
Um comprimido tomado uma vez ao dia praticamente dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático, um dos tumores mais letais que existem, e animou oncologistas a enxergar ali o começo de uma virada contra a doença.
Apresentada no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2026, em Chicago, e publicada no New England Journal of Medicine, a droga oral daraxonrasib foi colocada à prova contra a quimioterapia convencional e levou milhares de médicos a uma longa salva de palmas de pé na sessão plenária do maior encontro de oncologia do mundo.
Para a oncologista Daiana Scheid, da Santa Casa de Porto Alegre, o resultado pode ser o primeiro passo de um caminho mais ambicioso, ainda que distante e cercado de cautela.
— Talvez seja o pontapé inicial para a cura de uma das doenças mais temidas da oncologia. Ainda é muito precoce, mas representa esperança — afirma a oncologista.
A reação da plateia, incomum em um ambiente científico treinado para desconfiar de resultados bons demais, tem uma explicação dupla, segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Clarissa Baldotto, que estava presente.
Primeiro, porque o câncer de pâncreas raramente protagoniza a sessão principal de um congresso desse porte, dado o histórico de fracassos no tratamento. Depois, porque o avanço veio justamente sobre uma alteração genética que sempre escapou às tentativas anteriores.
— É como se abríssemos uma porta que estava fechada há muito tempo — resume a oncologista.
O que é o daraxonrasib

O daraxonrasib é uma terapia-alvo de uso oral, desenvolvida pela farmacêutica americana Revolution Medicines.
Terapia-alvo é o nome dado aos medicamentos que atacam um mecanismo específico das células tumorais, em vez de agir de forma ampla sobre todas as células que se dividem rapidamente, como faz a quimioterapia tradicional.
No caso do daraxonrasib, trata-se de um comprimido de 300 miligramas (mg) tomado uma vez ao dia, o que altera a própria rotina do tratamento: em vez das idas frequentes ao hospital para receber a medicação na veia, o paciente toma o remédio em casa.
Como o estudo foi feito
Segundo Daiana, o estudo acompanhou pacientes que já haviam recebido quimioterapia para câncer de pâncreas, mas apresentaram progressão da doença.
Os participantes foram divididos em dois grupos:
- Grupo 1: recebeu uma nova quimioterapia, chamada de tratamento de segunda linha.
- Grupo 2: passou a tomar o comprimido daraxonrasib uma vez ao dia.
Os pesquisadores avaliaram:
- quanto tempo os pacientes viveram
- quanto tempo a doença permaneceu controlada
- como os tumores responderam ao tratamento
Resultado:
- os pacientes que receberam daraxonrasib viveram mais tempo do que aqueles que fizeram quimioterapia
- a sobrevida mediana passou de 6,7 meses para 13,2 meses
- o tratamento foi associado a uma redução de 60% no risco de morte durante o período analisado
- a taxa de redução tumoral foi três vezes maior do que a observada com a quimioterapia
Para Daiana, o tamanho do avanço só é compreendido à luz da estagnação anterior. O câncer de pâncreas figura entre os mais temidos da oncologia, e a especialidade vinha sem novidades relevantes havia mais de uma década.
— Isso abre uma esperança enorme no tratamento de uma doença muito agressiva — afirma Daiana.
O que diferencia o medicamento das terapias-alvo que já existiam é a abrangência. Há remédios anteriores voltados à família RAS, grupo de proteínas que controla o crescimento e a multiplicação das células, mas eles miravam alvos muito estreitos.
O professor da Escola de Medicina da PUCRS e oncologista do Hospital Nora Teixeira, André Fay, explica que as drogas disponíveis até então atuavam sobre a KRAS G12C, uma mutação específica encontrada em uma pequena parcela dos pacientes. O daraxonrasib amplia esse raio de ação.
— Ele consegue atuar contra uma gama muito mais ampla de alterações da família RAS, podendo beneficiar um número grande de pessoas — diz Fay.
Como o remédio age no tumor

Para entender o feito, é preciso conhecer o alvo. A proteína RAS funciona como um interruptor que ordena às células quando devem crescer e se multiplicar.
Quando o gene que a comanda sofre uma mutação, esse interruptor trava na posição "ligado", e as células passam a se reproduzir sem freio, formando o tumor.
Esse defeito aparece em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas, o que faz da RAS o principal motor da doença. Por décadas, ela foi classificada como "indrogável", um jargão científico para dizer que nenhum medicamento conseguia se ligar a ela de forma eficaz.
Daiana recorre a uma imagem elétrica para descrever a solução. A via da RAS é cheia de pontos de ligação, e o daraxonrasib age sobre um deles, como um disjuntor que desarma o circuito.
Ao se fixar nesse ponto, a droga interrompe o sinal que manda as células se multiplicarem, e a proliferação do tumor é freada.
A razão de a proteína ter resistido por tanto tempo às tentativas da ciência está em sua forma física, explica Fay. Diferentemente de outros alvos, a RAS é uma estrutura pequena e de superfície lisa, sem reentrâncias onde um remédio possa se encaixar com firmeza.
