
Mais da metade dos brasileiros (54%) nunca foi ao dermatologista. Entre jovens entre 16 e 24 anos, a proporção sobe para 70%. Os dados integram o Dossiê Brasil à Flor da Pele, elaborado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) com a L'Oréal Beleza Dermatológica, sob responsabilidade do Instituto DataFolha (acesse o relatório na íntegra).
Conforme o levantamento, divulgado no segundo semestre do ano passado, 11,5 milhões de brasileiros possuem algum diagnóstico de doenças crônicas na pele — maior órgão do corpo humano —, como vitiligo, psoríase, dermatite atópica (eczema), melasma, rosácea e lúpus.
Realizado em 136 municípios de todas as regiões do país, o estudo apontou que apenas 12% dos brasileiros se consultaram com um médico dermatologista no último ano. Há desigualdade de acesso: 58% das pessoas brancas já foram a uma consulta, proporção que é de apenas 41% entre pessoas negras.
A pesquisa mostrou que preocupações com problemas de pele e alergias predominam entre os motivos que levaram brasileiros ao consultório dermatológico no último ano.
Além disso, 39% dos entrevistados veem anúncios de tratamentos milagrosos na internet e 28% fazem testes com produtos novos influenciados por redes sociais e sem orientação.
Filas de espera extensas

O presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Carlos Barcaui, afirma que a oferta de serviços de médicos dessa especialidade é "insuficiente" no Sistema Único de Saúde (SUS).
— Embora o Brasil tenha um número expressivo de dermatologistas, a grande maioria está concentrada nas capitais e nas regiões mais desenvolvidas. Isso cria um vazio assistencial, principalmente no Norte e no Nordeste — contextualiza.
O profissional avalia que as filas de espera são extensas, que não há programas contínuos de prevenção e diagnóstico precoce, especialmente no câncer de pele, e que há pouca integração desde a atenção primária até chegar ao especialista.
Segundo Barcaui, outro problema é a desigualdade territorial: municípios menores raramente contam com serviços, geram longas filas de espera e convivem com dificuldades de transporte:
— Somado a isso, tem barreiras socioeconômicas e culturais. O brasileiro tem pouca informação sobre a saúde da pele e não consegue identificar os sinais precoces de doenças dermatológicas.
Baixa procura por prevenção
O presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia — Seção RS (SBD-RS), Juliano Peruzzo, lamenta que a maior parte das pessoas só busquem especialistas quando identificam algum problema de pele:
— Uma parcela um pouco menor acaba fazendo as consultas de rotina pensando mais na prevenção.
A SBD-RS informa que são quase 800 dermatologistas cadastrados no território gaúcho. A entidade salienta que apenas no Hospital de Clínicas de Porto Alegre foram realizadas 18.637 consultas dermatológicas em 2025.
— Na saúde pública, às vezes a dificuldade é o acesso. Temos muitas consultas, mas acabam sendo poucas, porque temos uma população muito grande — observa.
O chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Moinhos de Vento, André Carvalho, complementa:
— No sistema público, a dermatologia é a especialidade com o maior número de encaminhamentos. Então, existe também uma quantidade represada de atendimentos. E no sistema privado não são todas as pessoas que têm esse acesso.
Riscos de tratamentos inadequados
Em relação àqueles que têm o hábito de usar produtos ou se autodiagnosticar por meio de redes sociais e internet, Peruzzo alerta para os riscos de orientações inadequadas:
— Já peguei paciente utilizando produto que era para tratamento de mancha, e quando examinamos aquela mancha se tratava de um câncer de pele, retardando o diagnóstico e muitas vezes mudando o desfecho dessa condição.
Recado para os jovens
Carvalho, do Moinhos de Vento, observa que há um desconhecimento de parte da população inclusive sobre o que faz um dermatologista:
— São pessoas que nem sabem que é o médico responsável pelas doenças da pele, cabelos e unhas.
Ele nota que há perfis de brasileiros com mais iniciativa na busca por profissionais dessa especialidade e outros com menos:
— As mulheres entre 25 e 44 anos, com Ensino Superior, de classes A e B e com convênio médico têm essa questão proativa de procurar a saúde da pele. Os outros são esporádicos, reativos ou adaptativos, principalmente os homens e os jovens.
Carvalho recomenda consultar-se com um dermatologista pelo menos uma vez ao ano. Para os jovens, um alerta especial:
— É extremamente importante ir ao dermatologista, porque o dano cumulativo do sol é o que vai causar o câncer de pele no futuro.
Principais recomendações
Veja o que dizem médicos entrevistados para esta reportagem:
- Ao identificar algo diferente na pele, procure atendimento na rede privada ou em postos de saúde
- Fique atento ao surgimento ou a mudanças de manchas e pintas
- Faça exame de pele pelo menos uma vez ao ano
- Faça o autoexame e conheça sua pele
- Não se exponha diretamente ao sol das 10h às 16h
- Utilize protetor solar, chapéu de aba larga, blusa com protetor UV e óculos de sol
O que diz o Ministério da Saúde
A reportagem solicitou ao Ministério da Saúde posicionamento sobre as críticas ao acesso a dermatologistas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por nota, a pasta se manifestou sobre casos de câncer de pele:
"O Ministério da Saúde ressalta que a oncologia é uma das áreas prioritárias do programa Agora Tem Especialistas, voltado à redução do tempo de espera por atendimento especializado no SUS. O agendamento de consultas, exames e procedimentos, bem como a alocação de profissionais, são de responsabilidade de estados e municípios, conforme a organização regional das Redes de Atenção à Saúde.
Ao governo federal cabe a formulação de políticas públicas, a definição de diretrizes nacionais e o repasse de recursos para o financiamento da assistência.
O Ministério da Saúde também promove ações durante o Dezembro Laranja, mês de conscientização sobre o câncer de pele, com apoio a campanhas locais e oferta de materiais informativos gratuitos sobre prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos em seu site."
Outros contrapontos
Foram solicitados ainda posicionamentos das secretarias estadual e municipal da Saúde sobre os comentários dos entrevistados relacionados ao SUS.
O que diz a Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul
"São 27 ambulatórios atualmente, com 240 consultas mês cada. Portanto, são 6.480 consultas mensais. Antes do programa Assistir, eram apenas 3 ambulatórios de dermato. Além disso, esta especialidade está no SUS Gaúcho em 2026 e prevê, além da consulta, exames e cirurgias. Pelo SUS Gaúcho, foram 5.011 atendimentos em 3 meses."
O que diz a Secretaria da Saúde de Porto Alegre
"Até a manhã desta segunda-feira (6 de abril), o painel da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) registrava 4.723 encaminhamentos aguardando consulta com especialista na área. A oferta média mensal é de 726 consultas em dermatologia, distribuídas entre usuários da Capital e de outros municípios. Desse total, cerca de 55% das vagas são ocupadas por pacientes de Porto Alegre, enquanto 45% atendem demandas encaminhadas pelo Estado, por meio da regulação compartilhada."



