
Uma pesquisa publicada na The Lancet, revista científica britânica, no último sábado (6), trouxe dados sobre o uso de retatrutida em pacientes com diabetes tipo 2 não controlada. O estudo mostrou uma perda de peso que pode chegar a 25% ou mais, em alguns casos, durante uso por 40 semanas. Na dose mais elevada (12 miligramas), a média foi de 15,3% de redução de peso.
A pesquisa foi financiada pela Eli Lilly, farmacêutica responsável pelo desenvolvimento do medicamento. No mesmo dia, a empresa participou da seção científica da Associação Americana de Diabetes, nos Estados Unidos. Na ocasião, apresentou mais detalhes em relação aos que já havia divulgado ainda em maio.
Um relatório próprio da farmacêutica mostrou que a retatrutida pode gerar uma perda de peso de 28,3% em pacientes com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes. Em alguns casos, houve quem perdesse 35% ou mais. Esses números são referentes a 80 semanas de uso do medicamento. A companhia comparou o resultado ao obtido com cirurgias bariátricas.
O laboratório relatou ainda que parte dos participantes conseguiu sair da faixa do Índice de Massa Corporal (IMC) que indica obesidade, ficando abaixo desse limiar.
A seguir, entenda:
O que é a retatrutida?
A retatrutida é uma molécula ainda em fase de desenvolvimento, estudada para tratamento de diabetes tipo 2, obesidade, sobrepeso e complicações relacionadas. Eficácia e segurança estão sendo avaliados em ensaios clínicos.
A expectativa é de que, quando liberado, o medicamento seja mais uma opção entre as canetas emagrecedoras, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy.
Já está à venda?
Não. A venda não está autorizada, já que o medicamento ainda passa por fase de pesquisa e não tem aprovação de agências regulatórias. O uso é permitido apenas em estudos clínicos.
Hoje, a comercialização de qualquer medicamento anunciado à base de retatrutida é ilegal e não tem segurança comprovada.
A empresa Eli Lilly alerta: "Produtos ilícitos de retatrutida podem conter ingredientes desconhecidos, contaminantes nocivos e impurezas. Esses produtos também podem conter uma quantidade excessiva ou insuficiente do princípio ativo, ou o ingrediente errado".
O lançamento ainda dependerá da conclusão dos estudos e da realização de processo de aprovação de agências regulatórias.
Como funciona a retatrutida?
Em termos técnicos, a retatrutida é chamada de triplo agonista — ou seja, é uma molécula que tem efeitos parecidos aos de três hormônios. São eles: peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e glucagon.
Esses três hormônios são produzidas naturalmente pelo organismo. O GLP-1 vem do intestino e é liberado após as refeições, como explica a médica endocrinologista Ticiana da Costa Rodrigues, chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).
— O GLP-1 tem receptores em vários órgãos, entre eles no próprio estômago, que lentifica a nossa digestão e avisa o cérebro: "Estou saciado, chega de comer". O problema é que esse nosso receptor tem uma meia-vida bem curtinha, de alguns minutos. Ele serve bem para esse período pós-refeição. Quando usamos uma substância externa semelhante, um análogo, que tem uma meia-vida mais prolongada, esse efeito é mais sustentado — detalha.
Assim, a sensação de saciedade dura mais tempo. A nível cerebral, o GLP-1 ajuda a manejar a compulsão alimentar.
O GIP tem um comportamento parecido. Segundo Ticiana, é um hormônio também liberado no pós-refeição e com meia vida curta.
A novidade da retatrutida está em levar em conta o glucagon. O hormônio é produzido no pâncreas e evita que a glicose baixe.
— Nesse triplo agonista (a retatrutida), o revolucionário é porque ele tem esse terceiro efeito, que é então um agonista do glucagon. Ele intensifica, é mais potente tanto nesse efeito de lentificar o esvaziamento gástrico quanto nesse efeito cerebral de controle do apetite. E ele modula o metabolismo da glicose associado — resume a médica endocrinologista sobre o diferencial do novo medicamento.
Qual é a diferença para Mounjaro e Ozempic?
Como pontua a especialista, a retatrutida tem um efeito aditivo em relação a medicamentos como Ozempic, Mounjaro e Wegovy.
A semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, é análoga a um hormônio, o GLP-1. Já a tirzepatida, que compõe o Mounjaro, imita a ação de dois hormônios, GLP-1 e GIP, ou seja, é uma molécula com dupla função.
A retatrutida, por sua vez, tem tripla função por ter efeitos parecidos aos de três hormônios: GLP-1, GIP e glucagon.
— Do ponto de vista prático para o paciente, de uso de caneta, por exemplo, é semelhante. Ele vai usar uma aplicação semanal, subcutânea, como vinha fazendo. A diferença é que ele ganha potência — compara a médica, que também é presidente da seção gaúcha da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Quais são os principais benefícios da retatrutida?
A medicação ainda não tem bula — tendo em vista que está em fase de pesquisa e não foi liberada para comercialização.
Com base nos estudos já realizados e na comparação com substâncias semelhantes, a endocrinologista Ticiana avalia que pessoas com diabetes tendem a apresentar um controle glicêmico mais eficaz, associado a uma perda de peso mais expressiva. Já entre aqueles com obesidade, a expectativa também é de um emagrecimento mais significativo.
A médica acrescenta que há possibilidade de melhora em apneia do sono e em doenças articulares ou osteoartrite de joelhos, devido à redução do peso.
Nos dados divulgados em maio pela farmacêutica responsável, a empresa destacou a melhora em relação a fatores de risco cardiovascular, como colesterol não-HDL, triglicerídeos e pressão arterial sistólica.
O estudo publicado na The Lancet concluiu que a retatrutida administrada uma vez por semana pode oferecer um "tratamento de primeira linha" para diabetes tipo 2 em estágio inicial, "proporcionando controle glicêmico eficaz, além de benefícios de redução de peso clinicamente relevante e melhora nos parâmetros cardiometabólicos".
A retatrutida tem efeitos colaterais?
Sim. A pesquisa publicada na The Lancet listou alguns eventos adversos, relatados por 254 dos 403 participantes que receberam a medicação. Os mais comuns foram problemas gastrointestinais, de intensidade leve a moderada, que ocorreram principalmente durante o processo de aumento das doses. Foram casos, por exemplo, de diarreia, náusea, vômito e constipação.
Os efeitos são semelhantes aos relatados durante tratamento com outras canetas emagrecedoras, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy.
Frente a isso, a endocrinologista Ticiana reforça a importância do acompanhamento profissional.
— O profissional vai poder orientar: "Tu pode apresentar isso ou aquilo, tu vai agir dessa ou daquela maneira". Talvez tenham que ser feitos ajustes mais lentos, de maneira individualizada para cada paciente — completa.
