
A gaúcha Marina Gabriela Brum Rodrigues, 44 anos, vive uma história de superação. Após uma experiência de quase morte, ela decidiu dar uma guinada em sua vida e enfrentou o desafio de trilhar, sozinha, o percurso até o Campo Base do Everest, alcançando a altura de 5.364 metros.
Em 2023, Marina Gabriela sofreu um infarto agudo do miocárdio que paralisou 90% do seu coração. Como resultado, teve de colocar três stents no órgão, recebeu o diagnóstico de uma cardiopatia e aprendeu uma lição: aproveitar a vida.
— Com tudo que aconteceu comigo, de quase ter morrido, eu tenho uma certeza: todos vamos morrer, só que poucos vão de fato viver. Então, mudei meu estilo de vida. Foram muitas noites sem dormir, muitas lágrimas, mas essa situação me mostrou que viver é muito diferente de o sobreviver — conta.
Gabriela, então, deixou um emprego como bancária com salário que lhe garantia estabilidade.
— Eu infartei por causa do estresse e da sobrecarga do trabalho. Começou a me sufocar. Não resisti — relembra. — O infarto aconteceu pra me dar uma lição, provar que eu era capaz e que realmente eu tinha que mudar.
Ela decidiu desafiar seus próprios limites e trilhar com poucos recursos, sem falar inglês ou o idioma local, parte da montanha mais alta no mundo.
— Era uma grana, e eu estava no seguro desemprego. Falei: "Vou chutar o pau da barraca e vou para o Everest". Fiz as contas e vi que não tinha dinheiro para pagar guia, portador, nada. Estudei bastante a trilha e desbravei sozinha — conta.
A trilha, os desafios e a emoção da conquista
Gabriela percorreu um trajeto de 140 km em uma caminhada que durou 15 dias. Ela decidiu fazer o caminho mais longo como forma de homenagear a equipe conduzida por Edmund Hillary e Tenzing Norgay, que desbravou o Everest pela primeira vez em 1953, cujo último integrante faleceu no ano passado.
O trajeto foi recheado de percalços. — Eu caí um tombo na trilha e lesionei meu joelho, caminhei machucada, com dor, peguei três dias de chuva, tive que ficar parada por causa da dor da mochila, todo dia eu tinha que massagear minhas costas, minhas panturrilhas, meus pés… todo dia foi duro — diz a gaúcha.
Tudo isso em meio a temperaturas que atingiram os 25ºC negativos. Foram dias em uma jornada de introspecção, reflexão e conexão consigo mesma. Tanto que, ao concluir o percurso, ela acredita ter atingido um "estado de nirvana".
— Eu comecei a conversar com a montanha. Parece que eu expandi dentro do meu corpo, que criei uma bolha fora de mim e não escutei mais nada. Não escutava as pessoas caminhando, as pessoas em cima do morro, quem passava por mim. O vento vinha com as nuvens, mas eu não ouvia o barulho — relata.
Foi somente após descer a montanha que ela pôde compreender melhor.
— Após retornar, encontrei umas amigas em Katmandu, capital do Nepal, e perguntei se eu não estava louca. Uma delas faz meditação e me explicou sobre o estado de nirvana e como isso é possível.
Inspiração para outras mulheres
É justamente para inspirar pessoas, principalmente mulheres, que Gabriela quer contar sua história: — Que possam ter uma transformação, se amarem, entenderem que existe algo melhor. Que às vezes o ruim acontece, mas são coisas que vêm pro bem, igual o meu infarto. Ninguém quer passar por isso, não sou grata por infartar. Mas aconteceu pra me dar uma lição.
Recentemente, ela investiu para comprar um terreno de meio hectare em Itati (RS), próximo das cachoeiras da Chapada dos Vagalumes. A gaúcha deve abrir um camping e um abrigo de montanhismo para receber turistas que, assim como ela, partem o mundo em busca de aventuras — seja no pico mais alto do planeta, ou nas montanhas e naturezas do Estado.
