
Embora a pandemia de coronavírus faça parte do passado para a maioria das pessoas, ainda está presente para quem sofre de covid longa — os sintomas podem durar meses e até anos. Tanto que o 15 de março é lembrado como dia mundial de conscientização sobre essa condição. O que a ciência descobriu sobre ela nos seis anos transcorridos desde que foi decretada a emergência sanitária?
A covid longa manifesta-se geralmente três meses após o início da doença, com sintomas que duram por pelo menos dois meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo. Entre 10% e 20% das pessoas que tiveram a enfermidade desenvolvem alguma complicação de forma prolongada. As informações são da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado em maio de 2025, alerta para a variedade dos sintomas e para a ausência de testes laboratoriais para um diagnóstico de covid longa: "O diagnóstico deve ser feito com base no histórico e exame físico do indivíduo, ou pode necessitar de testes diagnósticos direcionados, conforme o quadro clínico apresentado".
Porém, saber como essa condição se desenvolve e quais são os sintomas mais comuns pode auxiliar no diagnóstico e na assertividade do tratamento. Também é importante saber diferenciar a covid longa de um simples cansaço remanescente da ação de outro vírus sobre o corpo.
A reportagem de Zero Hora consultou médicos de três instituições hospitalares de Porto Alegre — Hospital de Clínicas, Santa Casa e Moinhos de Vento — para entender o que a ciência já sabe a respeito dessa condição.
Definição imprecisa

Para o médico infectologista Alessandro Comarú Pasqualotto, chefe do Serviço de Infectologia da Santa Casa da Capital e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), ainda há imprecisão quanto à forma prolongada da enfermidade:
— Tudo que a pessoa vier a ter no pós-covid ficou atribuído à doença. Não é claro o que, de fato, foi pela covid. O que se observa é que, depois de ter tido covid, muita gente começou a apresentar uma série de sintomas, incluindo perda de memória, tosse e cansaço. Isso tudo é chamado de covid longa.
Vacina foi "revolução"
Segundo o médico, o tratamento da covid longa não apresentou avanços significativos nesse tempo. Os remédios, ressalta, são caros e possuem uma janela de uso pequena, além de serem direcionados para quem tem mais riscos de complicações.
— A grande revolução na covid foi a vacina, porque achatou a frequência da doença — atesta Pasqualotto. — Por consequência, hoje as pessoas não têm as complicações de quem teve covid (antes da criação da imunização).
O médico observa que tudo é "muito especulativo" no que diz respeito à atuação prolongada dos efeitos:
— O que se sabe é que as pessoas que tiveram a covid mais grave têm uma frequência maior dessa (forma) longa. Cerca de 30% das pessoas têm alguma manifestação pós-covid. Mas isso pode chegar a mais de 40% se ela foi grave.

Como é o tratamento
A principal recomendação do profissional é que os pacientes de covid longa tratem os sintomas durante a reabilitação:
— É muito comum as pessoas reportarem que ficaram esquecidas depois de terem covid, que permaneceram com algum tipo de dor ou falta de ar.
Pasqualotto destaca que "a covid segue acontecendo":
— Não é a preocupação de saúde pública que tínhamos antes, mas continua levando muitas pessoas a terem sintomas depois da covid. Por isso, é importante a vacinação. Ela pode ajudar a eliminar a covid longa em função de a pessoa não adquirir a doença.
Sintomas comuns da covid longa
- Fadiga crônica
- Fraqueza muscular
- Problemas respiratórios crônicos
- Falta de ar
- Sensação de aperto no peito
- Respiração curta
- Dificuldade de concentração e memória
- Dores de cabeça crônicas
- Alterações de paladar e olfato
- Aumento no transtorno de ansiedade generalizada, especialmente depressão
- Distúrbios de sono
Complexidade da condição

