
O jejum ou detox de dopamina, prática que tem ganhado destaque nas redes sociais, promete mais produtividade e concentração após períodos de completo ócio.
Vídeos mostram pessoas passando 25, 30 ou até 60 minutos apenas olhando para o teto ou para a parede, com o objetivo de reprogramar o cérebro para reduzir a busca por prazeres imediatos (veja abaixo).
Essa "dopamina barata", como alguns usuários apelidam, estaria associada ao uso de redes sociais, ao consumo de álcool, açúcar e frituras e até mesmo à pornografia.
Segundo especialistas, da forma como é empregada, a prática não apresenta resultados a médio e longo prazo e pode até distorcer o conceito de jejum.
🔍 Por que não funciona desse jeito?
O termo ganhou popularidade em 2019 com o psicólogo Cameron Sepah e se espalhou pelo Vale do Silício. Em uma publicação no LinkedIn, ele afirmou que a prática se baseia na terapia cognitivo-comportamental e não busca reduzir a dopamina, mas controlar comportamentos impulsivos.
Como destaca a psicóloga Maila Holz, que pesquisa cognição humana, o termo jejum pode levar à ideia de que o cérebro seria capaz de dar um “reset”, o que não é verdade. Segundo ela, a dopamina continua sendo produzida pelo organismo, o que reforça que a prática, por si só, não é suficiente para mudar o comportamento.
Na avaliação do neurologista William Alves Martins, do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o importante é o equilíbrio:
— Não é necessariamente fazendo um jejum total de todas as coisas que amamos durante 40 minutos que isso vai melhorar. É realmente na modificação diária de hábitos, como usar só uma hora de Instagram por dia, depois bloquear o aplicativo e não usar mais. Aos pouquinhos, isso vai modificando o hábito e regulando a secreção de dopamina.
🧠 O que é a dopamina?
A dopamina é responsável pela motivação – é ela que faz com que a pessoa queira levantar da cama todos os dias. A substância é produzida pelos neurônios e é liberada em maior quantidade durante o processo de busca por um objetivo do que no momento em que a meta é alcançada.
Segundo Martins, a dopamina é essencial para que a pessoa queira trabalhar, estudar, encontrar um parceiro, planejar o futuro ou, em outros tempos, até buscar alimento na natureza. Ou seja, não é uma vilã.
— Não existe excesso de dopamina. O que acontece é que, quando buscamos prazer e temos recompensas imediatas (como no caso das redes sociais), vamos liberando cada vez mais dopamina. Essa liberação vai criando formação de hábitos — ressalta.
Quando esses hábitos viram quase um vício, a liberação de dopamina diminui. O corpo, por outro lado, passa a querer mais e mais aquele comportamento a fim de tentar voltar a ter a mesma liberação de dopamina.
— Hoje temos exposição a tantos estímulos ao mesmo tempo que tentam sequestrar a nossa atenção e liberar dopamina de modo intencional e artificial que ficamos nesse jogo de busca, de sentir o tempo inteiro e ter que ocupar o nosso tempo com tantas coisas que acabam, no final das contas, nos deixando cada vez mais ansiosos e deprimidos — ressalta o neurologista.
✌️ O que fazer para melhorar?
Os especialistas afirmam que ficar olhando para o teto ou para a parede não interfere na liberação de dopamina.
A psicóloga Maila Holz explica que pausas de alguns minutos ao longo da rotina de trabalho ou estudo, por exemplo, podem melhorar a concentração nos momentos seguintes. Ela ressalta que, a longo prazo, o que de fato contribui para o foco é a substituição de certos comportamentos, e não apenas permanecer inativo.
— É muito mais benéfico tu ter, por exemplo, atividades de brincar com teu cachorro, com teus filhos, de caminhar na rua, de tomar um sol, de praticar uma atividade física. Isso, sim, vai ter um efeito a médio e longo prazo benéfico para o cérebro em relação ao sistema de atenção, de controle, de planejamento — cita.
O primeiro passo, portanto, é olhar para os comportamentos do dia a dia e ver quais estão em excesso e gerando prejuízo. A partir disso, vale tentar inserir um novo hábito, que traga mais benefícios para a saúde física e mental.
— Não necessariamente reduzimos a dopamina. Ela está armazenada no nosso cérebro, só que ela vai ser liberada aos pouquinhos, ao invés de ter uma grande liberação e depois uma queda rápida — esclarece o neurologista William.
Vale muito mais a pena a pessoa criar hábitos onde vai eventualmente atingir essa liberação de dopamina de maneira mais fisiológica, mais devagarinho, do que necessariamente a pessoa ficar olhando para o teto sem fazer nada
WILLIAM ALVES MARTINS
neurologista
Ainda sobre o conteúdo viral nas redes sociais, a psicóloga Maila Holz faz um alerta: o jejum não deve ser adotado por pessoas com diagnóstico de dependência, pois pode provocar estresse e até agravar o quadro.
Segundo ela, a prática também não substitui tratamentos para transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), ansiedade ou depressão.
Por outro lado, a especialista aponta que os vídeos levam à reflexão sobre a sobrecarga do cérebro, relacionada ao tempo excessivo nas redes sociais – inclusive quando usadas como forma de descanso.
O neurologista complementa:
— Vale muito mais a pena a pessoa criar hábitos onde vai eventualmente atingir essa liberação de dopamina de maneira mais fisiológica, mais devagarinho, do que necessariamente a pessoa ficar olhando para o teto sem fazer nada.




