
A Pseudomonas aeruginosa, bactéria encontrada em amostras da água mineral Crystal que motivou o recolhimento voluntário determinado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta quarta-feira (3), é a mesma que havia sido detectada em produtos da marca Ypê em maio.
O microrganismo vive na água, no solo e em superfícies úmidas, é comum no ambiente e costuma ser pouco agressivo para a maioria das pessoas.
Apesar de estar presente até na pele de pessoas saudáveis, a bactéria ameaça populações específicas: pacientes com fibrose cística, queimados, oncológicos, transplantados, imunossuprimidos, recém-nascidos, idosos frágeis e pessoas que usam cateter ou estão em ventilação mecânica.
Em pessoas saudáveis, o risco de infecção após a exposição ao produto contaminado é baixo.
O que é a Pseudomonas aeruginosa
Trata-se de uma bactéria gram-negativa, classificação que indica a estrutura da parede celular do microrganismo e ajuda os médicos a definir o tratamento, já que esse grupo costuma apresentar maior resistência a antibióticos.
Segundo o Manual MSD, uma das referências médicas mais consultadas do mundo, a Pseudomonas aeruginosa está presente em todo o planeta e é favorecida por áreas úmidas, como pias, ralos, banheiras de hidromassagem e piscinas com cloração inadequada.
Em pessoas saudáveis, ela aparece eventualmente nas axilas e na região genital sem causar problemas.
As infecções tornam-se mais frequentes e graves em quem está debilitado por outras doenças, tem diabetes ou fibrose cística, está hospitalizado ou usa medicamentos que enfraquecem o sistema imunológico.
A capacidade de a bactéria sobreviver em quase qualquer ambiente explica por que seu controle é difícil.
A bactéria obtém nutrientes de fontes variadas, resiste a diferentes níveis de oxigênio e forma o chamado biofilme, uma camada de células que adere às superfícies e funciona como uma película protetora, conforme a Global Antibiotic Research and Development Partnership (GARDP), parceria internacional sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento de novos antibióticos.
A entidade também aponta a Pseudomonas aeruginosa resistente a medicamentos como uma das ameaças microbianas mais letais do planeta. O dado se refere principalmente a infecções graves, muitas vezes adquiridas em ambientes hospitalares e envolvendo pacientes vulneráveis.
Segundo a GARDP, a bactéria está associada a cerca de 559 mil mortes por ano no mundo.
Foi esse caráter de invasora à espreita que o biomédico Roberto Figueiredo, conhecido como Dr. Bactéria, descreveu ao programa Timeline Gaúcha, da Rádio Gaúcha, em 11 de maio, pouco depois das restrições impostas à Ypê.
— É uma bactéria que está normalmente no ambiente, do tipo oportunista. Ela está esperando o abaixamento da nossa resistência para causar uma contaminação — explicou o biomédico.
Quem corre mais risco

Na mesma entrevista, Figueiredo detalhou os grupos mais vulneráveis ao microrganismo. Segundo o biomédico, estão entre as pessoas com maior risco de desenvolver infecções:
- idosos acima de 60 anos com alguma comorbidade
- pessoas com diabetes
- pessoas com hipertensão
- pessoas imunodeprimidas
- crianças menores de cinco anos
- gestantes
Em grupos vulneráveis, a Pseudomonas aeruginosa pode provocar pneumonia hospitalar grave, infecção da corrente sanguínea, sepse e até infecção ocular capaz de danificar a córnea de forma permanente.
O Manual MSD acrescenta que as infecções mais sérias são difíceis de tratar, exigem semanas de antibiótico administrado diretamente na veia e, em muitos casos, combinação de medicamentos, porque muitas cepas (as diferentes variações de uma mesma bactéria) resistem a vários antibióticos.
Suspensão pela Anvisa

