
A Organização Mundial da Saúde (OMS) está em alerta desde a detecção de um surto de hantavirose no navio de cruzeiro MV Hondius, que saiu da Argentina com destino a Cabo Verde, país insular da África. Sete casos da doença causada pelo hantavírus foram confirmados entre passageiros da embarcação, e três pessoas morreram.
As autoridades de saúde estão mobilizadas para rastrear a origem do contágio e evitar a propagação. Mas qual é a real dimensão da crise sanitária do hantavírus?
GZH ouviu especialista e consolidou as informações dos órgãos oficiais, reunindo tudo o que se sabe e o que ainda precisa ser esclarecido sobre o hantavírus.
O que se sabe sobre o hantavírus
O que é
Conforme informações do Ministério da Saúde, os hantavírus são vírus RNA da família Hantaviridae, gênero Orthohantavirus, que podem se apresentar em diferentes cepas — ou seja, embora seja convencional falar "o hantavírus", existem diversas variantes.
Esse tipo de patógeno possui roedores silvestres como vetores. Eles eliminam o vírus pela urina, saliva e fezes, podendo carregar o contaminante por toda a vida e não adoecer.
Nos humanos, o hantavírus causa a hantavirose. Trata-se de uma zoonose viral aguda que, nos países da América Latina, é também chamada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, em razão de seus efeitos nos sistemas cardíaco e respiratório. A doença é considerada rara, mas pode ser letal.
Como se pega
A forma mais comum de infecção em humanos ocorre pela inalação de partículas contaminadas com as excreções de roedores silvestres infectados. Esse contato ocorre, principalmente, em áreas rurais, onde há presença desse tipo de roedor, e em espaços fechados que podem acumular sujeira e poeira, como galpões e cabanas.
Por isso, a orientação da Organização Mundial da Saúde é para que a população utilize máscaras ao fazer qualquer tipo de trabalho em ambientes deste tipo. Também há a instrução de arejar os espaços antes de qualquer atividade e umedecer o local, evitando, assim, que a poeira contaminada suba e seja inalada.
Além da inalação, o vírus também pode ser transmitido diretamente por mordeduras dos roedores silvestres ou pelo contato das mãos contaminadas com áreas de mucosa, como os olhos, a boca e o nariz.
Vale lembrar que o hantavírus tem como vetor os roedores silvestres. Ou seja, ele não é transmitido pelos ratos urbanos comuns, a exemplo de ratazanas e camundongos.
Pode haver transmissão de pessoa para pessoa?
Uma cepa específica do hantavírus, a cepa Andes, é a única capaz de provocar a transmissão de uma pessoa para outra. Ela ocorre quando uma pessoa infectada pela variante passa o vírus diretamente para outra pessoa através de contato físico próximo, sem que esta segunda tenha tido contato com algum roedor.
O hantavírus da cepa Andes, até o momento, é encontrado somente em áreas rurais específicas da Argentina e do Chile.

Quais os principais sintomas
A doença pode se manifestar inicialmente com febre, dor nas articulações, dor de cabeça, dor lombar e dor abdominal.
Em quadros graves, o paciente pode desenvolver a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, caracterizada por dificuldade respiratória, tosse seca, aceleração dos batimentos cardíacos e queda da pressão arterial.
Como é o tratamento
Conforme a OMS e o Ministério da Saúde, não existe, hoje, um tratamento específico para a hantavirose. A prática clínica consiste em tratar os diferentes sintomas que a doença pode causar.
Nos casos mais graves, é comum que os pacientes sejam internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e recebam suportes focados em estabilizar as funções respiratória e cardíaca.
Conforme Murillo Cipolat, infectologista do Hospital Moinhos de Vento, esse tipo de suporte costuma ter bastante sucesso, sobretudo em pacientes sem maiores comorbidades. Ainda assim, segundo ele, a ausência de um tratamento específico para a doença gera preocupação entre a classe médica.
Como é uma doença bastante incomum, é difícil que se estude e se pesquise. Nunca foi desenvolvido um antiviral específico para o hantavírus. Tratamos os sintomas e oferecemos suporte, porque, infelizmente, não há um tratamento para a infecção em si.
MURILLO CIPOLAT
Infectologista do Hospital Moinhos de Vento
Na última sexta-feira (8), a farmacêutica Moderna divulgou que está pesquisando uma vacina contra o hantavírus. Em comunicado, a empresa informou que os estudos ainda estão em estágio inicial. Não foi informada uma previsão para a elaboração do imunizante.
O que difere o caso do cruzeiro dos casos "comuns"
Os casos de hantavirose no MV Hondius foram causados pela cepa Andes, a única que pode ser transmitida de pessoa para pessoa.
Esse episódio tem recebido atenção porque se diferencia do padrão transmissivo mais comum da doença. A infecção por inalação de partículas contaminadas é a mais usual, mas, no caso do cruzeiro, o que ocorreu foi a transmissão interpessoal.
Passageiros da embarcação foram infectados a partir de uma pessoa que estava contaminada — ou seja, as sete não tiveram contato com roedor, apenas com o humano infectado pelo vírus.
— Provavelmente, esse passageiro embarcou assintomático e, dentro do ambiente confinado do navio, ocorreu a transmissão de pessoa para pessoa, o que foge ao padrão habitual da doença — detalha Cipolat.
Como a transmissão pessoa-pessoa é considerada rara e esporádica pela OMS, a identificação desse tipo de propagação do vírus, em um ambiente confinado como o de um cruzeiro, acendeu o alerta nas autoridades. Entretanto, conforme o infectologista, não se trata de uma emergência global.
