
A adolescência é o período da vida em que mais surgem novos casos de depressão. É justamente nessa fase, marcada por transformações biológicas, psicológicas e sociais, que um grupo de pesquisadores liderado pelo Hospital Moinhos de Vento pretende atuar para tentar evitar que o transtorno se desenvolva.
A instituição gaúcha vai coordenar um dos maiores projetos internacionais já concebidos sobre identificação precoce e prevenção da depressão em adolescentes. Chamado IDEA-IMPACT, o estudo terá duração de cinco anos, com início neste mês, e recebeu financiamento superior a R$ 34 milhões do Wellcome Trust, um dos principais financiadores da pesquisa biomédica no mundo.
A pesquisa será liderada pelo psiquiatra de infância e adolescência Christian Kieling, que dirige a Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do hospital e também atua na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O projeto reúne pesquisadores do Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Paquistão e África do Sul.

O estudo parte de uma ferramenta já desenvolvida pelo grupo de pesquisa, o IDEA-RS, que calcula o risco de um adolescente desenvolver depressão nos três anos seguintes a partir da combinação de 11 variáveis sociodemográficas e psicossociais.
A adolescência é a janela de maior incidência de novos casos de depressão. Isso mostra o impacto em saúde pública, mas também indica que esse pode ser um período-chave para prevenção
CHRISTIAN KIELING
Diretor da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do Hospital Moinhos de Vento
Entre os fatores considerados estão aspectos relacionados a vínculos familiares, relações sociais e comportamento. O modelo leva em conta, por exemplo, relação com os pais, presença de amigos, uso de substâncias e histórico de fuga de casa.
Também entram variáveis biológicas, como gênero — meninas apresentam maior probabilidade de desenvolver depressão do que meninos, segundo a literatura científica.
— Em saúde mental, um fator de risco sozinho não é suficiente. A gente precisa olhar para uma gama de fatores para conseguir estratificar o risco — explica o psiquiatra.
O escore foi desenvolvido a partir de dados da Coorte de 1993 da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que acompanha, desde o nascimento, moradores da cidade da região Sul. Os pesquisadores analisaram informações coletadas aos 15 anos para prever quais adolescentes desenvolveriam depressão aos 18.
Depois disso, o modelo foi testado em estudos conduzidos em países como Reino Unido, Nova Zelândia, Nigéria, Nepal e Estados Unidos. Segundo Kieling, os resultados se repetiram em diferentes contextos culturais.
Agora, o IDEA-IMPACT busca avançar um passo além da previsão.
— Predição sem prevenção não basta. O que nos move é transformar a identificação de risco em oportunidades reais de prevenção — diz o psiquiatra.
Novas variáveis
Uma das frentes da pesquisa será ampliar as variáveis analisadas. Além de fatores sociodemográficos e psicossociais, os pesquisadores pretendem incluir dados sobre funcionamento cerebral, marcadores inflamatórios, padrões de sono e características da fala.
A equipe também quer investigar fatores de proteção, como suporte social e conexão com família, escola e comunidade.
— Muitas vezes a gente foca só no risco, mas existe também o que protege o adolescente, mesmo na presença de fatores de risco — afirma Kieling.
Outro eixo do projeto será desenvolver uma intervenção preventiva voltada a adolescentes identificados como mais vulneráveis. A proposta é construir essa estratégia junto dos próprios jovens.
Segundo o pesquisador, a ideia é evitar modelos prontos elaborados apenas por especialistas. Adolescentes vão participar de conselhos consultivos no Brasil e no Paquistão e atuarão em diferentes etapas da pesquisa, inclusive na revisão de literatura científica e na elaboração das intervenções.
— Se a coisa vem só de cima para baixo, muitas vezes não há engajamento. A gente quer entender, junto dos jovens, como isso realmente funcionaria na prática — afirma.
O grupo também pretende ouvir pais, professores e profissionais da saúde antes de definir o formato final das ações preventivas.
Problema crescente
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que três em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos disseram se sentir tristes sempre ou na maior parte do tempo. Quatro em cada dez (42,9%) relataram irritação ou nervosismo frequentes, e 18,5% afirmaram pensar, sempre ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
Embora a depressão atinja todas as classes sociais, Kieling afirma que é fundamental seguir investindo em tratamento, para ampliar o acesso, mas também em prevenção.
— É claro que a gente precisa de mais tratamento: as pessoas precisam ter acesso à psicoterapia, à medicação, quando for o caso, mas também a gente pode trabalhar na prevenção. São esforços complementares para reduzir o impacto dos transtornos mentais na saúde da população — destaca o psiquiatra.
Ao longo dos próximos cinco anos, o estudo coordenado a partir de Porto Alegre pretende transformar essa lógica em prática, reunindo dados de diferentes países para desenvolver estratégias de prevenção adaptadas a realidades diversas e voltadas a um dos principais desafios de saúde mental entre jovens no mundo.

