
Em julho, pelo menos 25 cirurgias eletivas foram adiadas ou desmarcadas no Hospital Municipal Getúlio Vargas em Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana, por falta de anestesistas. A instituição é referência para mais de 40 municípios.
De acordo com a Fundação Hospitalar Getúlio Vargas, entidade que administra a instituição, o hospital conta com uma empresa terceirizada para a prestação de serviços de anestesiologia. No enteando, a empresa, estaria apresentando falhas pontuais em cumprir a escala do serviço contratado. De acordo com a Fundação, a empresa Naja Saúde foi notificada formalmente na semana passada. A reportagem tentou contato com a empresa, mas não obteve retorno. O espaço segue em aberto.
A lista de contratos do Hospital Getúlio Vargas aponta a Naja Saúde como contratada por R$ 3.782.892,00 para serviço de anestesiologia, com vigência até 19 de janeiro de 2027.
Entre as pacientes que tiveram seus procedimentos adiados está Auria Beatriz Pagani, 64 anos. Auria fraturou um dos pés em outubro de 2025, quando passou por uma cirurgia de emergência e precisou de um fixador externo junto à perna.
Seis meses depois, ela substituiu o aparelho por placas e parafusos internos. No entanto, Auria teve uma série de complicações que dificultaram a cicatrização. De acordo com a família, ela precisava passar por outro procedimento, que foi marcado duas vezes, nos dias 21 e 27 julho. A cirurgia não ocorreu em nenhuma das duas datas.
— Ela ficou 18 horas em jejum. Na hora de fazer a cirurgia e ir para o bloco falaram que não tinha anestesista e mandaram para casa e prometeram que iam marcar uma nova data — explicou o filho Henrique Pagani, sobre a primeira tentativa.
O hospital confirmou o adiamento por falta de anestesista na primeira data. No entanto, alegou que na segunda tentativa a paciente apresentou uma condição clínica aguda, o que levou a equipe a optar pela internação para acompanhamento do quadro e pelo adiamento do procedimento. Auria foi operada na segunda-feira (3).

Em meio aos problemas enfrentados, a Fundação afirmou que, nos últimos anos, tem enfrentado cortes de investimento, entre eles a redução de repasses do Programa Assistir do Governo do Estado.
Procurada, a Secretária Estadual de Saúde (SES), respondeu por meio de nota (leia a íntegra abaixo) que o modelo de distribuição de recursos passou por uma mudança fundamentada "em critérios técnicos, indicadores epidemiológicos, perfil assistencial dos estabelecimentos, necessidades regionais e vazios assistenciais".
Particularmente sobre o Hospital Getúlio Vargas, a SES apontou que a análise dos dados financeiros e assistenciais do hospital em 2025 apresentaram "importante diferença" entre os recursos públicos destinados à ela e os registros nos sistemas oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Discrepâncias
Segundo a SES, em 2025, o hospital recebeu cerca de R$ 34,6 milhões de "Teto MAC" federal, principal bloco de financiamento do SUS destinado a custear atendimentos e procedimentos de média e alta complexidade (MAC).
Além disso, recebeu também mais de R$ 22,4 milhões em incentivos estaduais do Programa Assistir para custear as atividades. Conforme a pasta, a produção ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade registrada pelo hospital foi de R$ 13,5 milhões.
Estavam previstas 33.840 consultas e 5.160 cirurgias eletivas em 2025. Porém, o hospital realizou 89% das consultas esperadas e apenas 22,7% dos procedimentos cirúrgicos. Para a secretaria, a produção cirúrgica estava abaixo da capacidade financiada, indicando que parte da estrutura e dos recursos disponibilizados pelo Estado não está sendo convertida em serviços à população.
O que diz a Secretaria Estadual de Saúde
O Programa de Incentivo Hospitalar Assistir estabeleceu um novo modelo de distribuição dos incentivos estaduais, fundamentado em critérios técnicos, indicadores epidemiológicos, perfil assistencial dos estabelecimentos, necessidades regionais e vazios assistenciais, substituindo gradativamente mecanismos históricos de financiamento que não refletiam, de forma transparente, a produção e os serviços efetivamente disponibilizados à população.
Até a implantação do Assistir, aproximadamente 48,5% dos recursos destinados aos incentivos hospitalares eram concentrados em apenas 7,66% dos hospitais que prestavam serviços ao SUS no Estado.
Todos os estabelecimentos impactados pelas alterações no financiamento, bem como os municípios com gestão própria dos serviços hospitalares, foram formalmente notificados para manifestação. Entre esses estabelecimentos encontra-se o Hospital Getúlio Vargas, localizado no município de Sapucaia do Sul, cuja gestão hospitalar é municipalizada desde 2015.
A análise dos dados financeiros e assistenciais do Hospital Getúlio Vargas evidencia uma importante diferença entre os recursos públicos destinados ao estabelecimento e a produção registrada nos sistemas oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2025, o hospital recebeu R$ 34.665.201,65 de teto MAC federal e R$ 22.417.021,06 em incentivos estaduais do Programa Assistir, totalizando aproximadamente R$ 57,1 milhões para o custeio de suas atividades. No mesmo período, a produção ambulatorial e hospitalar de média e alta complexidade registrada alcançou R$ 13.501.881,39.
Em 2025, estavam previstas 33.840 consultas e 5.160 cirurgias eletivas, enquanto a produção efetivamente registrada correspondeu a 30.170 consultas (89,2% da meta) e 1.171 cirurgias (22,7% da meta). Embora o desempenho das consultas demonstre boa capacidade de atendimento ambulatorial, a produção cirúrgica permanece significativamente abaixo da capacidade financiada, indicando que parte da estrutura e dos recursos disponibilizados pelo Estado não está sendo convertida em serviços ofertados à população.
Os incentivos estaduais atualmente recebidos pelo Hospital Getúlio Vargas contemplam um amplo número de serviços estratégicos para a Rede de Atenção à Saúde, incluindo porta de entrada hospitalar, transplantes, maternidade de risco habitual, leitos de saúde mental, unidades de terapia intensiva e cuidados intermediários, além de diversos Ambulatórios de Especialidades, como traumatologia e ortopedia, cirurgia geral e cardiologia.
Sob a perspectiva da gestão pública, esses resultados evidenciam que o principal desafio não está, necessariamente, na insuficiência de financiamento, mas na capacidade de transformar os recursos disponíveis em produção assistencial efetiva.



