Professor titular e coordenador da Residência Médica em Neurologia Infantil da Faculdade de Medicina do ABC, Rubens Wajnsztejn é um dos principais nomes do Brasil no estudo do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Diretor da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), Wajnsztejn esteve em Porto Alegre na semana passada para participar do Brain Congress, conferência científica sobre o cérebro, comportamento e emoções.
Ele também participou do encontro “TDAH na Vitrine: Moda ou Diagnóstico”, viabilizado pela Cellera Farma. Segundo o neurologista, a maior visibilidade do tema trouxe avanços importantes, mas também exige cautela. Ele destacou que a informação ampliou o acesso ao diagnóstico, o que é positivo, mas que o TDAH continua sendo uma condição clínica complexa, que exige avaliação criteriosa e não pode ser reduzida a listas rápidas de sintomas.
De modo que hoje há uma situação paradoxal sobre a condição: há diagnósticos (duvidosos) demais de TDAH e também diagnósticos de menos de TDAH.
Em entrevista, o pesquisador abordou diferentes perspectivas clínicas, possibilidades de diagnóstico e caminhos de tratamento. Clique para saber mais sobre as principais opiniões do especialista.
- O uso indiscriminado de telas prejudica o foco em atividades menos atraentes
- Sintomas em comum geram confusão e causam diagnósticos errados
- Um diagnóstico seguro de TDAH exige a cooperação entre mais profissionais
- O paradoxo do "boom" de diagnósticos: há muitos falsos e poucos precisos
- Há casos em que a medicação é necessária e há preconceito com a Ritalina

Leia abaixo, a entrevista completa:
Muito se fala sobre os efeitos cognitivos do uso excessivo de telas por crianças. Quais consequência isso pode gerar?
Essa é uma das questões mais preocupantes hoje, o uso de telas de forma indiscriminada. Porque o uso de telas, principalmente para quem tem dificuldade de focar, no momento que a pessoa está fazendo uma atividade prazerosa, ela consegue ficar focada e atenta por muito tempo. Então, isso acaba atrapalhando na motivação. Muitas vezes, os indivíduos que têm TDAH têm baixa motivação, e a tela é algo que motiva. Hoje, é muito difícil você pensar em não utilizar telas. Então, o que a gente recomenda para as famílias?
A gente diz que a tecnologia veio para ficar, mas é preciso saber usar a tecnologia. Reduzir o tempo de tela, principalmente quando os indivíduos percebem que aquilo está sendo supérfluo. As pesquisas mostram que para um adolescente, o número máximo de horas de tela considerado adequado são três horas por dia. E tem indivíduos que ficam oito, nove, dez horas por dia. Então, essa orientação de como usar e de quanto tempo usar é muito importante para todo mundo, para familiares, para a escola, para o local de trabalho.
Isso não confunde ou dificulta os diagnósticos de TDAH?
O que acontece no TDAH é a questão da atenção, concentração, hiperatividade e impulsividade. A atenção e a concentração dependem de duas substâncias químicas: a noradrenalina e a dopamina.
Quando você está desempenhando uma atividade prazerosa você libera a noradrenalina, como quando a criança ou adolescente fica no celular. Muitas vezes os pais confundem isso, porque a criança vai ficar diante da tela por uma, duas, três horas, por ser uma atividade prazerosa. Aí os pais pensam "ele ficou concentrado, ele não é desatento”. Mas cada vez que tem um estímulo você libera adrenalina e mantém a atenção.
O problema é para essa criança ou adolescente se concentrar em sala de aula. Será que as aulas são tão prazerosas quanto ficar na tela? E os livros? Nós temos dois tipos de atenção. Tem a atenção seletiva, que é prestar atenção naquilo que interessa. Essa está normal em todo mundo. Agora, a atenção sustentada, que é a concentração, prestar atenção em atividades monótonas, essa que é mais difícil controlar e que caracteriza o déficit de atenção. Por isso, o excesso de telas é o nosso grande desafio.
A falta de atenção pode ser por conta de depressão, de ansiedade, algum outro quadro. Há vários outros quadros que simulam o TDAH e, muitas vezes, um diagnóstico muito rápido acaba sendo equivocado.
RUBENS WAJNSZTEJN
Diretor da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil
Quais são os limites entre a conscientização e a banalização do diagnóstico?
Sem dúvida que temos essa banalização, principalmente por conta das redes sociais. E, mesmo assim, temos uma dificuldade na conscientização das pessoas. Com as escolas, por exemplo. A maioria das escolas não quer trabalhar com os indivíduos com TDAH em condições especiais. O indivíduo com TDAH tem que fazer prova em um local silencioso para não se distrair, ele demora um pouco mais. Então, ele poderia ter um tempo adicional nas provas, por exemplo.
E quais são os erros mais comuns causados por essa falta de conscientização?
Nos diagnósticos. O erro mais comum é porque o principal sintoma que leva os indivíduos a procurar ajuda, tanto crianças quanto adultos, é a falta de atenção. E a falta de atenção, a falta de foco, dificuldade de se concentrar, não é uma coisa exclusiva do TDAH. Claro, você tem um percentual de indivíduos que são muito agitados e que vão para uma avaliação. Mas na imensa maioria, a queixa principal é dificuldade de se concentrar. E nesse ponto aparecem os erros. Muita gente diz: "Falta de atenção? Então é déficit de atenção". Não. A falta de atenção pode ser por conta de depressão, de ansiedade, algum outro quadro. Há vários outros quadros que simulam o TDAH e, muitas vezes, um diagnóstico muito rápido acaba sendo equivocado.
