
Em 2022, a cantora Anitta revelou que havia sido diagnosticada com o vírus Epstein-Barr (EBV), o mesmo responsável pela mononucleose, a chamada "doença do beijo". O que pouco se comenta é que esse vírus está presente em cerca de 95% da população mundial e, na maioria das pessoas, nunca dá sinal de vida.
Agora, pesquisadores deram um passo inédito para tentar mudar a relação da ciência com ele: identificaram um mecanismo capaz de bloquear sua reativação no organismo.
O estudo foi divulgado no portal científico ScienceDaily e conduzido em camundongos geneticamente modificados para carregar genes de anticorpos humanos.
A partir dessa modificação, os pesquisadores conseguiram criar anticorpos semelhantes aos humanos que bloquearam a infecção nos modelos de laboratório.
Os animais tinham sistemas imunológicos que imitavam o sistema humano, o que torna o resultado mais relevante do que experimentos em células isoladas.
O que é o vírus Epstein-Barr
O EBV pertence à família dos herpesvírus e é classificado como herpesvírus humano 4. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), a maioria das pessoas contrai o vírus ainda na infância, muitas vezes sem perceber: os sintomas, quando aparecem, são parecidos com os de um resfriado comum.
O problema surge quando a infecção ocorre na adolescência ou na vida adulta. Nessa faixa etária, o EBV pode causar mononucleose infecciosa, com febre, garganta inflamada, fadiga intensa, gânglios linfáticos inchados no pescoço, além de aumento do baço e do fígado e irritação na pele.
Os sintomas costumam passar em duas a quatro semanas, mas a fadiga pode persistir por meses.
O que torna o vírus particularmente difícil de combater é sua estratégia de sobrevivência. Após a infecção inicial, o EBV não vai embora: fica dormente nas células do sistema imunológico por anos ou décadas.
Quando o organismo passa por estresse, doenças ou queda de imunidade, o vírus pode se reativar.
Quem foi infectado pode transmiti-lo novamente, independentemente do tempo desde a primeira infecção.
Como o vírus se espalha

A principal via de transmissão é a saliva, daí o apelido de "doença do beijo". O EBV se espalha pelo compartilhamento de bebidas, comida, talheres, copos e escovas de dente, além do contato com brinquedos que crianças tenham levado à boca.
O vírus sobrevive em superfícies úmidas e também pode ser transmitido pelo sangue e pelo sêmen, por contato sexual, transfusões de sangue e transplantes de órgãos. Não existe vacina contra o EBV.
Outras doenças associadas ao EBV
O EBV não é apenas o agente da mononucleose. Pesquisas associam o vírus a pelo menos outras sete condições de saúde, entre elas o lúpus eritematoso sistêmico, a esclerose múltipla e o diabetes tipo 1. Foi justamente esse vínculo que ganhou atenção quando a cantora Anitta revelou seu diagnóstico em 2022.
Uma publicação na revista científica BMC Family Practice aponta ligações entre a inflamação crônica provocada pelo EBV e o risco de desenvolvimento de doenças em pessoas que o carregam.
O mecanismo exato ainda está sendo estudado, mas a hipótese é que, ao se reativar, o vírus pode desencadear respostas inflamatórias que contribuem para doenças autoimunes.
Como os cientistas tentaram bloqueá-lo
O avanço recente está na identificação da via de ativação viral, o caminho molecular que o EBV percorre para sair do estado dormente e começar a se replicar dentro do organismo.
Ao mapear esse mecanismo, os pesquisadores conseguiram criar anticorpos que bloqueiam esse gatilho antes que o vírus se estabeleça nas células hospedeiras.
A descoberta ataca o problema em um ponto que antivirais convencionais e vacinas não alcançam: o momento exato em que o vírus decide se reativar.
Identificar essa via abre caminho para o desenvolvimento de terapias que mantenham o EBV permanentemente suprimido, em vez de apenas tratar os sintomas quando ele já está ativo.
O potencial de alcance é amplo. Pacientes com imunidade comprometida, que têm maior risco de reativação grave do vírus, seriam os mais beneficiados em um primeiro momento.
A pesquisa também aponta para possibilidades no campo das doenças autoimunes ligadas ao EBV.
Próximos passos
A ressalva é importante: o estudo está em fase inicial. Os experimentos foram feitos em modelos animais, não em humanos, e os resultados precisam ser replicados e expandidos antes de qualquer aplicação clínica.
Ensaios em pessoas ainda precisarão ser conduzidos para confirmar se a estratégia é segura e eficaz fora do laboratório.
Não se trata de uma cura nem de um tratamento disponível no curto prazo. O que os pesquisadores encontraram é o mecanismo — a chave que ativa o vírus.
O próximo passo é desenvolver, com base nisso, terapias que possam ser testadas em humanos.
Para um vírus que a maioria da população carrega sem saber, encontrar essa chave já é, por si só, um passo importante.
