
A bactéria Acinetobacter baumannii, a mesma envolvida no surto que fechou a UTI neonatal do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, foi identificada em quatro pontos de coleta de água do Guaíba pelo projeto ClimaRes WaSH, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS).
Em um dos locais, próximo à Estação de Bombeamento de Água Pluvial (EBAP) Menino Deus, foi isolada uma cepa multirresistente, capaz de driblar todos os antimicrobianos testados em laboratório.
O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) afirma que o achado se refere ao ambiente natural e não tem relação com a água tratada que chega às torneiras dos moradores da Capital.
A descoberta
A descoberta integra a primeira campanha de monitoramento de 2026 do ClimaRes WaSH, projeto que avalia a qualidade da água em 17 pontos da capital gaúcha.
Além do trecho próximo à EBAP Menino Deus, a Acinetobacter baumannii foi encontrada nas praias do Lami e de Ipanema e em uma área do Guaíba próxima à foz do arroio Dilúvio.
O achado preocupa porque trata-se de um patógeno que, em ambiente hospitalar, em que há pessoas com baixa imunidade, pode causar pneumonias graves, infecções de feridas e quadros de sepse, com mortalidade que chega a 70% nas cepas resistentes a antibióticos.
A bactéria já era conhecida do meio clínico em Porto Alegre. Em abril deste ano, um surto da A. baumannii na UTI neonatal do Hospital Fêmina motivou o fechamento temporário do setor para descontaminação e levou à morte de um bebê prematuro. O surto foi contido em seguida e o atendimento, normalizado.
— As pessoas não devem se alarmar, não é que vai todo mundo se contaminar com essa bactéria — pondera Fernando Magalhães, professor adjunto na área de Saneamento Ambiental do IPH/UFRGS e um dos coordenadores do projeto.
Água não levou a bactéria ao hospital
A Acinetobacter baumannii não chegou ao Hospital Fêmina pela água do Guaíba. O caminho mais provável seria o oposto.
Os dejetos de hospitais (não necessariamente o Fêmina) e de pacientes colonizados pela bactéria são lançados na rede de esgoto e, em uma cidade onde parte do esgoto não passa por tratamento adequado, acabam chegando ao rio.
—A água não levou a bactéria para nenhum lugar. O que foi identificado, na verdade, foi um resíduo de esgoto contendo a bactéria. Ela está presente em praticamente todos os hospitais e, após o descarte de dejetos no sistema de esgoto, pode ser detectada por meio da análise desse material — explica Andreza Martins, professora de Microbiologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS (ICBS/UFRGS).
O que ainda não está confirmado é se a cepa encontrada no Guaíba, ou seja, o perfil genético específico do microrganismo, é a mesma que circulou no hospital.
Essa é uma das próximas etapas da investigação. Mas o princípio geral está bem estabelecido na literatura: o esgoto urbano é um espelho microbiológico do que circula nos hospitais e na população.
Água do Guaíba é diferente da água da torneira
As amostras analisadas pelo ClimaRes WaSH foram coletadas diretamente do Guaíba, em pontos como praias e foz de arroios, sem qualquer relação com o sistema de tratamento e abastecimento.
Em nota enviada à reportagem, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) reforça essa diferença e afirma que a água distribuída em Porto Alegre passa por rigorosos processos de tratamento e controle de qualidade antes de chegar à população.
O Dmae informa que realiza, diariamente, mais de 2,4 mil análises em toda a cadeia: no manancial, onde a água bruta é captada; em todas as etapas do processo de tratamento; e em centenas de pontos estratégicos do sistema de distribuição.
A rotina segue os parâmetros da Portaria nº 888/2021, do Ministério da Saúde, com fiscalização da Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde.
Os relatórios mensais de qualidade da água são públicos e podem ser consultados no site do Dmae e no Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde.
"Informações coletadas em ambientes naturais não podem ser relacionadas ao produto que chega às torneiras", destaca o Departamento na nota.
O que é a Acinetobacter baumannii

Trata-se de uma bactéria gram-negativa, classificação dada a microrganismos que possuem uma membrana externa capaz de dificultar a ação de antibióticos e aumentar a resistência a tratamentos. Em condições normais, ela vive no ambiente, em água, solo e vegetação.
Os cientistas a classificam como ubiquitária, ou seja, capaz de crescer em locais bastante diferentes entre si. O problema não é a bactéria existir na natureza, e sim onde e em quem ela encontra condições para causar doença.
— Do ponto de vista da saúde humana, ela é considerada uma bactéria oportunista. Ela tem relevância maior em pacientes com comorbidades ou imunossuprimidos (baixa imunidade), dentro do ambiente hospitalar, onde vai encontrar pacientes com maior debilidade. Ela aproveita a porta de entrada de acessos vasculares, cateteres, sondas, um procedimento cirúrgico extenso, um paciente em ventilação mecânica — explica Andreza.
