
Uma jovem de 19 anos quebrou os dois joelhos durante um treino em uma academia em Brasília (DF), no dia 1º de abril. A trava de segurança do aparelho de elevação pélvica (chamado também de hip thrust) se soltou enquanto ela treinava com 180 quilos de carga.
Em imagens de câmeras de segurança que circulam nas redes sociais, é possível ver o momento em que as anilhas caem sobre os joelhos da jovem. Na sequência, frequentadores correm para ajudá-la, enquanto ela grita por socorro.
O caso, investigado pela Polícia Civil, acendeu uma discussão que vai além do acidente em si: quando um aluno se machuca dentro de uma academia, quem é o responsável?
O que diz a legislação?
Na prática, a lei trata a relação entre aluno e academia como uma prestação de serviço. Isso significa que o estabelecimento tem responsabilidades claras, principalmente em relação à segurança de quem frequenta o local.
A advogada cível Renata da Veiga Lima Bernardes afirma que a obrigação da academia vai além de oferecer espaço e equipamentos.
— A academia não está obrigada apenas a oferecer o espaço e os aparelhos. Ela deve garantir a segurança dos clientes, o que é inerente à própria atividade. O ambiente, os instrumentos e os profissionais colocados à disposição geram uma expectativa legítima de uso seguro e adequado — explica.
Por isso, a academia pode ser responsabilizada por danos causados aos alunos mesmo sem ficar comprovado erro ou má-fé. Em termos simples, basta que haja o prejuízo e que ele tenha relação com o serviço oferecido.
Quando ocorre uma falha em um equipamento, como a soltura de uma trava de segurança, a situação é considerada um problema no serviço prestado.
— A inadequação, o defeito ou a ausência de manutenção dos equipamentos caracteriza falha na prestação do serviço e gera o dever de indenizar, porque ultrapassa o risco normal da atividade — detalha a especialista.
Professor de educação física também pode responder
A responsabilidade não se limita à academia. O profissional de educação física também pode ser incluído na análise, dependendo da forma como atua no local.
Quando é funcionário contratado, ele faz parte direta do serviço oferecido. Nesses casos, tanto o profissional quanto a academia podem ser responsabilizados por falhas na orientação, na supervisão ou na definição da carga dos exercícios.
Já o personal trainer autônomo responde pelos próprios atos, sendo necessário comprovar que houve erro na sua conduta. Ainda assim, a academia pode dividir a responsabilidade se permitir que esse profissional atue em suas dependências.
Outro ponto que pesa nessa avaliação é a quantidade de profissionais disponíveis para atender os alunos, especialmente em horários de maior movimento. Renata chama atenção para a falta de acompanhamento adequado em academias cheias.
— Em horários de pico, é comum haver muitos alunos para poucos profissionais, muitas vezes com apenas um responsável técnico auxiliado por estagiários. Essa falta de suporte reforça a responsabilidade da academia — comenta.
O que a vítima pode pedir na Justiça
Quem sofre um acidente em academia pode buscar reparação pelos prejuízos. Isso inclui gastos com atendimento médico, medicamentos e fisioterapia, além de perda de renda, caso a pessoa fique impossibilitada de trabalhar.
Também podem ser solicitadas indenizações por danos morais, quando há sofrimento emocional relevante, e por danos estéticos, se houver sequelas visíveis. Segundo Renata, a gravidade da lesão influencia diretamente nos valores.
— Quanto mais grave a lesão, maior tende a ser a indenização por danos morais e estéticos, especialmente quando há sequelas permanentes — destaca.
Quando a academia pode ser inocentada
Embora a academia tenha responsabilidade sobre o serviço, há situações em que ela pode não ser obrigada a indenizar. Isso ocorre, por exemplo, quando fica comprovado que o próprio aluno deu causa ao acidente.
A advogada cita um caso que envolve uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) sobre um acidente em um aparelho de leg press, equipamento em que o aluno empurra uma plataforma com os pés para trabalhar pernas e glúteos.
Ficou demonstrado que o aluno não acionou corretamente a trava de segurança antes do uso, o que levou à exclusão da responsabilidade da academia.
— A culpa exclusiva da vítima rompe a relação entre o dano e o serviço prestado — ressalta Renata.
Outra situação possível é quando o aluno segue treinos por conta própria, sem orientação profissional, mesmo tendo acompanhamento disponível. Isso inclui exercícios retirados de redes sociais, aplicativos ou de outros frequentadores.
Nesses casos, a análise depende das circunstâncias de cada situação.
— É preciso avaliar tanto a legislação quanto o que aconteceu na prática. A ideia é proteger o aluno, mas sem responsabilizar a academia de forma indevida — completa a especialista.
Como lesões graves nos joelhos acontecem
Lesões graves nos joelhos podem ocorrer quando há uma carga elevada associada a uma falha no equipamento ou na execução do exercício.
Ao comentar o caso da jovem de 19 anos, o ortopedista Lucas Ramos, especialista em articulações, explica que impactos desse tipo atingem diretamente estruturas importantes do joelho.
— Fraturas na parte superior da tíbia e na patela são comuns em situações de compressão intensa. Também podem ocorrer rompimentos de ligamentos, lesões na cartilagem e danos aos tecidos ao redor — detalha.
O especialista destaca ainda que o joelho é uma das articulações mais exigidas do corpo.
— O joelho sustenta o peso do corpo. Quando há dano na estrutura óssea e na cartilagem, o risco de complicações é alto — reforça.
Entre as complicações mais graves está a síndrome compartimental, em que a pressão dentro da perna aumenta rapidamente e pode comprometer músculos e nervos.
A recuperação costuma ser longa e pode exigir meses de tratamento. Em alguns casos, ficam sequelas, como dor crônica, rigidez e perda de força.
Segundo Ramos, tempo de atendimento faz diferença no resultado.
— O diagnóstico rápido e a estabilização precoce das fraturas aumentam as chances de uma boa recuperação — completa.
Cultura do peso máximo e os riscos
O exercício de elevação pélvica, conhecido como hip thrust, é comum nas academias e pode ser seguro quando feito da forma correta.
Ramos explica que não existe um limite padrão de carga. O aumento de peso deve ser gradual e acompanhado por um profissional.
Ao analisar o caso da jovem de 19 anos, o ortopedista chama atenção para a combinação de fatores que pode levar a acidentes.
— O risco surge quando há carga elevada sem progressão adequada associada a falha de segurança — alerta.
Quando a carga é muito alta, o estresse sobre articulações e músculos aumenta. Se houver falha no equipamento, o impacto pode ser transferido diretamente para o corpo de forma brusca.
Ele também aponta a influência de comportamentos incentivados fora das academias.
— Existe uma cultura de exibição de cargas elevadas que pode levar praticantes a ignorar sinais do corpo, pular etapas e deixar de checar os equipamentos — aponta Ramos.
Como prevenir lesões
A prevenção depende tanto das academias quanto dos alunos. Os estabelecimentos devem fazer inspeções frequentes nos equipamentos, manter a manutenção em dia e retirar de uso qualquer aparelho com defeito.
Já os alunos devem conferir travas e ajustes antes de iniciar os exercícios e buscar orientação profissional.
— Grande parte desses acidentes pode ser evitada com manutenção adequada, supervisão qualificada e conscientização — pontua Ramos.



