
Um medicamento experimental pode se tornar o primeiro remédio oral novo contra a calvície em quase 30 anos. Pensado para reduzir os riscos cardíacos do minoxidil e atender também às mulheres, o VDPHL01 estimulou o crescimento de cabelo em um estudo com 519 homens divulgado em abril pela biofarmacêutica norte-americana Veradermics. Os resultados, porém, ainda são preliminares.
Os tratamentos aprovados contra a queda de cabelo mudaram pouco desde os anos 1990. De lá para cá, houve avanços em procedimentos e formulações, mas nenhuma terapia oral específica para a alopecia androgenética chegou ao mercado.
Conhecida como calvície comum, a alopecia androgenética tem origem genética e hormonal. Nessa condição, os fios vão ficando cada vez mais finos até deixarem de nascer. É a forma de queda mais frequente em homens e mulheres.
A aposta atual é o VDPHL01. O medicamento não é uma molécula nova. Trata-se de uma formulação oral de minoxidil de liberação prolongada, desenvolvida pela Veradermics para tratar especificamente a calvície. O minoxidil já é prescrito por via oral no Brasil para estimular o crescimento dos fios, ainda que de forma off-label, ou seja, fora da indicação original aprovada em bula.
— A expectativa é combinar eficácia com um menor risco de efeitos colaterais, mas isso ainda precisa ser confirmado por estudos completos e com acompanhamento de longo prazo — explica Fernanda Lagares Xavier Peres, membro Sociedade Brasileira de Dermatologia - Secção RS (SBD-RS)
O que é o minoxidil

Criado nos anos 1970 como um vasodilatador — medicamento usado para tratar a pressão alta —, o minoxidil teve o crescimento de pelos identificado como um efeito colateral. Hoje, esse efeito é justamente o que o torna útil no tratamento da calvície.
Segundo Andressa Vargas, dermatologista e membro da SBD, no couro cabeludo ele age sobre as células ao redor da raiz do fio e prolonga a fase de crescimento do cabelo.
A principal diferença em relação à finasterida e à dutasterida, hoje pilares do tratamento da calvície masculina, está no mecanismo de ação. Esses medicamentos bloqueiam o DHT, hormônio que contribui para a miniaturização dos fios — processo em que o cabelo nasce cada vez mais fino até deixar de crescer.
Como o DHT também exerce outras funções no organismo, sobretudo ligadas ao sistema reprodutor masculino, o seu bloqueio pode provocar efeitos hormonais e sexuais. O minoxidil atua por outra via, sem interferir no DHT.
— Por ser uma terapia não hormonal, o VDPHL01 pode ser especialmente interessante para mulheres, que têm menos opções aprovadas e muitas limitações com antiandrógenos, sobretudo em idade fértil, durante a gestação ou quando há contraindicações — aponta Andressa.
— Contudo, os dados preliminares divulgados até o momento referem-se apenas a pacientes do sexo masculino — complementa Fernanda.
O que muda com a liberação prolongada
O minoxidil continua sendo o mesmo, mas, em vez de ser absorvido rapidamente após a ingestão, passa a ser liberado aos poucos ao longo do dia.
— Na prática, a promessa é manter níveis terapêuticos por mais tempo, possivelmente com melhor tolerabilidade e menor risco de efeitos relacionados aos picos de concentração, como palpitação, taquicardia, edema ou queda de pressão — observa Andressa.
O foco na segurança cardiovascular tem motivo. As doses testadas no estudo, de 8,5 miligramas uma ou duas vezes ao dia, são superiores às normalmente prescritas hoje nos consultórios.
— Em geral, usamos cerca de 0,25 mg a 2,5 mg por dia em mulheres e 1 mg a 5 mg por dia em homens, sempre individualizando conforme risco, tolerância e resposta. Por isso, a segurança cardiovascular precisa ser muito bem demonstrada — pondera a dermatologista.
Quais os tratamentos contra a calvície

Enquanto o novo remédio não chega, a calvície já conta com tratamentos de eficácia comprovada, que costumam ser usados em combinação. A associação das terapias e a escolha do procedimento variam conforme fatores como idade, gravidade da doença e presença de comorbidades.
— A avaliação dermatológica é fundamental para individualizar o tratamento, definindo as medicações e as doses mais adequadas para cada paciente — comenta Fernanda.
Para os homens com quadro leve a moderado, a base do tratamento costuma combinar o controle hormonal da miniaturização dos fios com o estímulo ao crescimento.