O principal quadro clínico associado à bactéria é a pneumonia, especialmente a pneumonia associada à ventilação mecânica em pacientes de UTI.
Outras infecções possíveis incluem feridas operatórias, infecções urinárias, meningite após neurocirurgia e quadros de bacteremia, com risco de sepse.
A A. baumannii responde por cerca de 80% das infecções causadas pelo gênero Acinetobacter em seres humanos, conforme o Manual MSD para Profissionais da Saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) classificam as cepas resistentes a carbapenêmicos, uma classe potente de antibióticos, como ameaças prioritárias no ranking global de resistência antimicrobiana.
Por que a mortalidade é tão alta
A taxa de letalidade observada em infecções graves por A. baumannii, que pode chegar a mais de 70%, está ligada a duas variáveis.
A primeira é o perfil dos pacientes infectados, que costumam estar em estado clínico já bastante deteriorado. A segunda é a alta resistência da bactéria aos antibióticos disponíveis.
— A bactéria é um marcador de morbidade dos pacientes. O paciente já está muito grave e desenvolve uma infecção por essa bactéria. A mortalidade está muito associada ao perfil de resistência. No Brasil, a gente tem uma taxa alta de resistência a carbapenêmicos dentro do ambiente hospitalar. Isso acaba piorando essa questão do tratamento, dificultando muito o tratamento — aponta a microbiologista.
A Acinetobacter baumannii é uma superbactéria?

No ponto da EBAP Menino Deus, o painel de antimicrobianos testados pelo ClimaRes WaSH não conseguiu inativar a bactéria. Em linguagem clínica, isso significa que, se um paciente fosse infectado por aquela cepa específica, os antibióticos de uso convencional não teriam efeito.
É justamente esse tipo de resistência que faz a Acinetobacter baumannii ser frequentemente classificada como uma "superbactéria", termo usado para descrever microrganismos capazes de resistir a múltiplos antibióticos.
— É como se não tivesse nenhum fármaco para combater ela. Se alguém tivesse se contaminado por ela, não teria uma medicação adequada. Essa é a questão da resistência — reforça Magalhães.
A literatura científica acompanha o avanço dessas cepas há pelo menos duas décadas. Estudo publicado em 2012 na revista Virulence, por pesquisadores do Cork Institute of Technology, na Irlanda, já apontava a A. baumannii como um patógeno de alerta vermelho devido ao seu amplo espectro de resistência.
Os autores apontam que a bactéria carrega uma "ilha de resistência" no genoma, um agrupamento de até 45 genes capazes de neutralizar antibióticos, o que explica a velocidade com que ela se adapta a novas pressões farmacológicas.
A pressão para o desenvolvimento dessa resistência é maior justamente nos hospitais. Quanto mais um antibiótico é usado, mais a bactéria se adapta a ele.
— É um fenômeno que a gente chama de pressão seletiva. Quanto mais antibiótico a bactéria recebe, mais ela vai querer se adaptar para sobreviver. Essa resistência acaba sendo maior dentro do ambiente hospitalar, porque lá é o local onde se usa mais antibiótico — observa Andreza.
Risco para quem frequenta o Guaíba
Os pesquisadores são enfáticos ao afirmar que o achado não significa que banhistas ou frequentadores das praias contaminadas vão necessariamente adoecer. O risco depende do tipo de exposição.
A população pode ficar tranquila no sentido de "se eu entrar em contato com a água, eu vou me contaminar com essa bactéria". Não é isso que esse achado indica. A população pode ficar tranquila em relação à água potável, ela não tem essa bactéria
ANDREZA MARTINS
Professora de Microbiologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS
Magalhães complementa o raciocínio sobre exposição em ambiente natural.
— A gente jamais vai recomendar o consumo dessa água (do Guaíba), óbvio, não é uma água potável. Se a pessoa bebe a água, ela tem mais risco. Se ela só pisa na água, o risco é menor. A vulnerabilidade depende do uso da água — explica o pesquisador.
As recomendações práticas seguem o que já vale para qualquer corpo hídrico urbano sem garantia de balneabilidade: não consumir a água diretamente do Guaíba em hipótese alguma, evitar o contato em caso de feridas ou cortes na pele e procurar atendimento médico em caso de sintomas após exposição.
Pessoas imunocomprometidas, em tratamento prolongado ou em contato com ambientes hospitalares formam o grupo de maior atenção.
A A. baumannii tem como portas de entrada preferenciais as mucosas, áreas de pele exposta e ferimentos. Em pacientes saudáveis, a colonização é rara: estudos citados na revisão da Virulence indicam que, no máximo, 3% da população em geral apresenta a bactéria como parte da flora cutânea normal.
