
A Polícia Federal (PF) prendeu na segunda-feira (23) uma pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) após localizar amostras virais furtadas de um laboratório de alta contenção biológica da instituição.
O material havia desaparecido em 13 de fevereiro e foi encontrado 40 dias depois em três pontos diferentes do campus, parte em freezers de outros pesquisadores e parte em lixeiras comuns. O marido da suspeita, o médico veterinário Michael Edward Miller, também passou a ser investigado.
A pesquisadora detida é a professora doutora Soledad Palameta Miller, argentina nascida em Rosário e docente da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) desde agosto de 2025.
Ela foi presa em flagrante na segunda-feira (23) durante operação da PF que cumpriu mandados de busca e apreensão autorizados pela 9ª Vara Federal de Campinas. No dia seguinte, Soledad foi solta após a Justiça conceder liberdade provisória. O processo tramita em sigilo.
Furto das amostras
O desaparecimento das amostras foi percebido na manhã de 13 de fevereiro por uma pesquisadora com acesso autorizado ao Laboratório de Virologia Animal do Instituto de Biologia. As caixas com material viral haviam sido retiradas de uma área classificada como nível de biossegurança 3, o mais alto em operação no Brasil para estudo de agentes infecciosos.
O acervo pertencia à professora Clarice Weis Arns. Segundo a investigação, Soledad não possuía laboratório próprio e utilizava espaços cedidos por outros docentes. Para acessar as áreas de origem do material, onde não tinha autorização, ela contou com a ajuda de terceiros, entre eles uma orientanda de mestrado.
As amostras percorreram cerca de 350 metros dentro do campus. A Polícia Federal as encontrou em três locais distintos. Na FEA, havia caixas com tubetes dentro de um freezer lacrado.
No Laboratório de Estudos de Doenças Emergentes, foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado à professora dentro do freezer de outra pesquisadora. No Laboratório de Cultura de Células, no próprio Instituto de Biologia, frascos descartados foram encontrados em lixeiras comuns.
A universidade acionou a Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para apoio técnico. Todo o material apreendido foi encaminhado ao Ministério da Agricultura e Pecuária para análise.
Em nota, a instituição afirmou que colabora com as autoridades e que os responsáveis serão punidos conforme a lei. A PF informou que não divulgará mais detalhes para não comprometer o inquérito.
O que havia nas amostras
A Polícia Federal confirmou que entre os vírus furtados estavam amostras dos subtipos Influenza A H1N1 e H3N2, causadores da gripe sazonal. O Ministério da Agricultura mantém em sigilo a lista completa dos materiais apreendidos. Segundo a investigação, havia outros vírus humanos e suínos entre as amostras, mas os tipos específicos não foram divulgados.
O laboratório de origem pesquisa principalmente viroses respiratórias em animais, como pneumovírus aviário, vírus da bronquite infecciosa aviária, doença infecciosa da bursa, vírus respiratório sincicial bovino e herpesvírus equino e bovino, segundo informações institucionais da universidade.
A PF afirma que não houve contaminação externa e que todas as amostras foram recuperadas dentro dos limites do campus.
Risco do transporte sem controle
Para o médico infectologista Paulo Gewehr, representante regional da Sociedade Brasileira de Imunizações e supervisor do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento, o episódio reúne falhas de segurança com potencial de risco sanitário.
— Quando esses agentes biológicos são manipulados fora dos protocolos definidos, existe risco de contaminação da equipe envolvida e possibilidade de escape do laboratório, com impacto em pessoas ao redor — afirma.
Segundo ele, o transporte de material biológico é uma das etapas mais reguladas dentro dos protocolos de biossegurança. No caso investigado, não há indicação de que essas exigências tenham sido cumpridas.
— Existe um sistema sofisticado de transporte, com recipientes seguros, travas e autorizações em diferentes níveis. Pelo que foi divulgado, nada disso foi observado — completa o especialista.
As amostras teriam sido levadas sem recipientes adequados e armazenadas de forma irregular. Gewehr também aponta incertezas sobre a forma de manipulação.
— Ela não era uma pessoa autorizada. Não sabemos se tinha capacidade técnica para retirar e transportar as amostras. Também não é possível afirmar se houve contaminação de superfícies ou extravasamento do vírus durante o deslocamento — destaca.
H1N1 e H3N2
Os vírus Influenza H1N1 e H3N2 são classificados como agentes de nível 2 de biossegurança, com risco moderado para trabalhadores e ambiente. São os subtipos associados à gripe sazonal que circula anualmente, sobretudo no inverno.
Gewehr explica que a transmissão ocorre por via respiratória, por gotículas liberadas ao falar, tossir ou espirrar, com alcance de até dois metros. Também é possível a infecção após contato com superfícies contaminadas seguido de toque nos olhos, nariz ou boca.
O infectologista Eduardo Sprinz avalia que, do ponto de vista epidemiológico, os subtipos Influenza A H1N1 e H3N2 não representam, neste momento, uma ameaça de grande impacto.
— Eles estão contemplados na vacina conforme recomendações internacionais. Não teriam relevância evolutiva ou viral importante neste momento — destaca.
Ele acrescenta que a proteção conferida pela vacina contra influenza costuma durar cerca de seis meses. A maior vulnerabilidade ocorre entre pessoas não vacinadas ou no período em que os níveis de anticorpos já estão em queda.
