
Mesmo pouca atividade física já pode fazer diferença na saúde e até reduzir o risco de morte. Hábitos simples protegem o coração, o cérebro e o organismo como um todo. Pequenas mudanças na rotina, como caminhar alguns minutos por dia, já ajudam a prevenir doenças e a melhorar o bem-estar.
As evidências estão descritas em um boletim do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), divulgado nesta segunda-feira (6) em alusão ao Dia Mundial da Atividade Física. Baseado em mais de cem artigos científicos, o informativo mostra o impacto do movimento na longevidade e na rotina.
Um dos maiores estudos longitudinais sobre saúde do adulto na América Latina, o ELSA-Brasil acompanha cerca de 15 mil pessoas — servidores públicos da UFRGS, USP, UFBA, UFMG, UERJ e UFES — em seis Estados há mais de 15 anos.
Entre seus principais objetivos estão entender como os hábitos de vida influenciam a saúde e investigar determinantes de diabetes, doenças cardiovasculares, saúde mental e envelhecimento.
O que conta como atividade física?
O estudo já consolidou descobertas sobre como o movimento e até mesmo o local de moradia afetam a expectativa de vida e a prevenção de doenças.
— De forma geral, as pesquisas reforçam que o volume mínimo necessário para obter benefícios com a atividade física é, de fato, baixo — afirma Natan Feter, pesquisador colaborador do ELSA-Brasil e no Departamento de Ciências Biológicas na University of Southern California (USC), nos Estados Unidos. — Nossos achados também destacam o efeito deletério do comportamento sedentário e a importância de um estilo de vida mais ativo como um todo.
Mas o que vale como atividade física? Qualquer movimento que aumente a percepção de esforço em relação a estar parado ou andando usualmente, como caminhar, subir escadas, dançar, pedalar, cuidar do jardim e fazer exercícios em casa.
Menor risco de mortalidade

Em média, substituir apenas 10 minutos diários de comportamento sedentário (ficar sentado ou deitado) por alguma atividade física moderada ou vigorosa foi associado a um risco de mortalidade 10% menor em cinco anos — ou seja, a cada 10 mortes entre pessoas totalmente sedentárias, uma vida é salva no grupo que se movimenta.
Acumular aproximadamente 7 mil passos por dia se provou uma meta de grande impacto, reduzindo pela metade a mortalidade em cinco anos.
Atingir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 150 minutos de atividade moderada a vigorosa por semana foi associado a um risco 25% menor de mortalidade em cinco anos.
Hábito faz diferença
Pessoas que praticam atividade física podem apresentar:
- Menor chance de desenvolver diabetes e hipertensão
- Melhor funcionamento de domínios centrais da cognição, como memória, linguagem e atenção, além de menor risco de declínio cognitivo
- Menor chance de dores de cabeça frequentes
Além disso, manter um estilo de vida ativo está ligado a menor rigidez das artérias (um sinal de proteção ao coração). Portanto, não é só começar: manter o hábito é que faz a diferença na saúde.
Para quem convive com diabetes tipo 2, hipertensão ou dores musculares, o exercício regular ajuda a manter a doença controlada, protege o coração de complicações graves e garante maior força e autonomia para as atividades rotineiras.
Resultados do ELSA-Brasil e de outros estudos sugerem que mesmo volumes menores de atividade física (abaixo das recomendações) já se associam a benefícios — acumular de 60 minutos a 75 minutos ou mais por semana de atividade física no lazer mostrou relação favorável com indicadores de saúde.
A importância do ambiente

O ambiente também tem forte peso: moradores que vivem próximos a áreas verdes, como praças e parques, praticavam mais exercícios e apresentavam menos casos de obesidade.
Aqueles que relataram ter uma vizinhança com boa estrutura para atividade física (sombra, baixo tráfego, presença de pessoas se exercitando e facilidade para caminhar) apresentaram 69% mais chance de praticar atividade física no lazer por, pelo menos, 150 minutos por semana.
Na aposentadoria, manter-se ativo é um desafio: homens aposentados registraram uma inatividade física 65% maior do que aqueles que ainda trabalham; entre as mulheres, a inatividade foi de 55%.
Planejando políticas públicas
Os resultados do ELSA-Brasil reforçam a importância de promover políticas públicas voltadas à prática de atividades físicas, segundo os pesquisadores.
Além disso, o estudo possibilita entender não apenas associações, mas trajetórias de saúde e doença — o que é essencial para subsidiar estratégias de prevenção mais eficazes e adaptadas à realidade brasileira, como enfatiza Feter, do ELSA-Brasil e da USC:
— Nas últimas décadas, avançamos muito no entendimento do papel da atividade física na saúde. No entanto, ainda existem lacunas importantes, especialmente em países de renda média como o Brasil.
Nesse contexto, segundo o pesquisador, os monitoramentos realizados pelo ELSA-Brasil são fundamentais:
— Permitem acompanhar mudanças ao longo do tempo, identificar fatores de risco e proteção em diferentes grupos populacionais e produzir evidências robustas para orientar políticas públicas.



