
A subvariante BA.3.2 do coronavírus, batizada de "Cicada" (cigarra, em inglês), já foi identificada em ao menos 23 países e tem sido monitorada por cientistas ao redor do mundo.
Detectada pela primeira vez em novembro de 2024, na África do Sul, a linhagem sumiu do radar por meses e voltou a chamar atenção em setembro de 2025 em escala global. O nome veio de uma comparação com a cigarra.
A nova sublinhagem da covid-19 é uma sublinhagem da Ômicron, e não uma variante independente do coronavírus.
— A gente acompanha desde a identificação do SARS-CoV-2 (vírus causador da covid-19) a evolução em linhagens e sublinhagens ao longo do tempo. Já tivemos a Alfa, a Delta, a Ômicron. Isso faz parte do comportamento desse vírus — explica o médico infectologista Paulo Gewehr, representante regional da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e supervisor do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento.
O que distingue a "Cicada" das outras sublinhagens recentes é a quantidade de mutações acumuladas na proteína Spike, a estrutura que o vírus usa para se ligar às células humanas e iniciar a infecção.
A BA.3.2 apresenta entre 70 e 75 mutações nessa proteína em relação às variantes JN.1 e LP.8.1, as mais prevalentes no mundo atualmente.
— É como se fosse uma chave que ele usa para invadir o nosso corpo e causar doença. Quanto mais inteligente e capaz for essa chave, maior a chance de ele entrar e fazer uma infecção — diz Gewehr.
Esse volume de alterações levanta a questão do chamado "escape de anticorpos": a possibilidade de que os anticorpos produzidos após vacinação ou infecções anteriores reconheçam a proteína Spike com menos eficiência, facilitando novas infecções.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu, em dezembro de 2024, que a BA.3.2 apresenta escape substancial de anticorpos em comparação com variantes anteriores.
A Rede Global de Vírus (GVN), que reúne virologistas de mais de 90 centros em mais de 40 países, confirmou esse perfil, mas ponderou que escape imunológico não significa, necessariamente, doença mais grave.
Sintomas seguem os mesmos
Até agora, o perfil clínico da "Cicada" é semelhante ao das versões recentes da Ômicron: febre, dor de garganta, tosse, coriza e cansaço. Não há relatos de manifestações novas ou mais agressivas associadas à subvariante.
A OMS concluiu, com base nas evidências disponíveis, que não há estudos clínicos ou epidemiológicos publicados indicando que a BA.3.2 esteja associada a maior gravidade da doença em comparação com outros descendentes da Ômicron em circulação.
Também não foram registrados sinais de aumento de hospitalizações, internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ou mortes atribuíveis à cepa nos países onde ela foi detectada.
O que a subvariante tem demonstrado é maior transmissibilidade. Entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, as detecções semanais da BA.3.2 chegaram a representar cerca de 30% das sequências reportadas em três países europeus: Dinamarca, Alemanha e Holanda. Até 11 de fevereiro, a cepa havia sido identificada em 23 países, incluindo Austrália, Reino Unido, China e Estados Unidos.
— A gente tem mais casos porque existem mais pessoas sendo infectadas. Proporcionalmente, vai ter um número maior de casos graves. Isso já é um problema por si só, não porque a variante seja mais letal, mas porque ela consegue se transmitir mais fácil — alerta Gewehr.
Crianças no radar
Relatos de alguns países que monitoram a BA.3.2 com mais detalhamento indicam um possível aumento proporcional de casos entre crianças pequenas.
A hipótese investigada é que esse grupo tem menor imunidade acumulada, tanto por infecções quanto por vacinação, do que adultos e idosos, tornando-se mais vulnerável a um vírus que circula com mais facilidade.
— As crianças pequenas não tiveram tempo de vida para ter várias infecções pela covid-19, nem foram vacinadas porque os pais não procuraram a vacina. Esse vírus está circulando mais entre as crianças e causando mais doença nelas. Mas, de novo, não é uma doença mais grave do que as outras variantes — reforça Gewehr.
Brasil ainda sem registros oficiais
O Brasil não registrou oficialmente a circulação da BA.3.2 até o último boletim disponível.
Contudo, é provável que a subvariante chegue ao país. A velocidade de disseminação internacional da BA.3.2 e o histórico de outras sublinhagens indicam que a introdução em novas regiões tende a ocorrer em pouco tempo após a expansão global.
