
O treino de musculação e a atividade física costumam aparecer associados à estética, ao emagrecimento e à busca por um corpo mais definido. Mas os benefícios de construir força e massa muscular vão muito além da aparência. Ter uma boa reserva muscular e cardiorrespiratória pode ajudar o organismo a enfrentar melhor uma doença, uma cirurgia ou até uma internação em uma unidade de terapia intensiva (UTI).
Esse foi o tema do novo episódio do Tá Tudo Bem?, apresentado pela jornalista Kathlyn Moreira. O programa recebeu o professor de fisioterapia Luiz Felipe Freilich e o médico Pedro Rigotti, especialista em medicina intensiva e professor da Escola de Saúde da Unisinos.
Durante a conversa, os especialistas explicaram como o corpo perde massa muscular rapidamente durante uma internação e por que chegar a esse momento com uma boa condição física pode fazer diferença na recuperação.
Segundo Luiz Felipe, a reserva muscular funciona como uma espécie de proteção diante da perda inevitável que ocorre durante uma internação. Mesmo que dois pacientes tenham a mesma idade, a mesma doença e permaneçam o mesmo número de dias no hospital, aquele que possui maior força e massa muscular tende a perder menos e pode ter uma recuperação melhor após a alta.
Pedro Rigotti explica que a perda de músculo começa rapidamente quando o organismo enfrenta uma descompensação. Em situações de doença grave, o corpo passa a utilizar suas próprias reservas para produzir energia e, em pouco tempo, começa a degradar músculos. Segundo o médico, essa mudança metabólica pode começar já nas primeiras 24 horas.
Por isso, a ideia não é treinar para ficar "imune" a doenças ou garantir que uma pessoa nunca precise ser internada. A atividade física funciona, segundo os especialistas, como uma forma de preparar o organismo para lidar melhor com situações adversas.
— A forma de tu pelo menos ter uma capacidade vital de reforço, inclusive reserva cardiovascular, ela é fundamental — afirmou Rigotti.
Ao longo da entrevista, os especialistas também falaram sobre a importância da atividade física em diferentes idades, a relação entre emagrecimento e perda de massa magra, a preparação antes de determinadas cirurgias, a perda muscular dentro da UTI e como começar a se exercitar mesmo depois de anos de sedentarismo.
Assista ao episódio completo:
Confira perguntas e respostas:
É possível treinar para ter uma recuperação melhor caso seja necessário passar por uma UTI?
Luiz Felipe: Sim. Antes de uma internação, ter uma reserva muscular e cardiorrespiratória faz com que a perda de massa e força seja menor. Duas pessoas podem passar pelo mesmo período no hospital, ter a mesma idade e a mesma doença, mas quem tem mais reserva tende a perder menos e, consequentemente, ter uma recuperação melhor na alta.
Isso significa que quem faz exercício fica protegido contra doenças?
Pedro Rigotti: Não existe uma fórmula de indestrutibilidade. A ideia não é treinar para nunca ficar doente, mas se preparar para a vida. Quem tem uma capacidade funcional e uma reserva cardiovascular melhores consegue enfrentar melhor um problema de saúde e tende a ter uma reabilitação mais fácil.
Por que perdemos músculo tão rapidamente durante uma internação?
Pedro Rigotti: Quando uma pessoa adoece e descompensa, o corpo muda metabolicamente e passa a quebrar o que for possível para produzir energia e combater esse problema. Depois de um período curto, começa a degradar músculo para gerar essa energia.
Em quanto tempo essa perda pode começar?
Pedro Rigotti: Em 24 horas já começam a ocorrer essas mudanças metabólicas. Na UTI, isso se soma ao imobilismo, à ventilação mecânica, à sedação e ao uso de medicamentos. É uma junção de fatores que faz a perda de massa muscular acontecer muito rapidamente.
O músculo serve apenas para dar força e permitir os movimentos?
Luiz Felipe: Não. O músculo não é só um órgão locomotor. Ele também funciona como um órgão endócrino: durante a contração, libera substâncias que atuam em diferentes partes do organismo. O exercício ajuda a reduzir processos inflamatórios, melhora a resistência à insulina e a capacidade ventilatória. Por isso, é preciso pensar no exercício também como uma espécie de remédio.
