
Com aplicação suspensa nesta segunda-feira (8) pelo Ministério da Saúde, a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan passou por uma pesquisa que durou cinco anos e envolveu 16 estudos clínicos e a vacinação de 11 mil pessoas em todo o Brasil, segundo o governo federal.
Mesmo assim, reações severas em 42 pessoas e a morte de duas pessoas — ainda sem confirmação de vinculação com o imunizante — motivaram a paralisação preventiva da oferta das doses, para investigação dos casos.
Apesar de ter passado por todos os processos de certificação de eficácia e segurança, é comum que uma vacina apresente efeitos adversos em uma parcela pequena da população. Menos comum, mas também possível, é que reações severas raras não apareçam ao longo dos estudos prévios com o imunizante, mas sejam registradas quando as doses já foram aplicadas em um número considerável de pessoas:
É como se fosse um estudo de fase 4 (pesquisa pós-comercialização), que é o estudo de farmacovigilância. É um estudo que acontece geralmente na vida real, após a liberação do produto para o uso em humanos
EDUARDO SPRINZ
infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
O Hospital São Lucas, da PUCRS, foi um dos centros de pesquisa a conduzir o estudo. Lá, 850 voluntários foram acompanhados durante a pesquisa. Procurado, o São Lucas informou que não comentará o caso neste momento, que está sendo tratado entre o Butantan e o governo federal.
Em nota, o Instituto Butantan informou que aproximadamente 500 mil pessoas já se vacinaram com o imunizante e que houve “alguns casos de reação adversa detectados, três deles com sinal de gravidade”, e que eles “podem ou não estar relacionados à vacinação”.
Conforme a instituição, as doses tiveram eficácia global de 79,6% e 89% contra a dengue grave em estudo publicado em revista científica internacional, e nos três municípios onde houve vacinação em massa da população — Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG) — “o acompanhamento de farmacovigilância se mostrou positivo, sem casos importantes de reação adversa na população”. Em março, o imunizante também foi usado na região de Araguaína (TO).
As doses destinadas à população geral, todavia, são minoria. Somam 83,6 mil pessoas, conforme o Ministério da Saúde. Os demais 417,4 mil são compostos por profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros da saúde básica.
A Secretaria Estadual da Saúde não soube informar nesta segunda-feira (8) quantas doses foram aplicadas no Rio Grande do Sul. Por meio de nota, respondeu apenas que acatará a suspensão da aplicação.
Motivos de reações
A vacina contra a dengue compreende um vírus vivo atenuado, o que faz com que, muitas vezes, seja contraindicada ou, ao menos, não indicada para pessoas com algum grau de deficiência imunológica. Segundo Sprinz, as preocupações envolvendo o imunizante contra essa doença são duas:
— Um dos medos é de que, por ser um vírus atenuado, a pessoa pudesse vir a desenvolver dengue, e algumas pessoas podem desenvolver quadros mais graves. O outro receio é de que possam existir vacinas que não só causem sintomas parecidos com os da dengue, mas que gerem uma reação no organismo de pessoas que já tiveram dengue que seja desproporcional à ameaça e, com isso, desenvolvam uma forma mais grave da doença — descreve o médico.
Mesmo que haja um pequeno risco de efeito adverso grave — de acordo com análise do Ministério da Saúde, 0,7% do total vacinado registrou reação, e os casos com sinais de alarme, que levaram à suspensão, são 0,008% das pessoas imunizadas —, Sprinz ressalta que o imunizante foi desenvolvido para proteger da doença, e não para causá-la, e que o cidadão deve avaliar se vale a pena arriscar contrair o vírus sem se vacinar diante desse cenário.
Para aqueles que já se vacinaram, não há necessidade de pânico: a reação vacinal ocorre em até três a quatro semanas após a imunização. O único cuidado recomendado pelo infectologista é ficar atento a sintomas comuns da dengue:
- Febre persistente por dias
- Dor abdominal
- Náuseas
- Vômitos
- Manchas pelo corpo
Em caso de continuidade desse quadro, a orientação é buscar atendimento médico.





