
Após a identificação de uma bactéria na unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal, o Hospital Fêmina, em Porto Alegre, adotou medidas de restrição para conter a situação.
O setor segue fechado temporariamente, sendo que um dos bebês infectados morreu. Nesta quarta-feira (22), o hospital voltado à saúde feminina no bairro Rio Branco informou que se trata de uma bactéria multirresistente, mas não pan-resistente – o que seria ainda mais grave –, como vinha sendo divulgado.
Segundo o médico infectologista Alexandre Schwarzbold, professor da Universidade Federal de Santa Maria e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), ambos perfis de resistência bacteriana são situações típicas nos cenários críticos dos hospitais. Esses microrganismos são resistentes a boa parte dos antibióticos. A bactéria Acinetobacter baumannii, encontrada no Fêmina, é um desses germes.
— Multirresistente é quando a bactéria tem resistência a quase todas as classes de antimicrobianos, mas ainda tem sensibilidade a um ou dois antibióticos. Quando é pan-resistente, a bactéria tem resistência a absolutamente tudo que temos de arsenal, aí não tem opção terapêutica — explica.
Ou seja, as bactérias multirresistentes são menos complexas de combater do que as pan-resistentes. Mas, mesmo assim, podem ser fatais, especialmente para bebês e pessoas idosas, que têm o sistema imunológico mais frágil. No caso de pessoas adultas, são perigosas, mas não necessariamente letais.
— A Acinetobacter é muito encontrada nas superfícies em ambiente hospitalar. Então, exige um grande rigor no controle de desinfecção, principalmente em UTIs, seja adulto ou neonatal. Para bebês é muito forte, e prematuro mais ainda, porque a bactéria coloniza o trato respiratório, e o bebê ainda não desenvolveu direito a imunidade — complementa Schwarzbold.

De acordo com o especialista, três fatores contribuem para o surgimento das infecções causadas por germes multirresistentes em hospitais:
- Condições clínicas do hospedeiro
- Colonização do ambiente hospitalar
- Pressão seletiva de antibióticos
A chamada pressão seletiva ocorre quando o uso excessivo de antibióticos acaba eliminando bactérias sensíveis, mas estimulando a reprodução de cepas mais resistentes. Isso favorece a evolução de bactérias como a encontrada no Fêmina, originando infecções mais difíceis de tratar, sobretudo em bebês.
Rápida identificação auxilia
Embora seja difícil prevenir que essas contaminações aconteçam, uma vez que o uso de antibióticos é necessário e o ambiente hospitalar favorece essas situações, é preciso identificar o quanto antes as bactérias para combatê-las, destaca o médico infectologista Eduardo Sprinz, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
— Temos que ter instrumentos para identificar quando acontece um surto. O surto ocorre quando a gente documenta a infecção em contatos próximos, em um ambiente fechado, como uma UTI. Geralmente só tem um caso. Se aparecem dois, três, quatro casos simultaneamente, sabemos que se trata de um surto — explica.
Assim que o surto é registrado, é preciso isolar os pacientes para não espalhar a bactéria. A forma mais comum de contágio é por contato, seja de forma direta ou indireta. Então, para prevenir, é fundamental garantir a desinfecção constante de superfícies e equipamentos hospitalares.
— Talvez a coisa mais importante seja o cuidado do ser humano. A higiene das mãos é importante, e lembrando que o álcool em gel liquida com essas bactérias, mesmo as superbactérias — ressalta Sprinz.
Na avaliação de Schwarzbold, uma estratégia batizada de stewardship vem auxiliando hospitais na gestão responsável de antibióticos. Essa iniciativa ajuda a otimizar o uso dos medicamentos e evitar excessos, impedindo o desenvolvimento de bactérias resistentes.



