
Cápsulas, gotas e sprays que prometem uma boa noite de sono ocuparam as prateleiras das farmácias brasileiras nos últimos anos. Vendida sem receita, a melatonina virou a primeira tentativa de quem dorme mal, e é aí que mora o mal-entendido: ela não substitui um remédio para dormir.
— A melatonina não é um sedativo, como os hipnóticos tradicionais. É um marcador biológico da noite — define Gleison Guimarães, médico especialista em medicina do sono.
O hormônio é produzido pela glândula pineal. Ao anoitecer, a produção aumenta naturalmente e avisa ao organismo que é hora de desacelerar.
— Ela prepara o organismo para o repouso noturno e para o dia seguinte. Essa sincronização é fundamental para o bom funcionamento do corpo — acrescenta Guimarães.
A diferença prática importa na hora de comprar. Um calmante age sobre o sistema nervoso e derruba. A melatonina apenas sinaliza o horário, o que a torna eficaz em problemas relacionados ao relógio biológico e pouco útil em dificuldades de outra natureza.
Para que serve a melatonina

A melatonina é mais útil quando há alterações no ritmo circadiano, o relógio interno de aproximadamente 24 horas que regula o ciclo de sono e vigília. Entre as situações em que pode ser indicada estão:
- Jet lag: após viagens que atravessam vários fusos horários
- Trabalho em turnos: quando mudanças frequentes nos horários desregulam o ciclo de sono e vigília
- Distúrbios do ritmo circadiano: quando a pessoa dorme e acorda em horários diferentes do desejado ou habitual
- Insônia em idosos: quando a redução natural da produção de melatonina contribui para alterações no sono
- Alguns casos em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e TDAH, sempre com prescrição e acompanhamento profissional.
— A suplementação pode ser útil em pessoas com alterações no ritmo do sono, mas seu uso não deve ser indiscriminado. O ideal é sempre buscar avaliação médica — reforça Mateus Dornelles Severo, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Como escolher e como tomar a melatonina

Antes de comprar, é importante verificar se o produto está regularizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O horário de uso também importa. Em geral, a orientação é tomar a melatonina entre 30 minutos e duas horas antes do horário desejado para dormir, preferencialmente em um ambiente com pouca luz.
Quando o objetivo é ajustar o relógio biológico, e não apenas facilitar o sono naquela noite, o horário pode variar conforme o objetivo. Sobre a dose, a recomendação é começar com quantidades baixas.
— Começar com doses baixas, entre 0,5 miligrama e 1 miligrama, é o mais seguro. Doses mais altas não garantem mais eficácia e podem atrapalhar o ciclo natural do sono — orienta a médica Suamy Goulart.
No Brasil, o limite diário autorizado para suplementos por cápsula é de 0,21 miligrama (mg). Quantidades superiores exigem avaliação e orientação médica, conforme a situação.
Melatonina não faz mais efeito, e agora?
É comum que pessoas procurem o consultório dizendo que a melatonina deixou de fazer efeito. Segundo Guimarães, as principais explicações são:
- Uso no horário inadequado
- Dose excessiva, que pode prejudicar a resposta do organismo
- Expectativa equivocada, quando a dificuldade para dormir não está relacionada ao relógio biológico
Ansiedade, estresse e apneia do sono, por exemplo, têm outras causas e não são resolvidos simplesmente aumentando a dose de melatonina.
O que a Anvisa autoriza

Em outubro de 2021, a Anvisa autorizou o uso da melatonina em suplementos alimentares destinados a pessoas com 19 anos ou mais, com consumo diário máximo de 0,21 miligrama (mg).
Os rótulos devem informar que o produto não deve ser consumido por gestantes, lactantes, crianças e pessoas que realizam atividades que exigem atenção constante. Quem tem alguma doença ou faz uso de medicamentos deve consultar um profissional de saúde antes de utilizar o suplemento.
Quem tem alguma doença ou faz uso de medicamentos deve consultar um profissional de saúde antes de utilizar o suplemento.
Cabe ressaltar órgão não autorizou alegações de benefícios associadas ao consumo de melatonina. Ou seja, o suplemento não pode prometer resultados terapêuticos. A melatonina também não é aprovada como medicamento no Brasil e não possui indicação reconhecida no país para tratar insônia, distúrbios do sono, ansiedade ou transtornos do humor.
Também são considerados irregulares suplementos que ultrapassam o limite diário ou fazem alegações terapêuticas, como "auxilia no sono". Por isso, frascos de 3 mg, 5 mg ou 10 mg comprados em sites internacionais não estão de acordo com as regras brasileira
Quem não deve usar
Sem orientação profissional, a melatonina deve ser evitada por pessoas com:
- Epilepsia
- Asma
- Doenças inflamatórias ou autoimunes
- Transtornos de humor ou de personalidade
Também é importante evitar o uso antes de dirigir, operar máquinas ou realizar atividades que exijam atenção contínua.
A substância pode ainda interagir com antidepressivos, ansiolíticos, anticonvulsivantes e medicamentos para pressão arterial. Por isso, quem utiliza esses remédios deve buscar avaliação profissional antes de tomar melatonina.
Efeitos colaterais
A melatonina costuma ser bem tolerada, mas pode provocar efeitos indesejados, especialmente quando usada sem orientação. Os mais relatados são:
- Sonolência durante o dia
- Dor de cabeça
- Sonhos vívidos ou pesadelos
- Tontura
- Náusea e vômito
- Dor abdominal
- Irritabilidade
- Tremores e enxaqueca
- Erupções na pele
A substância não costuma causar dependência física, mas o uso indiscriminado pode desregular o sono. Reações adversas podem ser comunicadas à Ouvidoria da Anvisa.
— A melatonina não é para tratar tudo nem deve ser a primeira opção diante de qualquer dificuldade para dormir. Antes de recorrer ao suplemento, o ideal é revisar hábitos, rotina, exposição à luz e o próprio ambiente de sono — adverte Suamy.



