Carolina Goldstein, 31 anos, chega por volta das 8h ao Grupo Hospitalar Conceição, na zona norte de Porto Alegre. Veste o uniforme azul, troca informações com a equipe, separa os materiais de que vai precisar, coloca o estetoscópio ao redor pescoço e pega as fichas dos pacientes do dia. A médica está pronta para começar os atendimentos. Só que, ao invés de ter um consultório, ela tem vários: as casas de seus pacientes.
Ela faz parte do Programa de Atenção Domiciliar (PAD) do Conceição, que tem como objetivo dar suporte para pessoas com necessidade de reabilitação, cuidados paliativos ou doenças crônicas agravadas. Os atendimentos são 100% gratuitos, oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O time de Carolina é formado também por uma enfermeira, uma técnica de enfermagem e uma médica residente, além de um motorista. No total, são 10 carros, sete equipes que contam com médicos e mais uma com especialistas, como fonoaudiólogos, nutricionistas e fisioterapeutas.
Chegada com abraços e sorrisos
Na tarde de uma quarta-feira, Carolina tem alguns pacientes na sua rota. O primeiro é Guilherme Dias Mazieiro, 23, que está acamado, precisando de atenção integral e de equipamentos de monitoramento. Um dia após chegar à maioridade, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória. Após ser socorrido e reanimado depois de 12 minutos sem oxigênio, ficou com sequelas neurológicas permanentes.
O paciente mora no bairro Mario Quintana, na Zona Leste, e tem como principal cuidadora a mãe, Leila Dias Mazieiro, 52, que deixou de trabalhar para se dedicar integralmente às necessidades filho. E é ela, com o cachorrinho Barbicha andando ao redor, quem recebe a equipe do PAD no portão de casa. A chegada é com abraços e sorrisos, como quando um parente querido chega para uma visita.
— Viramos uma grande família junto dos pacientes — diz Carolina. — Criamos um grau de intimidade muito maior do que quando acompanhamos no hospital. Afinal, entramos na casa das famílias, brincamos com o cachorro e conversamos sobre coisas muito íntimas.
Cuidado com o paciente e com a família
Chegando ao quarto de Guilherme, em poucos minutos Carolina nota mudança em sua respiração desde a última semana, um grau de atenção construído graças à proximidade com o paciente e com a família. Então, o time todo começa a fazer seu trabalho, avaliando a situação do paciente, examinando, conferindo os marcadores clínicos e perguntando a Leila como foi a semana ao lado de Guilherme.
— O PAD é muito importante porque não cuida apenas do Guilherme, mas também da família — afirma a mãe. — Quantas vezes já chorei agarrada no pessoal.
Durante a consulta, que leva cerca de meia hora — mas pode demorar mais, caso o paciente necessite —, Leila faz os pedidos de remédios e pomadas de que ele estava precisando. A técnica de enfermagem vai até a mala com medicamentos que fica no porta-malas do carro e entrega as encomendas.
Locais de difícil acesso
As oito equipes do PAD do Conceição atendem uma área de Porto Alegre que abrange cerca de 500 mil pessoas, divididas entre as zonas norte, noroeste, leste, nordeste e ilhas. Os times se dividem por região para maximizar os atendimentos — com pacientes próximos, há menos tempo de deslocamento. Ainda assim, os médicos enfrentam dificuldades para chegar a algumas casas.
— Vamos aonde o paciente precisa de atendimento, mesmo que o acesso seja difícil ou a área tenha algum conflito — diz a médica do PAD Ana Paula Dalosto, 31. — A beleza do nosso trabalho é poder estar presente nesses lugares onde a pessoa tem dificuldade de acesso ao sistema de saúde por estar acamada ou não conseguir sair de casa.
Capacitação das famílias
As equipes entram em ruas não asfaltadas e vielas por onde o carro sequer passa. Os profissionais de saúde precisam, volta e meia, descer do veículo e completar o trajeto a pé, levando a mala com medicamentos na mão.
Não são apenas remédios que são fornecidos pelo PAD, mas também empréstimo de equipamentos de suporte à vida, como concentradores e cilindros de oxigênio, bem como aspiradores para desobstrução de vias aéreas, cadeiras de rodas e colchões.
— Levamos o hospital até a pessoa. Inclusive com aplicações de medicação injetável e coleta de exames — explica Carolina. — Tudo para que o paciente não precise voltar para o hospital ou que vá o menos possível.
Um dos objetivos do PAD, acrescenta ela, é capacitar os familiares no manejo de dispositivos médicos, como mexer em uma sonda ou fazer um curativo:
— São eles que vão estar com o paciente durante todo o tempo.
Avanços na reabilitação
Após uma avaliação das equipes médica e de enfermagem, fica decidido se o paciente internado no hospital pode ou não seguir se tratando em casa. Caso positivo, o familiar recebe instruções sobre como proceder até a visita inicial da equipe médica no domicílio — que ocorre no primeiro dia útil após a alta hospitalar.