— De forma leiga, seria como tentar colocar uma chave em uma fechadura incompatível. O que mudou foi a descoberta de novas estruturas químicas e estratégias, como os inibidores da KRAS G12C e, agora, inibidores mais amplos do RAS ativo — afirma o professor.
Clarissa acrescenta uma camada a essa dificuldade. Mesmo quando os pesquisadores conseguiam bloquear um sinal da proteína, ela encontrava rotas alternativas para permanecer ativa, como um desvio em uma estrada interditada. Faltava um medicamento capaz de barrar todos os caminhos de uma vez.
— O daraxonrasib funciona mais ou menos como uma cola que impede a reprodução da proteína RAS — compara a presidente da SBOC.
A sobrevida realmente dobra?
A afirmação é correta, mas exige contexto para não virar uma promessa exagerada. O ganho foi medido em um grupo específico: pacientes que já haviam passado por pelo menos um tratamento e cuja doença havia progredido.
No estudo de fase 3, batizado de RASolute 302, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses entre os que receberam o daraxonrasib, contra 6,7 meses no grupo da quimioterapia.
Ao todo, participaram 500 pessoas com adenocarcinoma ductal pancreático metastático, o tipo mais comum e agressivo do tumor.
Daiana considera apropriado dizer que houve um dobro de sobrevida nesse grupo, porque foi exatamente isso que o estudo mediu: o tempo de vida dos pacientes em cada braço da pesquisa.
Quem fez quimioterapia viveu, em média, seis meses e meio, e quem tomou o comprimido chegou perto de 14 meses.
O cuidado, alerta Fay, está em traduzir esse número para a expectativa de cada paciente. A sobrevida mediana é o ponto que separa o estudo ao meio: metade dos pacientes faleceu antes daquele tempo, e a outra metade viveu mais, alguns muito mais. Não é, portanto, uma garantia individual.
— É quase o dobro, mas não significa que cada pessoa, individualmente, viverá o dobro. Ainda há muito a conhecer sobre quem são os grandes respondedores — pondera.
Além de prolongar a vida, o remédio adiou o avanço do tumor. A chamada sobrevida livre de progressão, período em que a doença permanece estável sem voltar a crescer, foi de 7,3 meses com o daraxonrasib, contra 3,5 meses com a quimioterapia.
Por que seis meses a mais importam
Para quem está de fora, ganhar cerca de seis meses de mediana pode soar modesto. Na oncologia, e sobretudo em um tumor com a letalidade do câncer de pâncreas, é o contrário.
Daiana lembra que, na sua área, avanços de um ou dois meses já são comemorados, porque o que está em jogo não é uma estatística abstrata, e sim a presença em momentos concretos da vida familiar, como a formatura ou o casamento de um filho, além do tempo para organizar as próprias decisões.
A presidente da SBOC reforça que esse é um número pensado para orientar o médico, não para virar uma sentença na cabeça do paciente.
A mediana serve para dimensionar o tamanho do benefício e compará-lo com o que existia antes. Para quem está em tratamento, o raciocínio deve ser outro.
— O pensamento do paciente deve ser o de aumentar a probabilidade de viver mais tempo — afirma Clarissa.
Os médicos também olham para frente. Como o estudo testou a droga em pacientes que já haviam falhado a tratamentos anteriores, a aposta é que o benefício seja ainda maior se ela for usada mais cedo.
Daiana explica que a maior chance de cura no câncer de pâncreas está nos pacientes que conseguem ser operados e que um remédio capaz de reduzir o volume do tumor pode tornar viável uma cirurgia antes considerada impossível. Por isso, já há estudos avaliando o uso da droga em fases iniciais e no período em torno da operação.
Futuro pode estar nas combinações
Embora o daraxonrasib já tenha demonstrado atividade clínica como monoterapia, os dados apresentados no Congresso Europeu de Oncologia Gastrintestinal (ESMO GI 2026), em Munique, na Alemanha, reforçam que seu maior potencial pode estar nas combinações terapêuticas.
A inibição da RAS(ON) reduz a sinalização oncogênica, mas mecanismos adaptativos podem reativar vias de escape. Por isso, diferentes combinações estão sendo avaliadas para prolongar e aprofundar as respostas.
Esses estudos representam uma inovação importante no tratamento clínico do câncer de pâncreas: o foco deixa de ser apenas encontrar uma nova droga eficaz e passa a ser construir combinações biologicamente racionais, capazes de ampliar a eficácia e retardar a resistência ao tratamento.
Menos efeitos colaterais
Outro motivo de entusiasmo é a tolerância ao tratamento. No estudo, apenas 1,2% dos pacientes abandonaram o uso do comprimido por causa de efeitos adversos, enquanto, no grupo da quimioterapia, esse índice foi de 11,2%.
A diferença tem peso na vida diária, observa Daiana. As quimioterapias usadas contra o câncer de pâncreas são particularmente agressivas para o sangue, provocando anemia, queda das células de defesa e neuropatia, um tipo de lesão nos nervos que causa dor e formigamento.