Ainda assim, os especialistas alertam que a avaliação do risco depende de informações que permanecem sob sigilo. Para o infectologista Paulo Gewehr, não é possível afirmar qual era exatamente a natureza das amostras envolvidas no caso.
Segundo ele, vírus estudados em laboratório podem ser tanto cepas naturais quanto versões geneticamente modificadas para fins científicos, como desenvolvimento de vacinas, testes de patogenicidade ou análise de transmissão em modelos experimentais. Essas modificações podem alterar características como capacidade de infecção, resposta imunológica ou gravidade da doença.
— Esses materiais biológicos existem na natureza e podem causar doenças, inclusive graves. Mas também podem incluir amostras geneticamente modificadas para pesquisa. Não sabemos se essas amostras de H1N1 e H3N2 tinham maior poder de transmissão ou se eram mais patogênicas — detalha.
Gewehr explica que é justamente essa incerteza um dos fatores que justificam a existência de diferentes níveis de biossegurança em laboratórios. Quanto maior o potencial de risco individual ou coletivo de um agente infeccioso, mais rigorosas são as exigências estruturais e operacionais para seu armazenamento e manipulação.
Ele faz um paralelo com os materiais do coronavírus, que já circulavam entre humanos antes da pandemia de covid-19.
— Existem vários que causam apenas resfriados. Até que surgiu o SARS-CoV-2, com características completamente diferentes e impacto global. Por isso, quando não se sabe exatamente qual cepa está sendo estudada ou qual manipulação foi feita, a análise de risco fica limitada — relembra.
Na prática, a ausência de informações sobre o tipo específico de vírus pesquisado impede uma avaliação mais precisa sobre o potencial sanitário do episódio.
Questão ainda sem resposta
A motivação do furto permanece desconhecida. Para os especialistas, essa é uma das principais preocupações.
— Tudo depende do que a pessoa pretendia fazer com o material — afirmou Sprinz.
Em um cenário extremo, ele descreve a possibilidade de cultivo das amostras para ampliar a quantidade viral e posterior liberação em ambiente fechado e com grande circulação de pessoas.
— É um risco potencial, ainda que extremo — comenta.
O infectologista também citou suspeitas sobre a origem da pandemia de covid-19, associadas à hipótese de vazamento laboratorial.
— Os impactos podem ser enormes, especialmente quando se trata de um micro-organismo diferente dos que circulam normalmente — reforça Sprintz.
Descarte inadequado
Entre os achados da investigação, a presença de frascos com material biológico em lixeiras comuns chamou atenção. Para Gewehr, o perigo está na cadeia de exposição que pode se formar.
— Um profissional de limpeza ou alguém sem conhecimento pode manipular esse material e levá-lo ao lixo comum. Depois disso, outras pessoas podem entrar em contato sem saber do que se trata — exemplifica.
O descarte correto exige a inativação completa do vírus por autoclave (processo de esterilização com vapor em alta pressão e temperatura), incineração em alta temperatura ou uso de agentes químicos específicos.
— É preciso tornar o vírus inviável — diz Sprinz.
Esses procedimentos seguem protocolos rígidos e costumam ocorrer dentro do próprio laboratório para evitar transporte com risco de acidente.
O que são os níveis de biossegurança
O nível de biossegurança 3 é o mais alto atualmente em operação em laboratórios brasileiros. É exigido para o estudo de agentes com alto risco individual e risco moderado para a comunidade, capazes de causar doenças graves ou letais, muitas vezes com transmissão aérea, mas para os quais existem medidas de prevenção ou tratamento.
Sprinz explica que o nível 1 envolve materiais sem risco para humanos. O nível 2 inclui agentes de risco moderado, como o influenza. O nível 3 exige equipamentos de proteção e sistemas de contenção mais rigorosos. O nível 4, inexistente no Brasil, é reservado a organismos de alta letalidade e sem tratamento disponível, como o vírus Ebola.
O fato de o laboratório operar nesse nível indica que o ambiente pode ser utilizado para estudos com agentes mais perigosos, o que reforça a gravidade em possíveis falhas.
Gewehr lembra um episódio histórico envolvendo o vírus Marburg, que ajuda a entender por que os protocolos atuais de biossegurança são tão rigorosos. O agente pertence ao grupo dos vírus causadores de febres hemorrágicas graves, o mesmo do Ebola, e foi identificado pela primeira vez após um surto ocorrido em 1967 na cidade alemã de Marburg.
Na ocasião, pesquisadores que estudavam primatas importados da África acabaram expostos ao vírus, que havia sido transportado para a Europa para investigação científica.
O episódio resultou em casos de doença grave entre profissionais de laboratório e evidenciou falhas importantes nos procedimentos de contenção biológica da época.
Segundo o infectologista, o caso ilustra os riscos associados ao deslocamento inadequado de agentes altamente patogênicos.
— É um vírus com alta letalidade (88%), sem tratamento específico, que acabou sendo manipulado e transportado em condições muito distantes dos padrões atuais. Isso representou uma quebra total dos parâmetros de segurança que hoje são considerados básicos — ressalta.
A partir de eventos como esse, foram desenvolvidos protocolos mais rígidos de biossegurança, incluindo regras detalhadas sobre transporte, armazenamento e manipulação de micro-organismos potencialmente perigosos.