O chefe do Serviço de Fisiatria e Reabilitação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Thiago Calcagnotto Farina, destaca a complexidade da síndrome. Ele cita a capacidade da covid longa de afetar diversos órgãos do corpo e apresentar uma variedade de sintomas, o que dificulta o diagnóstico.
Segundo ele, pacientes podem se recuperar em poucos meses ou ficar com sequelas permanentes, o que varia conforme o tipo de sintomatologia e a gravidade da lesão aguda.
— Aqueles pacientes que permaneceram longos períodos em UTI têm chance maior de desenvolver covid longa e com danos neurológicos mais graves, como a neuropatia (inflamação dos nervos periféricos). Em pacientes de covid longa, pode ocasionar dores crônicas por meses e até anos — detalha Farina, mencionando as mãos e os pés como as áreas mais impactadas.
Há casos, no entanto, em que pessoas com quadro mais leve e que não necessitaram de internação podem desenvolver a covid longa.
— Isso pode estar associado a doenças prévias, como diabetes ou hipertensão — exemplifica o médico.
Uma reclamação comum entre pacientes de covid é o impacto da doença no cabelo. Muitos perdem fios ou os percebem mais finos.
— Sintomas como queda de cabelo podem acontecer. Uma das características do vírus é atacar as células imunológicas e causar alterações hormonais.
Tratamento multidisciplinar
Em termos de reabilitação, o trabalho envolve ações de uma equipe multidisciplinar. Não existe um tratamento específico, pontua Farina.
Há exercícios de fisioterapia para reforço muscular, mobilidade e treinos de equilíbrio e marcha. E há ainda técnicas de dessensibilização nos membros para quando o paciente possui dor ou dormência. A terapia ocupacional age nas atividades da vida diária. Por sua vez, a enfermagem auxilia em questões vinculadas à hipertensão arterial.
No tratamento de alterações motoras, têm sido empregadas órteses de polipropileno nos pés dos pacientes para evitar deformações e ajudar a pessoa a caminhar. São como "calhas" confeccionadas como moldes para auxiliar no processo de reabilitação.
O acompanhamento passa ainda por fonoaudiólogos para a recuperação de olfato e de paladar. Entre os exercícios de recuperação, está o procedimento de cheirar pó de café.
— A pessoa cheira o café e algumas substâncias específicas para melhorar a questão sensorial e a perda do olfato — resume Farina.
Uma expectativa para o tratamento da covid longa, segundo ele, vem de estudos com imunoglobulina, uma substância injetada na veia:
— Tem alguns resultados promissores, mas que ainda não têm uma comprovação científica. Podem ser uma alternativa para os pacientes com neuropatias nos nervos.
Fadiga e disfunção cognitiva

O médico Regis Goulart Rosa, chefe do serviço de Medicina Interna do Hospital Moinhos de Vento, afirma que os grupos de pessoas mais suscetíveis à covid longa incluem mulheres, pessoas com idade entre 30 e 50 anos e pessoas com comorbidades, como diabetes, hipertensão, doenças pulmonares crônicas, cardiopatias e pacientes com doenças hepáticas.
Segundo o especialista, é importante ter o diagnóstico de exclusão na investigação da doença para descartar outras patologias que causam sintomas parecidos. Ele relata que há um padrão nas reclamações dos pacientes:
— A fadiga é o sintoma mais comum pós-covid. É uma intolerância à atividade física que o paciente não tinha antes. Além de ser o mais frequente, costuma ser persistente. A disautonomia (transtorno provocado por alterações do sistema nervoso autônomo), assim como a fadiga, são muito comuns.
Outro sintoma relatado é disfunção cognitiva, que é a dificuldade de concentração e memória.
— Fora do Brasil, é chamada de brain fog (névoa cerebral). Uma série de sintomas cognitivos que acabam impactando a performance da pessoa. Melhora com o tempo, mas causa certo prejuízo.
Síndrome heterogênea e ampla
Rosa explica que a síndrome de covid longa é "extremamente heterogênea e ampla":
— O que a gente costuma recomendar é um processo de reabilitação individualizado, de acordo com aqueles sintomas que estão causando um impacto maior na vida da pessoa.


