
Uma das condições mais comuns entre as mulheres, que afeta mais de 170 milhões de pacientes no mundo, acaba de passar por uma mudança considerada histórica. Por meio de um consenso global publicado no dia 12 no periódico científico The Lancet, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) foi rebatizada como síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP).
A endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e representante do Brasil no Global Name Change Consortium, grupo responsável pela construção da nova nomenclatura, explica que a mudança busca corrigir um "erro técnico de décadas" e alertar para o caráter sistêmico da doença.
Segundo ela, a principal motivação para a troca é a inadequação do termo "policístico", que leva a um entendimento errôneo acerca da doença.
— Esse termo sugere a presença de cistos (estruturas capsulares fechadas que podem conter líquido, ar, pus ou outras substâncias), mas o que se observa nas mulheres que têm esse diagnóstico não são cistos: são folículos ovarianos que tiveram um crescimento interrompido — explica a médica.
Tais folículos não amadurecem da forma como deveriam e acabam por não liberar óvulos. Contudo, conforme a médica, nem todas as pacientes com a síndrome apresentarão essa característica folicular. Ainda assim, podem ter a doença, que se manifesta também de outras formas.
Os sintomas mais frequentes são:
- Alterações no ciclo menstrual
- Dificuldade para engravidar ou infertilidade
- Aumento de acne no rosto e em outras partes do corpo
- Aumento dos pelos corporais e faciais
- Ganho de peso e dificuldade para emagrecer
- Queda de cabelo em padrão androgenético, que configura calvície feminina
Conforme dados do Global Name Change Consortium, ao menos 85% das mulheres com a síndrome apresentam também resistência à insulina, o que associa a SOMP a uma série de outras condições clínicas.
Quem tem a doença possui maior predisposição para desenvolver diabetes e pré-diabetes, obesidade, colesterol alto, hipertensão, gordura no fígado e doenças cardiovasculares. A síndrome também está associada a taxas mais altas de ansiedade e depressão.
Tirando o foco dos ovários
Para a endocrinologista Letícia Weinert, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no Rio Grande do Sul (SBEM-RS), o principal benefício da mudança está na ampliação do olhar para a doença, que agora será mais facilmente entendida como a condição multifatorial que é:
— A nova nomenclatura tira o foco dos ovários, justamente porque não é uma doença só dos ovários. É uma doença sistêmica, que envolve uma série de condições endócrinas e metabólicas e pode afetar vários órgãos.
Como se chegou ao novo nome

O processo de mudança na nomenclatura envolveu 56 organizações científicas e de pacientes ao redor do mundo, além da análise de mais de 14 mil respostas de pesquisas globais.
Segundo a médica Poli Mara Spritzer, trata-se do desfecho de um esforço mundial que começou em 2012, inicialmente articulado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos.
O termo escolhido pelo consenso global — síndrome ovariana metabólica poliendócrina — dá a dimensão da complexidade da doença em seus três pilares principais:
- Poliendócrina, porque há o envolvimento de vários hormônios, como a insulina, a testosterona e o antimülleriano (hormônio que indica a quantidade de óvulos que a mulher possui)
- Metabólica, porque há uma forte ligação com a resistência à insulina e o favorecimento de condições como obesidade, diabetes e complicações cardiovasculares
- Ovariana, porque a doença pode trazer manifestações nos ovários e complicações reprodutivas, embora não se limite a elas
A nova nomenclatura tira o foco dos ovários, justamente porque não é uma doença só dos ovários.
LETÍCIA WEINERT
Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no RS
Como é o diagnóstico
Apesar da nova nomenclatura, os critérios de identificação da doença e o tratamento permanecem inalterados. O diagnóstico é fechado quando a paciente apresenta pelo menos dois entre os três critérios considerado decisivos para a doença:
- Ciclos menstruais irregulares, que variam frequentemente em duração e intensidade e podem vir acompanhados de períodos de amenorreia (ausência de menstruação)
- Excesso de hormônios masculinos, que pode ser identificado por alterações em exames laboratoriais ou por meio de sinais clínicos como aumento da acne e dos pelos corporais
- Aparência ovariana "policística" visível no ultrassom ou perceptível por níveis elevados de hormônio antimülleriano
Poli Mara observa:
— Se a mulher apresentar duas dessas manifestações, e outras causas para estes sintomas tiverem sido excluídas, o diagnóstico está confirmado. E é importante ressaltar que ela pode ter somente os dois primeiros critérios, sem apresentar os "cistos". O (novo) nome facilita esse entendimento.
Com a mudança, a expectativa é de reduzir o atraso na identificação da SOMP. O artigo publicado no The Lancet para a consolidação da nova nomenclatura estima que até 70% das mulheres afetadas pela doença permanecem sem diagnóstico durante a maior parte da vida.
Para a médica Letícia Weinert, o novo nome tende a chamar a atenção de profissionais de fora da áreas da endocrinologia e da ginecologia, que não estão tão habituados a identificar a condição — mas poderão, agora, enxergá-la mais facilmente como hipótese diagnóstica.
— Estamos abrindo o leque para que os profissionais da saúde que serão acionados para tratar os mais diversos sintomas da SOMP consigam ver a doença como possível causa. É algo que já acontece bastante com os dermatologistas, que são procurados por conta do aumento de pelos e da acne e frequentemente encaminham as pacientes para investigar a doença com um endocrinologista. Acredito que isso vá se estender às demais áreas, encurtando o caminho até o diagnóstico — detalha.
Tratamento é multidisciplinar
Como a SOMP afeta diversos sistemas, a abordagem terapêutica deve ser multidisciplinar, focada no manejo dos diversos sintomas que cada paciente pode apresentar.
Conforme Letícia, o pilar central do controle da doença, que será indicado para todas as pacientes, é a mudança no estilo de vida:
— A forma como a doença vai se manifestar pode ser diferente em cada pessoa, mas a adoção de uma dieta saudável e a prática de atividades físicas regulares são essenciais para o tratamento.
Medicamentos como anticoncepcionais, antiandrogênicos e sensibilizadores de insulina também são frequentemente utilizados, conforme a necessidade de cada paciente.