A determinação da Anvisa para a água mineral Crystal foi publicada nesta quarta-feira no Diário Oficial da União (DOU). As medidas abrangem itens do lote LZ1 VAL200127 3 P 200126, fabricado pela Mineração Bom Jesus Ltda., em Luziânia (GO).
As unidades foram distribuídas principalmente no Distrito Federal, que recebeu mais de 230,4 mil garrafas.
Outras 66,7 mil unidades foram destinadas a municípios de Goiás, 75,7 mil para o interior de São Paulo e 1,4 mil para o Tocantins.
O problema foi detectado durante uma coleta de rotina da Diretoria de Vigilância Sanitária do Distrito Federal (Divisa-DF). Após confirmar a presença da bactéria, a vigilância sanitária local interditou o lote e comunicou o caso à Anvisa.
Segundo a agência, o recolhimento começou imediatamente nas distribuidoras, e cerca de 99,2% das unidades do lote já não estariam disponíveis nas prateleiras.
A Mineração Bom Jesus também protocolou junto à Anvisa a abertura de uma investigação interna para avaliar a ocorrência e suas possíveis causas. O processo segue em andamento.
O que fazer se você tem o produto
A Anvisa orienta os consumidores a verificar se têm em casa unidades do lote LZ1 VAL 200127, fabricado em 20/1/2026 e com validade até 20/1/2027.
Caso tenham o produto, não devem consumi-lo e precisam aguardar as orientações da empresa sobre devolução e reembolso.
A fabricante orientou quem tiver garrafas do lote P 200126 (identificado na embalagem como LZ1 VAL 200127 3 P 200126) a procurar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) para receber orientações sobre substituição ou reembolso.
O contato pode ser feito pelo telefone 0800-061-5000 ou pelo e-mail contato@brasal.com.br.
O que diz a Mineração Bom Jesus
A Mineração Bom Jesus informou, em nota, que o lote envasado em janeiro teve distribuição restrita e foi comercializado apenas no Distrito Federal, em municípios específicos do Tocantins (Arraias, Combinado e Novo Alegre), de Goiás (Águas Lindas de Goiás, Luziânia, Novo Gama, Valparaíso de Goiás, Cidade Ocidental, Santo Antônio do Descoberto, Planaltina de Goiás, Cristalina, Formosa, Campos Belos, Alexânia, Abadiânia e Catalão) e nas cidades de Sorocaba, Itapetininga, Itu, São Roque e Tatuí, em São Paulo.
A empresa afirmou que, desde a notificação da contaminação, realizou análises em mais de 300 amostras do processo produtivo e dos produtos, todas com resultado negativo para microrganismos indicadores de contaminação.
Reforçou ainda o compromisso com os padrões de qualidade e segurança e disse cooperar de forma técnica e transparente com as autoridades.
A nota ressalta que a comunicação se refere exclusivamente ao lote mencionado, sem relação com outros lotes ou produtos da marca Crystal.
Relembre o caso Ypê

A suspensão da comercialização de produtos de mais de cem lotes ocorreu em maio. A decisão se deu após inspeções na unidade da empresa em Amparo, em São Paulo, realizadas em conjunto com a Vigilância Sanitária.
Segundo a Anvisa, foram identificadas falhas em etapas consideradas críticas da produção, como problemas no controle de qualidade, presença de corrosão em equipamentos e armazenamento inadequado de resíduos.
Além disso, o órgão também apontou a detecção da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de cem lotes finalizados com o número 1. A ação da Anvisa resultou na interrupção do uso de 24 produtos da marca.
Na última sexta-feira (29), Anvisa autorizou a retomada da produção dos produtos Ypê na fábrica após a marca apresentar um plano de ação para atender 76 requisitos sanitários identificados pela inspeção.
O uso dos produtos lava-roupas líquido, lava-louças líquido e desinfetantes identificados pelo final de lote 1 fabricados a partir de 1° de abril de 2026 está autorizado.
No entanto, a orientação para não utilizar os produtos finalizados com o algarismo 1 no lote fabricados até 31 de março de 2026 segue mantida.

