Há uma tendência global de aumento da infertilidade masculina nas últimas décadas, influenciada por mudanças no estilo de vida e fatores ambientais e biológicos.
A infertilidade masculina se caracteriza pela diminuição na qualidade e na quantidade de espermatozoide, explica o urologista Fábio Pasqualotto, membro da Disciplina de Infertilidade Masculina da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e do Departamento de Andrologia da SBU-RS.
Já o homem estéril é aquele que não tem capacidade de gerar filhos, pois não tem espermatozoides ou testículos.
Estudo publicado em 2023 com dados de pesquisas anteriores mostrou que, entre 1973 e 2018, houve quedas de 51,6% no volume de sêmen e de 62,3% na contagem total de espermatozoides nas amostras de sêmen.
A taxa de declínio na contagem acelerou após o ano 2000, com aumento na porcentagem anual de queda, atingindo até 2,64% por ano em alguns grupos.
Tendência verificada nas clínicas
Os números são corroborados pela percepção dos médicos e pelos registros clínicos.
Dados da clínica onde Pasqualotto atende, em Caxias do Sul, na Serra, mostram que a média de concentração de espermatozoides em exames de sêmen avaliados caiu de 42,28 milhões por mililitro em 2022 para 31,09 milhões por mililitro em 2025 — uma variação de cerca de 26%. Considerando um período mais longo, de 2002 a 2025, a média de queda foi de 1,14% ao ano.
Dos 4.318 exames de sêmen avaliados pela clínica no período de 23 anos, 818 eram de pacientes que não tinham espermatozoides, ou seja, eram azoospérmicos. Segundo estudos, essa condição é verificada entre 1% e 2% dos homens em geral e entre 10% e 20% dos que procuram tratamento.
Acredita-se que, com a piora da quantidade de espermatozoides, a quantidade de azoospérmicos aumente. No entanto, registros clínicos variaram ao longo dos anos, sem indicar uma tendência consistente de queda.
Atendimentos triplicaram
Dados do Ministério da Saúde mostram que os atendimentos ambulatoriais por infertilidade masculina no Sistema Único de Saúde (SUS) praticamente triplicaram no Brasil entre 2015 e 2025, mantendo uma curva de ascensão mesmo durante o pico da pandemia.
No Rio Grande do Sul, embora os atendimentos ambulatoriais tenham aumentado em 2025 em relação aos dois anos anteriores, ainda permanecem abaixo dos patamares de 2015 e 2016.
Os números não correspondem necessariamente ao total de pacientes, já que uma mesma pessoa pode realizar mais de um atendimento ao longo do tratamento.
Causas da infertilidade masculina

Aproximadamente 45% das causas de infertilidade conjugal no mundo estão ligadas ao espermatozoide, segundo um estudo. Em 15% dos casos, o espermograma (exame de sêmen) é considerado normal, ou seja, o problema não é só a quantidade de espermatozoides, mas também a qualidade genética. Cerca de 30% dos casos de perdas seguidas de gestação (abortamentos de repetição) ocorrem devido à qualidade.
A fragmentação do DNA do espermatozoide — ou seja, a quebra das cadeias de DNA — tem aumentado, o que, na avaliação de Pasqualotto, pode ser o grande agente causador de infertilidade. As chances de ocorrência dessa fragentação aumentam com o passar da idade, principalmente acima dos 50 anos. São informações que, no passado, eram desconsideradas.
As causas da infertilidade masculina e da piora na qualidade seminal são variadas e podem incluir fatores como:
- Obesidade
- Tabagismo
- Estresse
- Fatores ambientais (exposição a agrotóxicos, pesticidas e à poluição atmosférica)
- Idade acima de 50 anos
- Fatores genéticos que interferem na integridade do DNA
- Condições médicas como a varicocele (veias dilatadas que aquecem os testículos) e a caxumba contraída após a puberdade
- Uso de substâncias como testosterona exógena e esteroides anabolizantes, que podem ocasionar atrofia testicular
- Uso de certos medicamentos, como antidepressivos
O momento de ter filhos
Uma mudança comportamental também entra na conta: os casais estão postergando o momento de ter filhos. Carlos Da Ros, coordenador do Departamento de Andrologia da SBU-RS, explica:
— Quando eles começam as investigações (sobre a fertilidade do casal), na verdade, a capacidade fértil natural começou a diminuir. Nos homens a partir dos 40 anos, as coisas são um pouco diferentes, porque tem todas as alterações hormonais.
Com mais idade, o processo se torna mais difícil para ambos, acrescenta Pasqualotto, que também é professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS):
— Tudo isso vai impactar negativamente a taxa de sucesso de uma gravidez e da fertilização in vitro.
"Sempre se acredita que o problema está relacionado à mulher"