Foi assim com Natália Schmik, 41, esposa de Geraldo Borba Melo, 55, que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) no final de 2025, ficou com sequelas neurológicas e está em fase de recuperação. O PAD entrou com o suporte médico e com os profissionais de fisioterapia e fonoaudiologia, essenciais para a evolução do paciente, que já voltou a sentar e falar.
— Conheci o PAD quando o Geraldo foi internado. Foi um alívio porque, quando ele veio para casa, estava praticamente imóvel — lembra Natália. — Hoje, ele está feliz com a evolução, fez amizade com as meninas do PAD e, por causa do programa, pode ficar em casa com a gente. Se não fosse isso, ele estaria muito mais no hospital — compara Natália.
Outro recurso oferecido pelo programa é transporte: os profissionais buscam e levam pacientes para exames que só podem ser realizados nos hospitais, bem como químio e radioterapia. Segundo os médicos, muitas das pessoas que necessitavam desse tipo de tratamento acabavam abandonando-o por não terem como se deslocar até os centros de saúde.
Inspiração para o governo federal
O Programa de Atenção Domiciliar nasceu no Grupo Hospitalar Conceição em 2004 com apenas duas equipes, mas foi, desde o início, de grande impacto por conseguir liberar leitos de internação e, consequentemente, dar espaço para pacientes de emergência — que estão em situação mais grave e não podem receber atendimento em casa.
A iniciativa do hospital foi uma das bases para a o programa nacional Melhor em Casa, criado em 2011 pelo governo federal. Em 2014, o próprio PAD foi habilitado para fazer parte do serviço do SUS — e, com isso, houve uma expansão do projeto, com mais verba e regramentos.
Em nota, o Ministério da Saúde afirma que "reconhece a importância das ações pioneiras de atenção domiciliar, como o Programa de Atenção Domiciliar (PAD) do Hospital Conceição".
Ainda segundo a pasta, o Melhor em Casa, baseado na iniciativa gaúcha, está presente em 985 municípios do país, com 2.140 equipes habilitadas. No Rio Grande do Sul, conta com 69 equipes em 36 municípios.
Sem fila de espera
As equipes do PAD do Conceição atendem de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, saindo nos turnos da manhã e da tarde. Dentro desse período, ficam com telefones ligados para atender chamados de emergência dos pacientes que fazem parte do programa.
A média mensal de atendidos pela iniciativa é de 282, com 50 profissionais se dividindo para as consultas. Como cada paciente pode receber mais de uma visita por semana, os números crescem: em 2025, foram mais de 14 mil visitas. A média de permanência no programa é de 47 dias até a alta.
— É praticamente um hospital fora do hospital — afirma o médico Sati Jaber Mahmud, 52, gerente de Internação do Hospital Conceição e com 16 anos de experiência no PAD.
Para receber atendimento do PAD, o paciente não precisa ter sido atendido no Conceição. Outros hospitais ou postos de saúde podem encaminhar o pedido para a instituição de saúde e, após avaliação, é definido se é possível ou não seguir com os cuidados domiciliares.
Hoje, segundo o Conceição, não há fila de espera para entrar no programa, ou seja, todos os habilitados são atendidos.
Cuidados paliativos
O PAD também oferece estrutura para quem está em tratamento paliativo e decide passar o restante do seu tempo em casa, ao lado dos familiares. O processo é acompanhado de perto pelos profissionais de saúde, que buscam deixar a transição menos dolorida para ambos: para o paciente, com sedação, e para a família, com atenção e orientação.
— Quando o paciente está internado em uma emergência, ele acaba ficando sozinho porque não pode ter acompanhante. Em casa, tem todo o conforto ao qual está acostumado, carinho da família, em sua cama, olhando a sua TV. Oferecemos essa morte mais digna para a família e para o paciente — aponta a enfermeira Ana Paula Maureli, 43, responsável pela equipe de Enfermagem do PAD.
Mahmud, gerente de Internação do Hospital Conceição, acrescenta que o apoio à família ocorre também no momento da partida, caso ocorra pela manhã ou à tarde:
— Nesse caso, a própria equipe assistente vai até a casa, explica a questão do funeral, fornece a declaração de óbito e dá outras orientações sobre como proceder. Muitas vezes, a família não sabe o que fazer nessa hora.
Redução de custo
De acordo com ele, o custo mensal do programa é de R$ 736 mil, totalmente coberto pelo SUS. Para os cofres públicos, o investimento se reverte em uma redução de 89% na despesa com atendimento: a diária de internação no Conceição custa, em média, R$ 1.350, enquanto no PAD o custo de um paciente é de R$ 150 por dia.
Além do programa do Conceição, há outra equipe de atenção domiciliar, mais jovem, fundada em 2014 e comandada pela Associação Hospitalar Vila Nova. Esses profissionais atendem a outra metade de Porto Alegre e, assim, a cidade toda é contemplada pelo programa.




