
Suplementos antes restritos às academias e ao público adulto estão invadindo as lancheiras escolares. Impulsionados por estratégias de marketing e a oferta crescente com roupagem lúdica e sabores atrativos, o whey protein e a creatina têm sido cada vez mais introduzidos na rotina alimentar de crianças. Mas será que há segurança nesse consumo?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é enfática ao dizer que não. A entidade publicou recentemente uma nota de alerta sobre o tema, salientando que nenhum dos dois suplementos têm indicação para o público pediátrico saudável.
De acordo com a SBP, salvo em casos clínicos específicos, que devem ser debatidos com o médico, o whey protein e a creatina não devem ser consumidos pelas crianças — por não serem necessários e porque podem trazer riscos à saúde dos pequenos.
O que são o whey protein e a creatina?
O whey protein é um suplemento alimentar que reúne uma grande quantidade de proteína derivada do soro do leite — geralmente, entre 20 e 25 gramas por dose. Ele pode ser encontrado em sua forma mais tradicional — pó para diluição em água ou leite — ou em alimentos como barrinhas de cereais, iogurtes e bebidas lácteas — que não são o whey protein em si, mas incluem o suplemento em suas formulações.
O composto ajuda a atingir a quantidade proteína necessária para a manutenção ou o ganho de massa muscular, quando somente a alimentação habitual não consegue dar conta. Também está associado a uma melhora do desempenho físico.
Já a creatina é um composto derivado da junção de três aminoácidos — arginina, glicina e metionina — que atua como reserva de energia para os músculos. Ela é produzida naturalmente pelo corpo — cerca de um grama ao dia — e está presente em alimentos como carnes e peixes.
Esta suplementação visa a aumentar a energia muscular disponível, melhorando a execução dos movimentos e a resistência durante treinos de força. O benefício trazido pela creatina depende da prática de exercícios físicos — ou seja, se não houver treino, não haverá efeito.
Por que as crianças não precisam de whey protein e creatina?
Conforme a nutricionista materno-infantil Bianca Grandi, que é mestre em Pediatria e Saúde da Criança pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o uso do whey protein está atrelado à necessidade nutricional.
Ela explica que, para os adultos, essa necessidade costuma ser alta e pode não ser completamente suprida pela alimentação, sobretudo quando há algum tipo de restrição alimentar. Então, faz sentido suplementar proteína — embora o whey protein não seja a única alternativa.
Os suplementos oferecem uma oferta concentrada e descontextualizada de nutrientes, que podem, inclusive, atrapalhar o desenvolvimento do hábito alimentar da criança.
BIANCA GRANDI
Nutricionista materno-infantil
Porém, entre as crianças, a quantidade de proteína que precisa ser consumida diariamente é bastante baixa, de modo que, em geral, não há necessidade de introduzir qualquer suplementação.
— É fácil alcançar a demanda proteica das crianças somente através da comida, por meio de uma alimentação saudável e equilibrada — enfatiza a nutricionista.

A nota técnica emitida pela Sociedade Brasileira de Pediatria observa que a demanda proteica de crianças é baixa, mas frequentemente superestimada pelos pais, que tendem a acreditar que os filhos devem ingerir mais proteína do que precisam. Para uma criança saudável, a necessidade diária varia entre 0,85 e 0,95 gramas por quilo.
Na prática, isso significa que uma criança de 30 quilos precisa de aproximadamente 30 gramas de proteína por dia. Essa quantidade é encontrada, por exemplo, em uma porção de 100 gramas de frango ou carne vermelha. O nutriente também está presente em leguminosas e vegetais.
— A ingestão de "comida de verdade" – alimentos como como arroz, feijão, carnes, ovos, legumes e frutas – é suficiente para uma nutrição completa, que vai promover o crescimento saudável. Os suplementos oferecem uma oferta concentrada e descontextualizada de nutrientes, que podem, inclusive, atrapalhar o desenvolvimento do hábito alimentar da criança — detalha Bianca.
A nutricionista lembra que o whey protein é um produto ultraprocessado, com corantes, conservantes e açúcares que, idealmente, não devem ser consumidos pelas crianças.
— Muitas vezes, os pais pensam que é melhor dar uma bebida láctea de whey em vez de um achocolatado, mas a realidade é que a criança não precisa de nenhum dos dois.
Já a contraindicação da creatina está associada, principalmente à ausência de sentido para o consumo. Como seus benefícios dependem da prática de treinos musculares de força, não há razão para que o suplemento seja ingerido pelas crianças — que, em geral, não executam exercícios de maior intensidade e não necessitam de um rendimento elevado.
Segundo Matias Epifânio, diretor da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, mesmo quando a criança pratica algum esporte, o ideal é não recorrer à creatina sem antes passar pela avaliação de um pediatra.
Quais os riscos do consumo de whey protein e creatina pelas crianças?
Além de não ser necessário, o uso do whey protein pode trazer prejuízos para a saúde das crianças. Isso porque a proteína, ainda que fundamental para uma boa nutrição, não deve ser consumida em excesso. Quando há ingestão elevada desse nutriente, órgãos como rins, fígado, pâncreas e intestino podem ficar sobrecarregados.
De modo geral, esses suplementos não devem ser introduzidos na alimentação de uma criança sem orientação.
MATIAS EPIFÂNIO
Diretor da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul
Isso é especialmente preocupante para as crianças, que ainda estão com seus sistemas em desenvolvimento, como ressalta diretor da Sociedade de Pediatria do RS:
— No sistema renal, o excesso de proteína gera aumento da ureia e hiperfiltração, o que pode causar lesões em indivíduos suscetíveis. Também corre aumento de insulina e do hormônio de crescimento IGF-1, o que traz diversos efeitos metabólicos.

O médico também chama atenção para o consumo de alimentos ultraprocessados que contêm whey protein ou creatina na composição. Ele ressalta que muitos desses alimentos são percebidos como "produto saudável", quando, na verdade, são ricos em gorduras, açúcares e outros componentes que podem levar até mesmo à obesidade.
— As crianças estão expostas a propagandas e embalagens lúdicas que despertam o interesse por esses produtos, mas cabe aos pais filtrarem o que é adequado que elas consumam — enfatiza.
No caso da creatina, o médico alerta que os estudos sobre a segurança do consumo por crianças são bastante incipientes. Assim, é possível que riscos ainda desconhecidos estejam envolvidos:
— De modo geral, esses suplementos não devem ser introduzidos na alimentação de uma criança sem orientação. Em casos específicos, como desnutrição grave ou doenças crônicas, pode haver prescrição, mas ela precisa partir do profissional.




