O mercado das canetas emagrecedoras está crescendo no Brasil. A primeira à base de semaglutida fabricada nacionalmente, Ozivy, teve aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na última semana e deve chegar às farmácias em junho, custando a partir de R$ 287 (entenda abaixo).
Ainda conforme o anúncio, divulgado nesta terça-feira (2) pelo laboratório brasileiro EMS, neste primeiro ciclo de abastecimento, serão disponibilizadas mais de 500 mil canetas ao mercado, com distribuição inicial nas principais redes farmacêuticas do país e expansão progressiva para todo o território nacional.
Poucos dias após a aprovação, a fabricante do Ozempic anunciou descontos de até 50%. Wegovy e Mounjaro também entram na lista das canetas mais pesquisadas no Brasil. Com as opções se diversificando, também aumentam as dúvidas.
Desde 2025, farmácias e drogarias exigem receita médica para compra desses medicamentos. Quem comercializa, de forma ilegal, pode responder por crime com pena superior à do tráfico de drogas.
Abaixo, ponto a ponto, saiba mais sobre Ozivy, Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
Quais os princípios ativos das canetas emagrecedoras?

Os medicamentos Ozempic e Wegovy, fabricados pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, são compostos por semaglutida.
Enquanto o Ozempic tem o uso aprovado pela Anvisa para o tratamento de diabetes tipo 2, tendo como efeito adicional a perda de peso, o Wegovy é especificamente formulado para perda de peso.
O Ozivy, do laboratório EMS, também é composto por semaglutida. Neste caso, porém, a substância é produzida de forma sintética e não biológica. Como esclarece a empresa, o medicamento é indicado para tratamento de adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado.
A bula aprovada pela Anvisa ainda não foi divulgada. Conforme a companhia, isso deve ocorrer dentro do cronograma regulatório e comercial do produto.
Já o Mounjaro, produzido pela farmacêutica Eli Lilly, com sede nos Estados Unidos, faz parte de uma outra classe de medicamentos. Neste caso, a composição é por tirzepatida. Na bula, a fabricante indica uso, por exemplo, para melhora do controle glicêmico de adultos com diabetes tipo 2 e para controle crônico do peso.
Como o medicamento funciona para a perda de peso?
O tratamento inicia com a dose mais baixa das medicações. O aumento se dá mensalmente. Como ressalva o endocrinologista consultado por Zero Hora, não é necessário atingir a dose máxima de cada medicação: a avaliação médica deverá indicar em qual o paciente poderá se manter.
As canetas com semaglutida e tirzepatida subcutâneas têm aplicações semanais, normalmente, no abdômen.
A substância vem em um suporte de aplicação em formato de caneta. A depender da marca, cada dispositivo tem apenas uma dose ou tem o equivalente para um mês.
Qual a diferença entre Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Ozivy?

As duas substâncias são hormônios que atuam no centro da fome e da saciedade, como resume a nutricionista clínica Sabrina Fernandes, que pesquisa sobre doenças do fígado, trato gastrointestinal e cardiometabolismo.
— Essas medicações retardam o esvaziamento gástrico e intestinal para que a comida fique parada ali pelo maior tempo possível, porque o intestino, tendo contato com esses alimentos, fica liberando hormônio. E com esse hormônio sendo liberado, temos essa redução do apetite, esse controle da compulsão alimentar, porque trabalha no sistema nervoso central também — detalha.
A diferença é que a semaglutida é análoga a um hormônio, enquanto a tirzepatida imita dois hormônios do tubo digestivo.
— A tirzepatida causa um pouco mais de perda de peso, não é muito mais, mas é uma perda de peso bem relevante — compara o médico endocrinologista Fernando Gerchman, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador da Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade.
Existem outras canetas?
Sim. Para além de Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Ozivy (que ainda não entrou no mercado), o Brasil já tem outros medicamentos semelhantes à venda, como:
- Extensior (à base de semaglutida)
- Poviztra (à base de semaglutida)
- Olire (à base de liraglutida)
- Saxenda (à base de liraglutida)
- Victoza (à base de liraglutida)
Quem pode usar caneta emagrecedora?
Em caso de controle de peso, as bulas orientam o uso para pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou maior a 30 kg/m², assim como aquelas com IMC igual ou maior a 27 kg/m² que têm algum problema de saúde relacionado ao peso.
Gerchman acrescenta ainda que há entendimento entre especialistas de que o tratamento pode ser indicado também para pessoas com excesso de adiposidade comprovada, independente do IMC.
Há alguma contraindicação?
O especialista aponta alguns grupos que não podem fazer uso das canetas emagrecedoras:
- pessoas com neoplasia endócrina múltipla
- pessoas que têm carcinoma medular de tireoide
- grávidas e lactantes
Quem tem histórico de pancreatite aguda possui contraindicação relativa, portanto, cada caso deve ser avaliado.
Quanto peso é possível perder usando caneta para emagrecer?
Segundo Gerchman, as medicações com semaglutida podem causar perda de peso ao redor de 12%, enquanto as com tirzepatida apresentam uma média de 17%.
A escolha de qual substância é mais indicada para o tratamento de cada paciente deve ser feita pelo médico.
No entanto, não é possível afirmar com exatidão, pois os resultados variam conforme cada caso.
De acordo com Gerchman, nas medicações com semaglutida, por exemplo, os pacientes levam em média um ano para atingir a estabilização do peso.
É possível emagrecer só com a caneta, sem fazer dieta?
Não é bem assim. As próprias bulas do Mounjaro, do Wegovy e do Ozempic afirmam que há necessidade de associar o uso à dieta e ao exercício físico.
A nutricionista Sabrina reitera a importância de uma alimentação rigorosa para quem faz tratamento com esses medicamentos. O plano alimentar deve conter muita proteína e pouco carboidrato.
— É como antigamente em que só tínhamos a opção da bariátrica e as pessoas pensavam: "Fiz a bariátrica, agora eu estou perdendo peso, não preciso cuidar de mais nada". E aí passa aquele período de dois anos, quando os hormônios começam a normalizar, e as pessoas apresentam um reganho de peso. Então, as medicações, assim como a bariátrica, são instrumentos para a perda de peso. É como se fossem uma janela de oportunidades para a pessoa mudar os seus hábitos de vida — pontua.
Qual a duração do tratamento com as canetas?
A recomendação é uso contínuo. Como reforça Gerchman, essas medicações protegem contra o desenvolvimento de uma série de doenças e, quando já existentes, ajudam no controle.
— Existem dados claros na literatura de que, se tu parar de usar, recupera peso perdido: em média, meio quilo a um quilo por mês. A preconização é de uso contínuo porque não estamos tratando o peso, estamos tratando a obesidade. A obesidade causa apneia, doença cardiovascular, pré-diabetes, câncer, doença osteoarticular, aí as pessoas começam a progredir com artrose na coluna e hérnia de disco, causa infertilidade, causa hipogonadismo no homem — destaca.
Quanto custa o tratamento com caneta emagrecedora?