Até recentemente, quando um casal tinha dificuldade para engravidar, investigava-se exaustivamente a saúde da mulher. Agora, o entendimento é outro: sabe-se que o parceiro também deve ser analisado desde o início. Acima de um ano de tentativas (ou de seis meses quando a mulher tem mais de 37 anos), é preciso procurar ajuda.
— Antigamente, só se falava da mulher — compara Pasqualotto. — O que a gente não pode esquecer é que fertilidade é um componente dos dois, não é só de um. Portanto, é importante que ambos investiguem. Afinal de contas, estamos falando da infertilidade conjugal.
A história do professor universitário Sandro dos Santos, 55 anos, de Caxias do Sul, ilustra essa situação. Por volta de 2007, quando ele tinha 37 e a esposa, a gerente financeira Angela Diel dos Santos, tinha 31, o casal investigou minuciosamente a fertilidade dela até descobrir que o problema estava com ele.
— Criou um peso muito grande para ela, como se a responsabilidade fosse somente dela, e na verdade é do casal. Só fui me conscientizar de que poderia ser comigo depois de toda a investigação com a ginecologista — relata Sandro. — Quantas vezes o problema é do homem e não da mulher, mas por machismo, por medo ou por achar que nunca é o problema, ele não busca as causas? Sempre se acredita que o problema está relacionado à mulher.
"Foi doloroso no início, mas teve um desfecho positivo"

Uma vez detectada uma fragmentação do DNA que diminuía a motilidade dos espermatozoides, o professor passou por tratamento com o medicamento gonadotrofina. O processo foi difícil e delicado, devido à pressão social, familiar e interna, recorda Santos.
Foram quase quatro anos tentando, até o casal engravidar naturalmente. Hoje, Santos e Angela são pais de Valentina, 15, e Thiago, 13. Ele observa que, muitas vezes, os homens não buscam informação ou ajuda e acabam se frustrando posteriormente, mas, se há o sonho de ter filhos, é preciso quebrar tabus, buscar alternativas e tentar.
— Foi doloroso no início, mas teve um desfecho positivo — afirma Sandro. — Só o fato de poder lembrar de tudo o que a gente passou e depois eu dançar a valsa dos 15 anos com a minha filha, não tem realização maior.
O homem no centro da investigação
Muitos homens evitam falar sobre infertilidade porque a associam, de forma equivocada, à disfunção erétil e à perda de virilidade, o que gera dificuldade de aceitação e silêncio sobre o tema.
Se, por um lado, a mulher é ensinada desde cedo a consultar o ginecologista e manter um acompanhamento regular, os homens, por outro, tendem a negligenciar os cuidados com a saúde.
A infertilidade, porém, não dá sinais, e só costuma ser descoberta nas tentativas de gerar filho. A consulta com o urologista deve ser periódica desde cedo — uma investigação precoce pode ajudar a detectar varicocele, por exemplo.
Exame e tratamento
Estudos recentes têm apontado a importância do espermograma — um exame simples — para a avaliação da qualidade da saúde do homem. A expectativa é de que, em alguns anos, o exame esteja na rotina de acompanhamento, e não apenas na investigação de fertilidade para gravidez. Um estudo está sendo conduzido no Brasil para descobrir o parâmetro de normalidade do brasileiro.
O tratamento para a infertilidade depende da causa. Algumas condições, como atrofia por caxumba, podem não ter alternativa. Em alguns casos, porém, é possível utilizar remédios ou realizar cirurgias (como reversão de vasectomia) e alcançar bons resultados. Pacientes sem espermatozoides podem voltar ou começar a produzi-los e ter filhos.