A idade determina quem terá uma recuperação melhor?
Pedro Rigotti: Hoje, é preciso olhar muito mais para a qualidade muscular e a capacidade funcional do que simplesmente para a idade. Uma pessoa de 65 anos com boa qualidade muscular pode ter um tempo de recuperação menor do que uma de 40 anos sem qualidade muscular. A fragilidade e a sarcopenia estão muito relacionadas à qualidade do músculo e à mobilidade.
É possível se preparar fisicamente antes de uma cirurgia?
Luiz Felipe: Sim. Quando é possível adiar a cirurgia, às vezes se trabalha com oito ou 12 semanas de preparação. Essa atividade física prévia pode contribuir para uma recuperação melhor e até para uma saída mais rápida da UTI. Também pode diminuir as chances de infecção e o custo hospitalar.
Emagrecer significa necessariamente perder massa muscular?
Pedro Rigotti: Não. Uma coisa é ser magro e ter uma massa magra muito boa e um percentual de gordura reduzido. Outra é perder gordura e também massa magra durante o processo de emagrecimento. No caso das canetas emagrecedoras, é importante ter acompanhamento, porque a perda de massa magra pode acontecer junto com a de gordura.
Qual é o papel da massa muscular na recuperação de um paciente internado?
Luiz Felipe: Principalmente nos membros inferiores, ela ajuda o paciente a se movimentar. Se ele preserva força suficiente, conseguimos tirá-lo do leito, sentá-lo, colocá-lo em pé e começar a caminhar. Isso traz benefícios para a parte cardiovascular e respiratória e pode ajudar o paciente a sair mais rapidamente da cama e da ventilação mecânica.
Até os músculos usados para respirar são afetados?
Luiz Felipe: Sim. O diafragma também é um músculo e pode ser perdido durante uma internação. Então, quando o paciente acorda da ventilação mecânica, pode não ter força suficiente para respirar sozinho. Ele precisa de músculo também para isso.
O que é feito na UTI para tentar diminuir essa perda muscular?
Luiz Felipe: Hoje existem estratégias como a mobilização precoce, mesmo quando o paciente está sedado, além da mudança de posição, da eletroestimulação e da fisioterapia quando possível. Também são importantes a hidratação e a nutrição. A perda vai acontecer, mas a equipe trabalha para minimizar esse dano.
Quem tem dor ou alguma lesão deve evitar exercícios?
Luiz Felipe: O exercício é uma forma de tratamento para muitas condições, inclusive para dores. É preciso ter orientação, principalmente quando o paciente tem uma doença mais grave, mas ficar parado pode criar um ciclo de perda de força e capacidade. A atividade física ajuda a quebrar esse ciclo.
Quem foi sedentário por muitos anos ainda pode começar?
Pedro Rigotti: Nunca é tarde para começar. O importante é procurar orientação e criar um programa adequado. Não é preciso passar horas na academia ou levantar pesos enormes. Caminhar cinco, 10, 15 ou 20 minutos, ou fazer alguns exercícios em casa, já é melhor do que não fazer nada.
É preciso treinar todos os dias ou buscar um corpo muito musculoso?
Pedro Rigotti: Não. O caminho é pensar em longevidade, de forma natural e tranquila. É melhor treinar pouco, mas de maneira focada, organizada, correta e orientada. E, principalmente, encontrar uma atividade que dê algum prazer.
O que é o "Tá Tudo Bem?"
O Tá Tudo Bem? é um programa da Rádio Gaúcha e de GZH apresentado pela jornalista Kathlyn Moreira. A atração aborda temas relacionados à saúde, bem-estar, comportamento e qualidade de vida, promovendo conversas com especialistas para esclarecer dúvidas e incentivar reflexões sobre questões que fazem parte do cotidiano das pessoas.
Os episódios vão ao ar às terças-feiras, ao meio-dia, no canal de GZH no YouTube, e também aos sábados na programação da Rádio Gaúcha.