Qual a situação no Brasil e no Rio Grande do Sul em 2026
Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou sete casos de hantavirose neste ano. No Rio Grande do Sul, foram confirmados dois casos em 2026, sendo que um deles evoluiu para óbito.
Conforme divulgado pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS), os casos registrados este ano no Estado são:
- Uma mulher de 36 anos, moradora de Antônio Prado, na Serra Gaúcha, que se teve a doença em janeiro e se recuperou.
- Um homem de 61 anos, de Paulo Bento, na região Noroeste, que faleceu em abril.
Tani Ranieri, diretora do CEVS, diz que o Estado mantém uma média histórica de menos de 10 casos anuais de hantavirose. Segundo os dados oficiais, o Rio Grande do Sul teve, nos últimos anos:
- 9 casos e 3 óbitos em 2022
- 6 casos e 1 óbito em 2023
- 7 casos e 4 óbitos em 2024
- 8 casos e 3 óbitos em 2025
- 2 casos e 1 óbito em 2026, até o momento
Tani detalha o óbito em decorrência da doença registrado em abril deste ano:
— Era um idoso de 61 anos. Ele foi fazer uma limpeza em um galpão na sua residência e acabou se contaminando, pelo contato com partículas oriundas de fezes, urina ou saliva de animais infectados. Provavelmente por ser um homem de mais idade, com maior vulnerabilidade e outras comorbidades, ele acabou evoluindo mal.
Há relação entre os casos brasileiro e o do cruzeiro?
Não. Os casos registrados no Estado e no Brasil não têm qualquer relação com o surto identificado no cruzeiro. No entendimento do infectologista Murillo Cipolat, não há razão para preocupação sobre um possível impacto do episódio do navio no território brasileiro.
— Os casos de hantavírus são esporádicos e monitorados desde os anos 1990 no país. Eles geralmente ocorrem em ambientes rurais, quase sempre ligados diretamente aos roedores. Nunca tivemos evidência de transmissão sustentada entre humanos ou da presença da cepa Andes em território brasileiro — afirma.

O que será feito com os passageiros do cruzeiro
O desembarque dos últimos passageiros do MV Hondius está sendo realizado entre domingo (10) e esta segunda-feira (11), em operação coordenada pela OMS.
Conforme divulgado, os passageiros deixam o navio em pequenos grupos usando máscaras e trajes de proteção. Eles são transportados por lanchas até o porto e, então, encaminhados de avião para seus respectivos países.
A recomendação da OMS é para que cada passageiro seja levado o mais rapidamente possível ao seu país de origem, onde devem ser orientados a ficar de quarentena por um período de 45 dias.
No entanto, conforme anunciado no domingo por Jay Bhattacharya, diretor interino dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, os cidadãos estadunidenses que estavam no navio não serão necessariamente colocados em quarentena ao chegarem no país.
Segundo ele, os passageiros passarão por uma avaliação clínica individual, que determinará a necessidade de permanecer em isolamento. Ele pediu calma à população do país e justificou a decisão alegando que "isto não é covid".
A medida, contudo, gerou divergências. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que a flexibilização "pode envolver riscos".
Não é uma nova pandemia
Representantes da OMS tem deixado claro que o surto de hantavírus não deve ser comparado à emergência sanitária que se instaurou no país em 2020, com a covid-19.
Em comunicado oficial, o diretor-geral uma organização afirmou que "não se trata de outra covid" e garantiu que "o risco atual para a saúde pública decorrente do hantavírus permanece baixo".
Conforme Murillo Cipolat, não é razoável pensar em uma pandemia de hantavírus. Isso porque, embora possa ser letal, o patógeno não circula com a mesma facilidade que o coronavírus.
— Compreendo o receio das pessoas, mas, pelas suas características, o hantavírus não possui potencial pandêmico. A transmissão entre humanos não é comum e este não é um vírus que se espalha facilmente pelo ar ou que pode ser passado de uma pessoa para a outra de maneira casual, como ocorre com o coronavírus ou o vírus da influenza. Mesmo na cepa Andes, é preciso um contato próximo e prolongado com alguém infectado para que haja contágio — justifica o infectologista, definindo o risco como "absolutamente baixo".
O que ainda precisa ser esclarecido
Apesar da mobilização coordenada para conter o surto causado pelo hantavírus no cruzeiro MV Hondius, os órgãos oficiais ainda buscam algumas respostas:
Como ocorre a transmissão humana?
Embora confirmada para a cepa Andes, a transmissão de pessoa para pessoa não está completamente esclarecida.
Ainda são alvos de estudo fatores como o período de transmissibilidade e se, além do contato prolongado com pessoa infectada, o contato com secreções corporais facilitam o contágio.
Qual a origem exata do contágio no navio?
A principal suspeita é que o "paciente zero" seja o holandês de 70 anos que foi a primeira pessoa a morrer a bordo do navio, em 11 de abril. A hipótese das autoridades é que o homem tenha se contaminado antes da partida do navio, pois ele e a esposa haviam visitado uma área rural em Ushuaia, na Argentina.
Treze dias depois da morte do holandês, a esposa dele desembarcou do navio na Ilha de Santa Helena, no Oceano Atlântico. Ela foi levada para Joanesburgo, na África do Sul, mas passou mal e morreu dois dias depois.
Apesar das suspeitas, não há confirmação de que o início da infecção esteja ligado ao casal.