Nos Estados Unidos, a cepa foi detectada em amostras de quatro viajantes provenientes do Japão, Quênia, Holanda e Reino Unido, em amostras de esgoto de aeronaves e em amostras clínicas de cinco pacientes, dois deles hospitalizados. Também foi identificada em 132 amostras de esgoto de 25 estados americanos.
Vacinas ainda protegem

Apesar das mutações na proteína Spike, os imunizantes seguem eficazes contra as formas graves da doença. As vacinas nunca acompanham com exatidão a versão mais recente do vírus em circulação, mas mantêm proteção consistente contra hospitalização e morte, geralmente entre seis e 12 meses após a dose.
Esse padrão se sustenta porque todas as sublinhagens atuais descendem da Ômicron, o que preserva parte da resposta imunológica induzida pelos imunizantes.
A JN.1 é o alvo das vacinas atualmente disponíveis. A OMS e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já determinaram que os novos imunizantes adaptem sua composição para ser direcionada à LP.8.1, sublinhagem que sucedeu a JN.1 como a mais prevalente globalmente.
A importância da vacinação
Mais do que a subvariante em si, o ponto de maior preocupação para os especialistas é a queda nas coberturas vacinais. A covid-19 continua causando hospitalizações e mortes, especialmente entre idosos, crianças pequenas, gestantes e pacientes com doenças crônicas ou imunossupressão, grupos que apresentam as menores taxas de vacinação recente.
— As pessoas acham que a covid não existe mais ou não nos atrapalha tanto, e aí não procuram a vacina. Isso é o que chamamos de "fadiga vacinal". E a gente tem baixas coberturas vacinais justamente nos grupos de maior risco para doença grave — diz o Gewehr.
No Brasil, a vacinação contra a covid-19 integra o calendário nacional para gestantes, idosos com 60 anos ou mais e crianças de seis meses a cinco anos. Grupos prioritários, como imunocomprometidos, trabalhadores de saúde, indígenas, quilombolas e pessoas com comorbidades, também têm indicação de reforços periódicos.
Para o restante da população adulta sem condição específica, não há mais recomendação de novas doses.
A GVN concluiu que a BA.3.2 não sinaliza uma nova ameaça, mas reforça a importância de manter a vigilância contínua e de estar com a vacinação em dia.
A avaliação é a mesma da OMS: a subvariante não parece representar riscos adicionais à saúde pública além dos já associados às outras linhagens da Ômicron em circulação, mas seu perfil de escape imunológico justifica monitoramento constante.
O que você precisa saber sobre a "Cicada"
A "Cicada" já chegou ao Brasil?
Ainda não há confirmação oficial. O Brasil não registrou a circulação da BA.3.2 até o último boletim disponível, mas especialistas consideram provável que isso aconteça, dado o histórico de disseminação rápida da subvariante em outros países.
A subvariante é mais transmissível?
Sim. A BA.3.2 tem demonstrado maior capacidade de se espalhar entre as pessoas em comparação com as sublinhagens anteriores. Foi o que levou ao crescimento das detecções em países europeus no fim de 2025 e início de 2026.
É mais grave?
Não há evidências disso até o momento. A OMS e a Rede Global de Vírus afirmam que não há sinais de aumento de hospitalizações, internações em UTI ou mortes associadas à "Cicada" nos países onde ela foi detectada.
Os sintomas são diferentes?
Não. O perfil clínico segue o mesmo das versões recentes da Ômicron: febre, dor de garganta, tosse, coriza e cansaço. Não há relatos de manifestações novas ou mais agressivas.
As vacinas ainda funcionam?
Sim, especialmente contra as formas graves da doença. As mutações da BA.3.2 podem facilitar a infecção mesmo em quem já foi vacinado ou teve covid antes, mas os imunizantes seguem protegendo contra hospitalização e morte.
Devo me vacinar?
Se você faz parte de um grupo prioritário, sim. No Brasil, a vacinação de rotina contra a covid-19 está indicada para gestantes, idosos com 60 anos ou mais e crianças de 6 meses a 5 anos.
Imunocomprometidos, trabalhadores de saúde e pessoas com comorbidades também têm indicação de reforço periódico. Para os demais, não há recomendação de novas doses no momento.



