Mesmo com avanços no diagnóstico e tratamento, a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares segue elevada no Brasil e no mundo. As doenças do coração continuam sendo a principal causa de morte no país, respondendo por cerca de 30% dos óbitos, segundo o relatório Estatística Cardiovascular. Isso acende um alerta para a importância de prevenir a aterosclerose, que acaba desencadeando uma série de problemas de saúde.
A aterosclerose ocorre quando há um acúmulo de gordura, colesterol e outras substâncias nas artérias, formando placas que dificultam a circulação do sangue. Isso pode provocar complicações cardíacas e venosas diversas, como acidente vascular cerebral (AVC), infarto, trombose e insuficiência cardíaca, entre outras.
Diante desse cenário, entidades vêm divulgando novas orientações sobre cuidados com colesterol, como a recém-lançada Diretriz Americana de Dislipidemia de 2026, documento de peso na cardiologia mundial. Assinada por diferentes sociedades médicas dos Estados Unidos, como o Colégio Americano de Cardiologia, a publicação traz dados, metas e recomendações.
Ainda no final de 2025 foi lançado o documento brasileiro equivalente, a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, alinhada com publicações que são referência no mundo, principalmente da Europa, destacam especialistas ouvidos pela reportagem. O relatório não era atualizado desde 2017. Entenda quais são as novas medidas e como cuidar da saúde do coração ao longo da vida.
Metas rigorosas no Brasil
Com as mudanças, a Sociedade Brasileira de Cardiologia definiu metas mais rigorosas contra o colesterol e criou a categoria de "risco extremo", referente a pacientes que já viveram múltiplos eventos cardiovasculares. O documento estabelece valores de referência para avaliar o nível de colesterol no sangue, a depender do risco individual do paciente.
O principal indicador é o colesterol LDL-c, conhecido por ser o colesterol ruim, uma vez que deposita gordura nas paredes das artérias. Para quem tem risco extremo de ter problemas de coração, a meta é manter o nível abaixo de 40 mg/dl. Para pessoas com baixo risco, a meta foi endurecida – agora, o limite de LDL-c considerado é 115 mg/dl. Até então, o valor levado em consideração era 130 mg/dl.
Na visão do cardiologista Paulo Behr, chefe do Centro de Dislipidemia da Santa Casa de Porto Alegre, as novas diretrizes representam avanços importantes.
— Em 2017, o Brasil já foi pioneiro ao estabelecer a meta de 50 mg/dl para pacientes de alto risco. Agora, indivíduos que tiveram AVC e infartos repetidos em 2 anos são considerados de extremo risco. Temos evidências robustas dando base científica a essas metas. Outra mudança importante é em relação aos pacientes de baixo risco, estabelecendo um limite menor — explica o médico.
Presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do Sul (Socergs), Behr participou da elaboração da nova diretriz brasileira. De acordo com o especialista, outra mudança que deve impactar a população é a inclusão da dosagem da lipoproteína(a), ou Lp(a), entre os exames recomendados para monitorar a gordura no sangue.
— É outro tipo de gordura, que possui um caráter muito genético. O nível dela no sangue muda muito pouco com alimentação equilibrada e prática regular de exercícios. É uma gordura muito relacionada a um risco maior de infarto e morte súbita, por isso, todas as pessoas precisam fazer o exame ao menos uma vez na vida — destaca.
Valores acima de 50 mg/dL indicam elevação significativa da lipoproteína(a). O exame é simples, trata-se de uma coleta de sangue comum. No entanto, ainda não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) nem tem cobertura ampla nos planos de saúde. O valor do exame em clínicas varia de R$ 40 a R$ 80, em média.
Cuidado ao longo da vida
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o colesterol deve ser uma preocupação ao longo da vida, e não somente na maturidade. Essa é outra recomendação trazida pelas novas diretrizes, indicando que esses cuidados devem ser mantidos por pessoas de diferentes faixas etárias.
— É importante monitorar os níveis de colesterol durante a vida toda. Não podemos pensar em cuidar somente quando a pessoa tem 60, 70 anos de idade. A gordura vai se acumulando nas artérias a vida toda. Mesmo jovens devem buscar manter o LDL-c abaixo de 115 mg/dl, porque as doenças cardiovasculares seguem sendo as que mais matam, afetando pessoas de todas as idades — explica Behr.