Nesta terça-feira (2), a EMS anunciou que a Ozivy vai custar a partir de R$ 452 ao consumidor. Contudo, a empresa está elaborando um plano de tratamento de três meses. Neste caso, as doses, que vão custar R$ 863,23, teriam o custo médio mensal de R$ 287.
No caso das outras canetas, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) indica a variação dos preços máximos que podem ser cobrados dos consumidores.
Em todos os casos, o valor depende da apresentação do medicamento (quantas canetas e qual a dosagem, por exemplo), além do imposto estadual.
- Ozempic: preço máximo varia entre R$ 1.077,79 e R$1.399,72
- Wegovy: preço máximo varia entre R$ 1.077,79 e R$ 2.696,74
- Mounjaro: preço máximo varia entre R$ 568,32 a R$ 4.937,74
Os valores se referem a apenas um mês de tratamento e constam em uma planilha atualizada em abril deste ano.
Quais os efeitos colaterais para quem usa Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Ozivy?
A nutricionista clínica Sabrina Fernandes, que pesquisa sobre doenças do fígado, trato gastrointestinal e cardiometabolismo, conta ver em consultório pacientes com constipação, náuseas, dor de cabeça, fraqueza e cansaço.
Vômito, diarreia, refluxo e aumento no risco de cálculo biliar também estão entre os efeitos adversos que o tratamento com canetas emagrecedoras pode causar.
Sabrina chama a atenção para o fato de que, ao perder peso, se perde massa magra junto e isso inclui massa muscular.
— As pessoas precisam entender que essa medicação mexe com muitos órgãos e sistemas do corpo. É tentadora a questão da perda de peso, mas essa perda de peso, se não for bem acompanhada, bem tratada, pode trazer prejuízo — alerta.
Essas medicações, principalmente o Mounjaro, podem gerar anorexia iatrogênica, quando o paciente zera a fome.
— O paciente não pode deixar para comer quando tem fome. A alimentação é como se fosse o tratamento, a suplementação de proteína, esse cuidado é como se fosse junto com a medicação — ressalta.
Quando as canetas emagrecedoras devem chegar ao SUS?
Questionado por Zero Hora, o Ministério da Saúde não negou a possibilidade de as canetas emagrecedoras serem disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a nível nacional, mas ressaltou a existência de um longo processo.
A pasta informou que pediu à Anvisa prioridade no registro de medicamentos com os princípios ativos semaglutida e liraglutida, destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. A pasta entende que a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e o aumento da concorrência devem fazer os preços caírem.
"Em média, estudos apontam que os genéricos induzem uma queda de 30% nos preços. Esse é um fator determinante para a análise de uma possível incorporação ao SUS", respondeu em nota.
Em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS deu parecer contrário à incorporação. Entre os motivos, apontou um impacto orçamentário superior a R$ 8 bilhões.
O Ministério da Saúde disse ainda que acompanha a implementação de um programa, promovido pela fabricante do Ozempic e do Wegovy, no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. A iniciativa prevê o uso de canetas emagrecedoras no tratamento de pacientes com obesidade grave e com comorbidades. A ideia do ministério é avaliar o impacto desses medicamentos na saúde pública.



