias, mas também os impactos morais de seu uso indiscriminado.

Confira entrevista com Veljko Dubljevic
Vivemos uma cultura que valoriza produtividade constante. O cérebro humano tem um limite para atenção, foco e desempenho? Até que ponto a neuroplasticidade permite superar limitações?
A neuroplasticidade (capacidade do cérebro de se moldar, adaptar e criar novas conexões) até pode nos permitir superar limitações da mente, mas isso requer muito esforço e habilidade. Todos os estimulantes — não só medicamentos, mas tudo que estimula o sistema neural — vêm com um preço, até a cafeína. A neuroplasticidade pode nos permitir superar muitas limitações, mas isso não acontece apenas tomando uma xícara de café, por exemplo. No Brasil, todo mundo toma café. Mas até isso tem desvantagens, porque para obter o efeito desejado, o estímulo da cafeína, você precisa tomar uma dose elevada, que vai dar aquele “boost”. Depois, a substância deixa de agir e vai fazer falta, e pode acabar afetando a qualidade do sono. A longo prazo essa rotina não é sustentável.
Por que você decidiu se dedicar a esse tema e quais os achados da sua pesquisa?
Minha pesquisa é focada principalmente em estudantes universitários. Nos Estados Unidos, eles são a faixa da população que mais faz uso de estimulantes. Aproximadamente 35% dos universitários dos EUA estão usando estimulantes de alguma forma. Mas o problema não aparece somente no meio universitário. Ocorre também em vários segmentos produtivos onde há cargos de nível inicial, como escritórios de advocacia. O Vale do Silício também é conhecido pelo uso de drogas inteligentes, além de estimular o biohacking. Isso tudo é legítimo, mas leva a muitos problemas. Por isso, acredito que seria importante ter algum tipo de marco regulatório para equilibrar esses dois grupos — aqueles que desejam fazer uso de estimulantes, para que utilizem com segurança, e as pessoas que preferem não expor o corpo a isso.
Quais são as drogas inteligentes mais usadas atualmente?
Tem bastante diferença entre o contexto da América do Sul, da Europa e da América do Norte. Nos anos 1990, mesmo na América do Norte, a maioria dos alunos usavam ritalina, ou seja, o metilfenidato. Isso porque era relativamente mais seguro, os efeitos não eram tão pronunciados e não era tão viciante. Mas, pelo menos nos Estados Unidos, atualmente, 90% dos alunos que fazem uso de estimulantes estão tomando substâncias com anfetamina, principalmente o Adderall. E eles são muito mais viciantes do que eficientes. Essas drogas geram um “boost” maior, mas o preço é mais alto. Os três tipos de estimulantes que estão sendo discutidos na literatura são a anfetamina, o metilfenidato e o modafinil (Provigil), que não é tão viciante, mas não deixa de ter efeitos colaterais.
Na sua visão, até onde vai a busca pela mente perfeita? Quais são os limites do aprimoramento cognitivo?
O ponto é que nunca vai ser uma mente perfeita. O cérebro pode ser otimizado para algum aspecto, mas não existe mente perfeita para tudo. Por exemplo, para quem deseja melhorar as habilidades matemáticas, existe uma técnica chamada estimulação elétrica transcraniana. Esses tratamentos podem parecer boa ideia, mas sempre vêm com um preço. As pesquisas mostram que, ao aprimorar um aspecto, você pode estar prejudicando outra habilidade cerebral. No exemplo citado (das habilidades matemáticas), você pode acabar prejudicando sua habilidade linguística. É como se fosse uma escolha entre um ou outro, não dá para ter os dois. É a mesma coisa com medicamentos como Adderall. Você pode passar a noite inteira trabalhando à base de drogas estimulantes sem ficar cansado, mas isso não significa que sua capacidade criativa não será afetada.
Você aborda os riscos éticos e sociais do uso descontrolado dessas substâncias em seu livro. Que riscos são esses?
A depender do contexto, há muitos riscos. Digamos que eu seja roteirista, tenho uma entrega pendente e decido fazer uso de substâncias para ser mais produtivo. Até aí tudo bem, porque é minha esfera individual. Mas a situação se torna problemática quando se trata de uma competição esportiva, por exemplo, em que é possível utilizar a tecnologia para obter vantagem em relação aos adversários. Também não adianta generalizar o uso de substâncias para aumentar a competitividade, porque se as pessoas usarem estimulantes amplamente, todo mundo vai acabar tendo efeitos colaterais e a produtividade vai cair de toda forma.
Essa pressão social para usar estimulantes, como a pressão do próprio mercado de trabalho, pode acabar gerando um efeito em cadeia, e quem paga o preço são as futuras gerações. Ficar trabalhando durante a noite a longo prazo sem um sono de qualidade pode gerar problemas de saúde. Outro risco é agravar a desigualdade, uma vez que muitas dessas intervenções farmacológicas são caras e nem todo mundo tem acesso. Então, quem tem menos condições financeiras acabaria tendo menos oportunidades. Enquanto sociedade, nós precisamos ser cuidadosos em relação ao que estamos normalizando.
Quais são os sinais de que estamos exigindo do cérebro mais do que ele consegue oferecer?
O mais importante é dormir. Se você não está tendo um sono de qualidade, certamente tem algum problema. Eu não sou contra o uso de estimulantes. Muitas pessoas ficam sobrecarregadas e realmente precisam desse suporte, como profissionais da saúde. O ponto é que o uso indiscriminado dessas substâncias a longo prazo não é sustentável, e as pessoas precisam levar isso em consideração.
Como podemos regular esse cenário, na sua visão?
Minha abordagem para a regulação é garantir que informações de qualidade estejam disponíveis para todos. Muitas vezes, os alunos pensam que existe uma pílula mágica. Não é verdade. Eu sempre uso a analogia da licença de piloto. Para obter uma licença de piloto, você precisa demonstrar que sabe o que está fazendo, precisa ter conhecimento, depois alguém tem que testar esse conhecimento. E isso não é suficiente, você também precisa ter algum tipo de seguro. Da mesma forma, precisamos de uma regulamentação, que pode ou pode não resolver o problema, mas pode nos ajudar a ter mais informação.