Ao trocar de cardiologista e fazer exames de rotina a pedido do novo médico, o arquiteto e urbanista Cícero Porto, 32 anos, constatou em 2025 que estava com os níveis de colesterol alterados. Mesmo praticando exercícios físicos regularmente e tendo menos de 40 anos, ele estava com os índices desregulados – o colesterol bom estava em 58 mg/dl, abaixo do recomendado, e o ruim estava em 204 mg/dl, acima do valor considerado limite.
Como já tinha histórico de problemas de colesterol na família, ele decidiu investir em um tratamento para proteger a saúde do coração.
— Eu me assustei que de um ano para o outro quase não teve alteração, tive exatamente os mesmos valores de colesterol ruim em um ano e no outro. Aí eu decidi dar uma mudada maior na minha alimentação. Cortei a carne vermelha durante a semana e passei a intensificar os exercícios que eu pratico — conta.
Perigo silencioso
A dislipidemia, como foi batizada por profissionais da saúde, é caracterizada por uma alteração nos níveis de lipídios (gorduras) do sangue, como colesterol desregulado e triglicerídeos elevados. Considerando pessoas com alto risco cardiovascular, o sinal de alerta deve acender quando forem notados os seguintes aspectos no colesterol:
- Colesterol ruim (LDL-c) alto, ou seja, acima de 70 mg/dl
- Colesterol bom (HDL-c) baixo, ou seja, abaixo de 100 mg/dl
A prevenção e monitoramento regular são importantes, porque se trata de um perigo silencioso, sem sintomas até que algo mais grave aconteça, destacam os especialistas.
— Vemos uma tendência mundial de aumento de casos de diabetes, obesidade e sobrepeso. É de se esperar que isso provoque um aumento nas taxas de dislipidemia, acompanhando esse avanço. São todas alterações que fazem parte de um mesmo processo de disfunção metabólica, o que aumenta também o risco cardiovascular da população — destaca a endocrinologista Carolina Leães Rech, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no RS (SBEM-RS).
Professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e chefe do Serviço de Endocrinologia da Santa Casa de Porto Alegre, a médica ressalta que todos esses fatores do histórico do paciente são levados em conta ao analisar o risco cardiovascular – tabagismo, sobrepeso, obesidade, sedentarismo, diabetes e outras doenças que possam agravar o quadro.
— Uma grande mudança nas diretrizes é que a gente faça uma individualização. Não é só olhar o nível que o colesterol está, mas entender o contexto de risco daquele indivíduo como um todo. Nós temos uma gama muito grande de fatores de risco levados em consideração para que possamos fazer uma estratificação de risco daquele paciente e, a partir disso, definir o tratamento — explica Carolina.
Tratamento multifatorial
De acordo com o endocrinologista do Hospital Moinhos de Vento Fernando Gerchman, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), manter um estilo de vida saudável é fundamental, mesmo para indivíduos sem dislipidemia, como forma de prevenção, assim como parte do tratamento. Praticar exercícios físicos (pelo menos 150 minutos por semana de atividade física), manter uma alimentação equilibrada, evitando ultraprocessados e carne vermelha em excesso são dicas valiosas para todos.
— É preciso evitar alimentos de baixa qualidade que promovem o ganho de peso e pioram os níveis de colesterol. Dar preferência ao frango e outras carnes brancas do que as vermelhas, aumentar o consumo de alimentos ricos em fibras, porque as fibras reduzem o nível de colesterol. Verduras, feijão e peixes são boas opções — destaca.
A depender do nível de risco do paciente, pode ser necessário conciliar as mudanças de estilo de vida com medicação no tratamento. Os medicamentos mais comuns para combater o problema são à base das estatinas, que são remédios com potencial de reduzir os níveis de colesterol e, através dessa redução, diminuir o risco de desfechos cardiovasculares.
Alguns deles estão disponíveis via SUS, como a sinvastatina, nas Unidades Básicas de Saúde e na Farmácia Popular, e a atorvastatina, também para pacientes com quadros mais graves, mediante preenchimento de formulário de medicamentos especiais.