Importância da ferramenta usada para encontrá-la

Mais do que a bactéria em si, o que o achado coloca em evidência é a ferramenta usada para encontrá-la. A chamada epidemiologia baseada em águas residuais já é adotada como programa governamental nos Estados Unidos, na Europa, na Austrália e em outros países.
No Brasil, ainda está em estágio de pesquisa acadêmica, com algumas iniciativas pontuais do Ministério da Saúde.
A lógica é direta: as pessoas eliminam microrganismos pelos dejetos, e o esgoto carrega esse rastro. Analisando algumas amostras de água residual de uma região, é possível identificar o que circula entre uma população inteira, sem precisar testar individualmente cada paciente.
— A epidemiologia baseada em águas residuais foi muito desenvolvida a partir da covid-19. Olhando para a água, era possível precocemente identificar o que estaria acontecendo em relação à transmissão do vírus. As pessoas eliminam os micro-organismos através dos seus dejetos e isso vai para o esgoto. A gente consegue, olhando para o esgoto, dizer o que está acontecendo com as pessoas sem precisar da amostra de cada um dos pacientes — explica a pesquisadora.
Segundo Andreza, a vantagem é dupla: custo menor e maior agilidade no diagnóstico de circulação de patógenos. No caso de bactérias multirresistentes, esse tipo de monitoramento permite mapear a presença de microrganismos perigosos em uma cidade, identificar áreas de maior concentração e orientar políticas públicas de controle.
— Esse achado nos mostra que a ferramenta de epidemiologia baseada em águas residuais realmente é um reflexo daquilo que está acontecendo lá no ambiente hospitalar. Os dejetos do ambiente hospitalar são um reflexo, o esgoto é um reflexo desses dejetos — afirma.
Gargalo da vigilância sanitária no Brasil
Para a microbiologista, o principal entrave brasileiro não é técnico, mas estrutural. O país tem boa infraestrutura de pesquisa em universidades e instituições, mas enfrenta dificuldades de logística, burocracia e recursos humanos para manter um sistema nacional de vigilância integrado.
— A gente precisa ter recursos para pagar as pessoas, ter os recursos financeiros para manter os insumos necessários e ter os recursos logísticos e de infraestrutura tecnológica, para que os dados sejam interligados, para que a gente tenha esses dados em tempo real, abastecidos numa plataforma onde a gente possa ter a informação de forma rápida e objetiva, e não levar meses para ter a informação do que está acontecendo — analisa Andreza.
Magalhães avalia que o Brasil já possui uma estrutura consolidada de vigilância em saúde, especialmente em situações de surtos virais e zoonoses, como a gripe aviária. Para ele, porém, a vigilância voltada à resistência bacteriana e aos genes de resistência ainda precisa avançar.
— O meu entendimento é que a gente tem uma boa estrutura de vigilância. O que foi montado tanto para a questão humana quanto animal funciona relativamente bem. A gente vê isso em surtos de gripe aviária, por exemplo, em que existe contenção. Mas, quando a gente fala em bactérias e genes de resistência, a gente precisa aprimorar e melhorar tanto as nossas analíticas, os laboratórios e os recursos, quanto inserir isso de forma mais eficiente na vigilância — afirma o pesquisador.
A unificação dos sistemas de monitoramento é, segundo os pesquisadores, o passo decisivo. Nesse cenário, a epidemiologia baseada em águas residuais é apontada como uma das ferramentas mais promissoras para reduzir custos e ampliar a capacidade de vigilância em escala nacional.
Próximos passos da pesquisa
O grupo do IPH planeja três frentes de trabalho a partir do achado. A primeira é a continuidade do monitoramento, para verificar se a presença da bactéria nos pontos identificados aumenta, diminui ou permanece estável ao longo do tempo.
A segunda envolve o desenvolvimento de tecnologias de tratamento, incluindo soluções baseadas na natureza, como sistemas de filtragem por vegetação, capazes de reduzir bactérias e genes de resistência na água.
A terceira é a formulação de protocolos e diretrizes de política pública, com base nos dados coletados.
— O monitoramento contínuo permite perceber, em uma estação de tratamento ou em algum ponto específico, um aumento desses microrganismos. A partir disso, já é possível adotar restrições ou pensar em estratégias para evitar que aquilo se espalhe. Essa é a ideia da vigilância — complementa o professor do IPH.
Enquanto os estudos avançam, o recado dos pesquisadores é claro: o achado não é motivo para pânico, mas é motivo para investimento estruturante em saneamento e em vigilância.
Segundo eles, a presença de uma bactéria de relevância hospitalar em um corpo d'água urbano é, ao mesmo tempo, um sintoma da degradação da infraestrutura sanitária e um sinal de que a ferramenta de monitoramento funciona, desde que o país esteja disposto a usá-la em escala.