Se a pessoa estiver suspeitando (de TDAH), deve fazer a consulta. A partir disso, será feito um encaminhamento. O que é a situação ideal? Um profissional da área médica e um profissional de outra área que não médica, especialmente a psicologia.
RUBENS WAJNSZTEJN
Diretor da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil
O diagnóstico do TDAH é multifatorial. Como deve ser feito? Por quais profissionais?
O diagnóstico correto vai envolver mais de um profissional. Geralmente, é uma avaliação mais criteriosa, feita a partir de uma consulta clínica. Essa consulta clínica pode ser com um profissional especialista, como um psiquiatra, um neurologista, mas ela pode ser com um pediatra que tenha experiência, até com um clínico geral que tenha experiência.
Se a pessoa estiver suspeitando, deve fazer a consulta. A partir disso, será feito um encaminhamento. O que é a situação ideal? Um profissional da área médica e um profissional de outra área que não médica, especialmente a psicologia. A gente constrói o diagnóstico a partir da suspeita e também checar as outras possíveis causas, por exemplo, de uma desatenção, de uma hiperatividade, que é o que a gente chama tecnicamente de diagnóstico diferencial.
O adulto pode desenvolver TDAH? Ou normalmente são casos que não foram diagnosticados antes corretamente?
Em tese, os sintomas teriam que estar presentes antes dos 12 anos. Então, provavelmente é um adulto que não identificou na infância e na adolescência, mas que, quando ele vai contar o histórico, você percebe que ele já tinha sinais e sintomas antes. Isso é muito comum, perceber os sintomas clássicos anos depois.
Como você observa esse “boom” nos diagnósticos? Estamos vendo um aumento nos casos de TDAH, de fato?
Temos muitos diagnósticos equivocados, pela qualidade dos diagnósticos. Por exemplo, tem consultas que levam 10 minutos, 15 minutos. Não tem como fazer um diagnóstico em TDAH dessa forma. Um exemplo clássico: o sujeito é ansioso, chega lá para uma consulta e, de repente, é identificado com TDAH.
Mesmo assim, ainda temos muito subdiagnóstico. Em cidades pequenas, no interior, nós vemos uma grande dificuldade de se fazer um diagnóstico de TDAH. Então, temos muitos indivíduos que vão ter TDAH que não serão diagnosticados, e temos o que chamamos de falsos positivos. Às vezes a cidade tem um clínico geral que fica no posto de saúde e uma psicóloga para cuidar do município todo. Então, muitas vezes falta estrutura para fazer um diagnóstico adequado.
Qual é a visão do senhor sobre o uso de medicamentos no tratamento do TDAH?
A gente tem níveis dentro do quadro de TDAH. Em um nível leve, se for alguma coisa muito pequena, você vai trabalhar basicamente com orientações e terapias. Geralmente são terapias comportamentais. Mas, em um nível mais grave do TDAH, se você usar só terapia, não vai conseguir reverter o quadro, você precisa da medicação. No caso moderado, vai depender muito dos problemas que aquilo está acarretando.
A medicação tem que ser utilizada realmente nos casos em que você detecta essa necessidade para que o paciente possa evoluir. Isso é importante.
As famílias dizem: 'Nossa, (a Ritalina) é tarja preta'. E é tarja preta por outro motivo: porque as pessoas usam quando não precisam e para outras finalidades.
RUBENS WAJNSZTEJN
Diretor da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil
Faz sentido dizer que existe uma medicalização?
O pessoal tem usado o termo medicalização de uma maneira errada. Medicalizar é você dar um remédio inadequado. A pessoa tem uma amigdalite viral e você dá antibiótico. Para um quadro viral, os antibióticos não adiantam. Então você medicalizou.
Agora, se usar o medicamento correto para aquele problema, você medicou. Colegas médicos falam: "Ah, estão medicalizando, estão dando remédio demais". Não é isso. Quando você medica no TDAH, repõe a substância que está faltando e o paciente deslancha, melhora.
Você tem certeza de que é um TDAH. Por quê? Porque existe um padrão de redução de dopamina e noradrenalina. O que você fez? A reposição, a suplementação.
E quais medicamentos para as crianças podem ser úteis? Qual a sua opinião sobre a Ritalina?
O metilfenidato (Ritalina) acho que é até mal interpretado. Eu não considero que seja polêmico nesse sentido. Os psicoestimulantes são a primeira linha de tratamento. São a primeira opção em todos os protocolos internacionais.
Vamos falar da realidade brasileira. No Brasil, a partir dos seis anos, você pode utilizar psicoestimulantes como primeira linha. Existem outros medicamentos também, mas muitas vezes há um preconceito (em relação à Ritalina). As famílias dizem: "Nossa, é tarja preta". E é tarja preta por outro motivo: porque as pessoas usam quando não precisam e para outras finalidades.
Por isso, o primeiro passo é uma avaliação adequada. Feita a avaliação adequada, confirmado o TDAH e havendo necessidade de medicação, a primeira linha é o psicoestimulante.


