
Como transformar uma descoberta científica feita no laboratório em um tratamento capaz de beneficiar uma criança com câncer? Essa é uma das questões que estarão em debate nesta terça-feira (15), durante o Ciência que Transforma – 1º Simpósio de Ensino e Pesquisa do Instituto do Câncer Infantil (ICI), realizado pela instituição em parceria com a Unisinos e com participação gratuita.
O evento reunirá pesquisadores da área para discutir temas como desenvolvimento de novos medicamentos e uso da inteligência artificial no âmbito científico. O objetivo é chamar atenção para a importância da pesquisa em oncologia pediátrica, segmento que ainda enfrenta dificuldades para avançar com agilidade no país.
Superintendente de Ensino e Pesquisa do ICI, o oncologista André Tesainer Brunetto explica que o caminho até que uma descoberta científica chegue efetivamente aos pacientes pode levar de 15 a 20 anos. O processo envolve diferentes etapas, desde os primeiros experimentos em laboratório e análises de dados até ensaios clínicos e avaliações regulatórias de segurança.
Contudo, na oncologia pediátrica, esse caminho pode ser ainda mais lento, devido à menor disponibilidade de investimentos para o desenvolvimento de pesquisas e à necessidade de se iniciar estudos muitas vezes "do zero" — uma vez que o câncer infantojuvenil tem especificidades diferentes dos tumores em adultos, área que concentra a maior parte dos esforços científicos.
— O câncer pediátrico é mais raro se olharmos para o cenário geral da oncologia. Por isso, ele tem menor apelo comercial junto à indústria farmacêutica, de onde vem grande parte dos investimentos. O ICI tem trabalhado para preencher essa lacuna, captando recursos alternativos, como leis de incentivo e doações de pessoas físicas, a fim de financiar pesquisas — comenta Brunetto.
No Brasil, são registrados, em média, menos de 10 mil novos casos de câncer infantojuvenil por ano, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Já entre os adultos, o número médio de novos casos anuais ultrapassa os 700 mil.
A diferença ajuda a dimensionar o problema apontado pelo médico: embora o desenvolvimento de tratamentos exija investimentos e estudos de longo prazo, o mercado potencial de medicamentos pediátricos é muito menor.
Por isso, além de buscar alternativas para a realização de pesquisas, o ICI tem investido cada vez mais também em ensino. O objetivo, diz Brunetto, é qualificar a formação de profissionais que possam atuar nas diferentes frentes da oncologia pediátrica — do diagnóstico ao tratamento — e se engajar na busca por recursos e no desenvolvimento da área.
O simpósio desta terça-feira insere-se nessa estratégia. Junto ao evento, a instituição lançará oficialmente uma pós-graduação multiprofissional em oncologia pediátrica, oferecida em parceria com a Unisinos.

Segundo Brunetto, o curso tem como público-alvo profissionais das mais diversas as áreas da saúde, não somente médicos — sendo a primeira especialização em oncologia pediátrica com essa característica no país.
— Com isso, o ICI reafirma sua missão de capacitar para salvar vidas. A pesquisa busca elevar os índices de cura, mas o diagnóstico precoce é determinante. Quando descoberto precocemente, muitas vezes um tumor infantojuvenil pode ser tratado com menor impacto e sem a necessidade de procedimentos mutilantes, como amputações de membros. A oncologia evoluiu de uma busca da "cura pela cura" para a busca da "cura com qualidade de vida", e esse será um dos pilares dessa formação — comenta o superintendente de Ensino e Pesquisa do ICI.
Além de conhecer em primeira mão os detalhes da nova pós-graduação, os participantes do simpósio Ciência que Transforma poderão travar contato com as diversas frentes de atuação do ICI e como contribuir com o trabalho desenvolvido.
No âmbito da pesquisa clínica, por exemplo, o instituto coordena um grande estudo colaborativo sobre o sarcoma de Ewing, reunindo mais de 30 instituições de pesquisa. Trata-se da segunda neoplasia óssea mais frequente em crianças e adolescentes, cuja manifestação é altamente agressiva.
Outro carro-chefe é o Projeto Maria Fernanda, que acompanha a toxicidade dos tratamentos e a predisposição genética a longo prazo por meio de sequenciamento genômico. A intenção é produzir conhecimento que ajude a identificar os efeitos das terapias e, futuramente, selecionar grupos de pacientes que possam receber tratamentos menos agressivos.
Também serão oferecidas certificações de horas complementares aos participantes do simpósio. As inscrições devem ser feitas mediante retirada de ingresso gratuito na plataforma Sympla. Abaixo, veja a programação completa:
Ciência que Transforma – 1º Simpósio de Ensino e Pesquisa do Instituto do Câncer Infantil (ICI)
12h30 às 13h20min: Credenciamento.
13h30min às 14h: Abertura com boas-vindas por Dr. Algemir Brunetto, diretor-executivo e fundador do Instituto do Câncer Infantil, e Dra. Denise Zaffari, decana da Escola de Saúde da Unisinos.
14h às 14h45min: Painel Construindo Conhecimento: o papel do ensino e da pesquisa na construção de instituições que produzem conhecimento, com Rafael Dihl, coordenador de ensino no ICI; Aline Aparecida da Silva Pierotto, coordenadora do curso de Medicina da Unisinos; Denise Zaffari, decana da Escola de Saúde da Unisinos; e Algemir Brunetto, diretor-executivo e fundador do ICI. Mediação: Luciano Potter.
14h45min às 15h: Intervalo com show de Rafael Malenotti.
15h às 15h45min: Painel Ciência que Conecta: aproximando conhecimento e sociedade — estratégias para aproximar a ciência das pessoas em um mundo conectado, com Rafael Roesler, professor da UFRGS e pesquisador colaborador do ICI; Mellanie Fontes Dutra da Silva e Juliana Nichterwitz Scherer, coordenadoras do curso de Biomedicina da Unisinos. Mediação: Kelly Matos.
15h45min às 16h30min: Palestra Saúde Digital: revolucionando a saúde com IA, wearables e outras tecnologias, com Cristiano André da Costa, diretor do Softwarelab — Núcleo de Excelência em Inovação de Software da Unisinos.
16h30min às 16h45min: Intervalo com show de Rafael Malenotti.
16h45min às 17h30min: Painel Da Bancada ao Paciente: Como a Ciência se Transforma em Novos Tratamentos — A jornada da inovação no Instituto do Câncer Infantil: da pesquisa básica à transformação da vida de crianças e adolescentes com câncer, com André Brunetto, superintendente de Ensino e Pesquisa do ICI, e Rafael Roesler, professor da UFRGS e pesquisador colaborador do ICI. Mediação: Cris Silva.