Principais opções
- Finasterida oral ou, em alguns casos, dutasterida, para reduzir a ação do DHT, hormônio ligado ao afinamento dos fios
- Minoxidil tópico ou minoxidil oral em baixa dose, para estimular o crescimento do cabelo
- Microagulhamento, que pode ser associado aos medicamentos
- Laser de baixa intensidade, para estimular a atividade dos folículos capilares
- PRP (plasma rico em plaquetas), em casos selecionados
- Transplante capilar, quando há indicação cirúrgica
— O padrão mais consolidado ainda é combinar o controle hormonal da miniaturização com o estímulo ao crescimento — resume Andressa.
Quanto custa e como funciona cada tratamento
Os valores abaixo são estimativas de mercado levantadas em julho deste ano e variam conforme a marca, a cidade, a clínica e a gravidade do caso. Veja abaixo os medicamentos de uso diário e contínuo.
- Finasterida (comprimido): bloqueia a enzima que transforma a testosterona em DHT, hormônio responsável pela miniaturização dos fios. Na versão genérica, custa cerca de R$ 30 a R$ 80 por mês
- Dutasterida (comprimido): age pela mesma via, com bloqueio mais amplo e potente da enzima. É indicada em alguns casos, muitas vezes de forma off-label para o cabelo. Custa mais que a finasterida: o genérico de 0,5 mg fica entre R$ 100 e R$ 210 por mês
- Minoxidil tópico (solução ou espuma): aplicado no couro cabeludo, prolonga a fase de crescimento do fio. Fica em torno de R$ 50 a R$ 120 por mês
- Minoxidil oral em baixa dose: a mesma ação do tópico, em cápsula manipulada e por prescrição off-label. Só pode ser preparado por farmácias com licença específica, por ser substância de baixo índice terapêutico. Costuma sair por cerca de R$ 30 a R$ 70 por mês, conforme a dose
Quando os medicamentos não bastam ou o caso exige reforço, entram os procedimentos realizados em consultório.
- Microagulhamento: um aparelho com agulhas muito finas faz microperfurações no couro cabeludo, estimulando fatores de crescimento e favorecendo a absorção dos medicamentos. Gira entre R$ 250 e R$ 700 por sessão
- Laser de baixa intensidade: uma luz estimula a atividade das células dos folículos capilares. As sessões em clínica custam de R$ 150 a R$ 400 e há ainda aparelhos de uso doméstico, como capacetes e bonés, vendidos separadamente
- PRP (plasma rico em plaquetas): o médico coleta o sangue do paciente, separa, em uma centrífuga, a fração rica em plaquetas e a injeta no couro cabeludo para estimular os folículos. Custa entre R$ 150 e R$ 700 por sessão, geralmente em pacotes de três a seis aplicações
- Transplante capilar: cirurgia que retira fios de uma área doadora, geralmente a nuca, e os implanta nas falhas. Reservado a casos selecionados, custa de R$ 15 mil a R$ 40 mil, conforme a técnica utilizada e o número de fios transplantados
Opções para as mulheres
Nas mulheres, o ponto de partida é diferente e começa pela investigação da causa da queda de cabelo. Segundo Fernanda, o minoxidil tópico é o tratamento aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a calvície feminina.
Na prática clínica, porém, outras opções consolidadas também podem ser utilizadas de forma off-label. A escolha da terapia depende de fatores como:
- Fase reprodutiva
- Presença de comorbidades
- Investigação de causas associadas
- Características de cada paciente
— A individualização do tratamento é fundamental — reforça Fernanda.
Antes de definir a estratégia terapêutica, é preciso verificar se há condições que estejam provocando ou agravando a queda de cabelo. Segundo Andressa, a investigação costuma incluir:
- Deficiência de ferro
- Alterações da tireoide
- Pós-parto
- Menopausa
- Síndrome dos ovários policísticos
- Uso de determinados medicamentos
- Eflúvio telógeno, queda temporária de cabelo desencadeada por estresse, doença, cirurgia ou alterações hormonais
Dermatologistas também podem recorrer ao minoxidil oral em baixa dose, à espironolactona e a outros antiandrógenos em casos selecionados, sempre após avaliar as contraindicações. Os antiandrógenos são medicamentos que reduzem a ação dos hormônios masculinos relacionados ao afinamento dos fios.
Outro ponto importante é que o tratamento costuma ser contínuo e o custo varia conforme as medicações e os procedimentos indicados para cada paciente.
— Quando o tratamento é interrompido, o afinamento dos fios retoma a sua evolução natural. Não são tratamentos com início, meio e fim, mas sim de manutenção contínua — afirma Fernanda.




