Vídeos de skincare e maquiagem publicados por crianças e adolescentes têm chamado a atenção de especialistas. Nas redes sociais, são frequentes os conteúdos de rotinas de cuidados com a pele e de "arrume-se comigo", muitas vezes envolvendo o uso de múltiplos cosméticos.
Uma rápida pesquisa no TikTok já mostra alguns exemplos. Em vídeo de 2025, uma mini influenciadora com cerca de 10 anos mostra a maquiagem que fez para ir à escola, usando base, contorno, blush, sombra, lápis de boca, batom e rímel.
Em outro perfil, em 2023, uma influenciadora digital com cerca de 12 anos mostrou como se arrumaria para o aniversário da irmã: só no preparo da pele ela utilizou oito produtos no rosto.
A médica dermatologista Flávia Reginatto, pesquisadora de saúde da criança e do adolescente, traz um alerta sobre esse cenário:
— Hoje, vemos crianças pequenas, de oito, nove, 10 anos, realizando rotinas de skincare com múltiplos produtos e muitos deles de forma inadequada, desenvolvidos para adultos e que não são necessários nessa faixa etária.
Entre especialistas, esse comportamento tem sido associado ao que vem sendo chamado de cosmeticorexia, termo utilizado para descrever a preocupação excessiva com a aparência da pele e o uso inadequado ou exagerado de cosméticos desde cedo.
Quais produtos de pele não devem ser usados por crianças e adolescentes?

Flávia, que também é integrante da seção gaúcha da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), reforça quais produtos não devem ser usados por crianças e adolescentes:
- ácidos esfoliantes (como os ácidos glicólico, salicílico e mandélico)
- retinoides
- produtos clareadores
- esfoliantes físicos
- produtos com múltiplos ativos combinados
Ela explica que os cosméticos de uso adulto são feitos para uma espessura de pele própria desta faixa etária. Considerando a pele de crianças e adolescentes, ainda que esses produtos fossem adequados, não resultariam no efeito desejado.
Ao mesmo tempo, as peles mais jovens têm uma capacidade maior de absorção. É neste sentido que o uso excessivo e incorreto de cosméticos pode causar problemas como:
- irritação na pele
- dermatite de contato
- vermelhidão
- ardência
- descamação
- sensibilidade aumentada ao sol
- alteração da barreira da pele
- piora da acne
Crianças e adolescentes podem fazer skincare?

A dermatologista ainda explica que não é porque certos produtos não podem ser usados que o cuidado com a pele deve ser deixado de lado. Pelo contrário: a atenção à saúde vale para todas as idades. De modo geral, a proteção contra o sol é ponto-chave.
Segundo Flavia, para crianças, a rotina básica já é suficiente, como:
- limpeza suave do rosto
- hidratação nos dias em que a pele estiver mais ressecada
- proteger do sol, seja com protetor solar, seja escapando dos horários inadequados de exposição
Para adolescentes, as recomendações são as mesmas, com o acréscimo da indicação para limpezas adequadas ao tipo de pele. Tratamentos específicos para acne devem ser orientados e realizados apenas quando necessário, como orienta a dermatologista:
— Hoje o tratamento da acne tem um escalonamento. Começamos com algum medicamento e, depois, vamos aumentando conforme a necessidade de cada paciente. Então, o tratamento tem de ser feito sempre por um dermatologista.
O que explica a obsessão com a pele?
A cosmeticorexia não deve ser entendida como um diagnóstico.
Em artigo publicado em 2026 na revista científica Dermatology and Therapy, dois pesquisadores italianos explicam que o surgimento desse "fenômeno" e obsessão com a pele está situado em mudanças do início do século 21 que "medicalizaram a beleza e amplificaram a exibição da aparência". Procedimentos antes feitos apenas em consultório passaram a integrar o autocuidado do dia a dia.
Ao mesmo tempo, as mídias sociais e os influenciadores normalizaram uma constante apresentação de si mesmos, segundo os autores do texto, o psicólogo Alberto Stefana e o dermatologista Giovanni Damiani.
"Dentro desse ambiente, pré-adolescentes e adolescentes estão especialmente expostos: evidências meta-analíticas associam maior uso ou dependência de mídias sociais (ou seja, nomofobia) à maior comparação social online, que, por sua vez, se relaciona ao aumento de preocupações com a imagem corporal, menor autoimagem positiva e comportamentos desordenados de gerenciamento da aparência", escreveram.
Zero Hora procurou a a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos Abihpec para questionar como a entidade avalia a cosmeticorexia, quais são as regras para identificação de produtos destinados a crianças e adolescentes e se há orientações ao consumidor sobre o uso desses cosméticos. A associação preferiu não se manifestar.
Por que a busca por uma "pele perfeita" tão cedo?
Os conteúdos aos quais crianças e adolescentes têm acesso nas redes sociais ajudam a moldar esse cenário. Imagens produzidas com Inteligência Artificial (IA) ou fotos com filtros dão uma falsa ideia de perfeição. Como pontua o psicólogo clínico José Hugo de Siqueira Fernandes, ao se olhar no espelho, a pessoa vê uma imagem que já não parece suficiente.
A psicanalista Karina Sassi, integrante da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, avalia que esse tipo de "fenômeno" pode ser compreendido a partir de uma articulação entre construção subjetiva, cultura e normas de gênero.
— A chamada feminilidade convencional, fortemente organizada em torno da normatividade cis-heterossexual, exige historicamente das meninas uma atenção maior à aparência, à legibilidade do corpo e à adequação a determinados ideais estéticos — analisa.
Karina acrescenta ainda que a cor de pele não pode ser deixada de lado:
— A pele "perfeita" não é neutra. Historicamente ela vai se organizar também a partir de um ideal de brancura, de uniformidade.
Impactos na saúde mental
A preocupação excessiva com a estética também pode mexer com saúde mental. O psicólogo José Hugo, que trabalha com infância e adolescência, esclarece que essa situação pode levar a quadros de depressão, ansiedade, falta de autoconfiança e de autoestima, assim como a transtorno dismórfico corporal (TDC) – quando a pessoa tem uma visão distorcida da própria imagem corporal.
A psicanalista Karina Sassi ressalta que o fenômeno da cosmeticorexia não pode ser analisado sem considerar o ambiente em que se insere, marcado por exigência de performance, comparação constante e valorização excessiva da imagem.
Como pais devem lidar com a obsessão por skincare entre crianças e adolescentes?
Uma das dicas da dermatologista Flávia Reginatto é que os pais ou responsáveis estejam atentos aos conteúdos digitais consumidos pelas crianças e adolescentes.
— A mensagem transmitida é de que a pele deve ser completamente uniforme, sem poros, sem textura e sem imperfeições, mas sabemos que isso não existe — completa.
Se houver interesse em rotinas de skincare, a orientação é buscar auxílio de dermatologista ou pediatra.
Karina Sassi explica que o comportamento não deve ser proibido ou desqualificado, mas, sim, compreendido. A ideia é entender o que está por trás dessa preocupação ou obsessão.
— Pode ser mais produtivo abrir um espaço para o diálogo e observar os próprios discursos que circulam no ambiente familiar: aquilo que é dito sobre corpo, aparência, valor, cuidado, sucesso e também os conteúdos e referências que os próprios adultos consomem e reproduzem — afirma.
Como orienta o psicólogo José Hugo, a família deve valorizar a beleza singular da criança ou do adolescente.
— Não nascemos autoconfiantes. Precisamos, primeiro, de uma referência que nos diga que, sim, somos bons o suficiente e temos capacidade de fazer uma ou outra coisa — reforça.