Os efeitos adversos do daraxonrasib são predominantemente cutâneos e gastrointestinais e, em geral, podem ser manejados com medidas de suporte, tratamento sintomático e ajuste da dose.
— Não é uma toxicidade desprezível, mas é um perfil diferente, que talvez impacte menos a qualidade de vida — afirma a oncologista.
Quem pode usar o medicamento
Um ponto importante para o leitor é quem poderá, de fato, receber o medicamento. Diferentemente do que se poderia imaginar, o uso não fica restrito a quem tem a mutação da proteína RAS confirmada.
Daiana explica que o estudo incluiu tanto pacientes com a mutação, especialmente nas variantes G12D e G12V, quanto pacientes sem nenhuma alteração identificada. Por isso, a tendência é que a indicação seja ampla, ainda que o alcance final dependa do que constar na bula aprovada pelas agências reguladoras.
A testagem de RAS tem papel crescente, mas, atualmente, seu principal valor é mais biológico e preditivo do que prognóstico. Esse exame identifica, em uma amostra do tumor ou do sangue, alterações nos genes da família RAS.
Contudo, fora dos estudos clínicos, nos quais o exame é custeado pela própria pesquisa, o acesso ao teste na rotina de tratamento é desigual no país, observa Fay.
Na rede privada, ele já é comum, realizado por técnicas como PCR e sequenciamento genético de nova geração. No sistema público, fica restrito a alguns centros de referência, segundo o professor.
O custo de um painel privado costuma variar entre R$ 800 e R$ 12 mil, com prazo de sete a 21 dias para a divulgação do resultado.
Por que o câncer de pâncreas é tão temido

A dimensão do avanço fica mais clara diante da letalidade da doença. O pâncreas é um órgão profundo no abdômen, e seus tumores crescem em silêncio, sem provocar sintomas claros no início. Quando os sinais aparecem, na maioria das vezes o câncer já se espalhou.
Clarissa resume os dois grandes obstáculos: o diagnóstico quase sempre tardio, que leva a tratamentos complexos e cirurgias de grande porte, e a própria biologia da célula tumoral, agressiva e ainda mal compreendida pela ciência.
Justamente por atingir um dos principais mecanismos envolvidos no desenvolvimento desse tumor, o daraxonrasib desperta expectativa também para além do câncer de pâncreas.
Como a mutação da RAS está presente em vários tipos de tumor, Clarissa aposta que a estratégia possa ser estendida a outras doenças no futuro, como o câncer de pulmão, em que a alteração é frequente, e o de intestino, em que também é comum.
Enquanto isso não se confirma, a especialista recomenda que os pacientes procurem estudos clínicos em andamento, uma das poucas portas de acesso a terapias ainda não aprovadas.
Quando chega ao Brasil
Nos Estados Unidos, o acesso começou a se ampliar antes mesmo da aprovação definitiva. Em 1º de maio, a Food and Drug Administration (FDA), órgão equivalente à Anvisa em solo estadunidense, autorizou um programa de acesso expandido, que libera o uso da droga fora dos ensaios clínicos para pacientes já tratados e sem outras alternativas. A aprovação plena no país é esperada ainda neste ano.
No Brasil, o caminho até a chegada do medicamento ainda depende de uma série de etapas regulatórias. Segundo Daiana, a sequência é a seguinte:
- Aprovação da FDA: permite a importação do medicamento.
- Aval da Anvisa: autoriza o registro e a comercialização no país.
- Inclusão no rol da Agência Nacional de Saúde (ANS): por se tratar de um remédio oral, precisa entrar na lista de coberturas obrigatórias dos planos de saúde.
Apesar das etapas, Daiana avalia que o forte resultado do estudo pode acelerar parte desse processo, embora ainda não seja possível definir uma data para a chegada da droga ao país.
— Talvez até o fim deste ano ou o início do próximo já tenhamos a droga disponível no Brasil. É uma possibilidade otimista, mas não dá para garantir — avalia.
Fay é mais cauteloso quanto ao calendário, sobretudo porque a fabricante ainda não tem operação no país, o que adiciona incerteza ao registro local.
Na avaliação dele, a aprovação americana deve sair em alguns meses, mas o processo brasileiro pode levar de um a dois anos, com chance de ser mais rápido se houver revisão prioritária.
Enquanto isso, sustenta, o estímulo a novos estudos clínicos no país seria uma forma concreta de antecipar o acesso de alguns pacientes.
Obstáculo do custo
Mesmo com todos os carimbos regulatórios, há um gargalo final: pagar pelo tratamento. Fay aponta esse como o ponto mais difícil, por se tratar de um medicamento de alto custo.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a incorporação depende de uma avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) e da inclusão em um protocolo de financiamento, o que muitas vezes não acontece justamente pelo preço elevado. Na rede privada, é preciso constar no rol da ANS.
— Mesmo após a aprovação da Anvisa, o acesso real pode demorar meses ou anos e será um desafio para médicos e pacientes — afirma o professor da PUCRS.
