
Pneumologista e pesquisadora sênior da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, 71 anos, tornou-se referência nacional por sua atuação científica e clínica, pela comunicação da ciência e pela defesa da vacinação, especialmente durante a pandemia de covid-19. É membro titular da Academia Nacional de Medicina, perita da Organização Mundial de Saúde (OMS), professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, além de ter recebido a Medalha de Mérito Oswaldo Cruz.
A médica esteve em Porto Alegre nesta segunda-feira (23) para conduzir a Aula Magna da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), com o tema “Saúde em tempos de mudanças climáticas e envelhecimento”.
Na ocasião, em entrevista a Zero Hora, a especialista falou sobre o despreparo do Brasil para o envelhecimento, o novo perfil da tuberculose – assunto ao qual dedica sua carreira há décadas – e o impacto devastador das mudanças climáticas na saúde pública e nas populações mais vulneráveis.
Confira a entrevista:
Quais são os maiores desafios para o envelhecimento saudável da população brasileira? E como o país pode se preparar para essa nova “pirâmide” etária?
Nós já estamos atrasados em relação ao reconhecimento do nosso envelhecimento, porque o Brasil começou a envelhecer há cerca de 40 anos. Nós mudamos nossa expectativa de vida, somos o país que mais rapidamente fez isso, de 54 para 78 anos. Há 20 anos, nós teríamos de estar naquele momento de cada mulher tendo pelo menos dois filhos.
Isso não aconteceu. Então, não há mais possibilidade de fazer uma reposição etária. Envelhecemos rápido, envelhecemos muito, estamos vivendo muito e absolutamente não estamos preparados. Nenhum de nós. Nossas famílias não estão, nossa cultura não está. Nossa cultura não reconhece, olha a pessoa idosa ora com comiseração, ora com certo descuido.
Envelhecemos rápido, envelhecemos muito, estamos vivendo muito e absolutamente não estamos preparados. Nenhum de nós.
MARGARETH DALCOLMO
Em algumas culturas menores, até com certo desprezo. Ser velho pobre no Brasil é a pior tragédia que pode acontecer, porque a exclusão se mostra de maneira obscena. Ele vira um fardo para a família, ainda que nós tenhamos um paradoxo terrível: muitos deles que são depreciados nas famílias são a fonte de renda para uma geração que não trabalha ou não estuda, ou as duas coisas, e se vale daquela modesta pensão daquele idoso. A nossa seguridade social não tem nem resposta nem condições de suportar.
Então, é uma enorme preocupação para nós médicos. Não adianta dizer que hoje, no Brasil, nós precisamos de mais geriatras do que de pediatras... Isso não resolve a situação. Eu não sei lhe responder como vamos conseguir compensar o tempo perdido. Isso se soma a outras questões mais práticas da vida cotidiana. O Brasil é um país absolutamente urbanizado, 94% da população é urbana, e as nossas cidades são hostis às pessoas idosas.
Ser velho pobre no Brasil é a pior tragédia que pode acontecer, porque a exclusão se mostra de maneira obscena. Ele vira um fardo para a família.
MARGARETH DALCOLMO
As calçadas, o número de fraturas e de acidentes que ocorrem... a acessibilidade é algo que ainda é impensável em muitos locais. Nós precisamos correr de uma maneira muito acelerada. Os desafios começam por aí, são de natureza cultural, social, no sentido da seguridade social na saúde. Nós temos de ensinar as nossas crianças a viver com as pessoas mais velhas, a cuidar, mas não no sentido de vê-las como um fardo ou tarefa a mais, ao contrário, aprender com elas, porque elas têm muito a dar.
Por que a tuberculose ainda é uma ameaça tão presente no Brasil e por que a sociedade parece ter esquecido dela?
Acho que a sociedade não esqueceu mais, porque a tuberculose mudou tanto de padrão – e aqui no RS, tem uma tradição fortíssima de pneumologia muito conceituada no Brasil todo, nós aprendemos e devemos muito ao RS, inclusive, no controle da própria tuberculose. A tuberculose hoje passou a ser uma doença não apenas do sexo masculino, do trabalhador, pobre, entre a segunda e a terceira décadas de vida, mas, ao contrário, como a população envelheceu, hoje 12% dos casos são em pessoas acima de 60 anos.
Então, o que está ocorrendo? A tuberculose aumentou barbaramente com a pandemia, o impacto foi enorme. Nós vínhamos em uma redução consistente nos últimos 20 anos. Tínhamos chegado a um patamar razoavelmente aceitável, que permitiu o Brasil ser signatário do acordo de eliminação da tuberculose até 2030 – eu sempre fui cética. Já se mostrou que não será possível, já se postergou para 2035. Mesmo assim, acho muito difícil.
Nós passamos de 80 mil casos por ano para 90 mil. E ela mudou de patamar, inclusive, social. Deixou de ser uma doença relacionada só à pobreza, passou a ser também relacionada à imunidade. Hoje, há no Brasil milhares de pessoas usando medicações imunobiológicas. Elas são responsáveis pela redução de uma substância que protege contra a tuberculose, que é chamada TNF-alfa, e a maioria dos imunobiológicos que é usada para as doenças autoimunes traz alto risco de causar tuberculose.
Então, hoje é comum que tratemos tuberculose de pessoas que pertencem a um segmento social que, quando você diz que o diagnóstico é de tuberculose, a surpresa é tão grande que, se eu dissesse que era câncer, a surpresa seria menor, exatamente porque há desconhecimento e até preconceito. As pessoas não pensam nisso, e nós dizemos: erga suas mãos para o céu, é curável, é benigna, tratável, e nós temos todos os remédios para tratá-la.
O Brasil tem uma condição hoje bastante favorável. Por um lado, tem uma situação desafiadora epidemiológica, sem dúvida, mas tem diagnóstico rápido molecular no SUS (Sistema Único de Saúde), tem todos os medicamentos gratuitos, até os de alto custo.

Quais são os principais impactos esperados das mudanças climáticas, em termos de saúde pública, no Brasil?
O fardo é muito grande. As mudanças climáticas, primeiro, precisam ser reconhecidas como fato. Ainda tem gente que não acredita em mudança climática. O Brasil teve 10 episódios, pelo menos, nos últimos 11 anos, de desastres climáticos, provando mudanças climáticas de maneira absolutamente incontestável.
Quem mais sofreu? Quem mais morreu nessas quase mil mortes? Isso tem um ônus enorme para a sociedade, tem um sofrimento humano imensurável, e ainda sem resposta, porque tem gente que ainda não acredita nisso, é muito triste. E considerando que somos uma população urbana, parece que não aprendemos, nós continuamos a não fazer nada em relação a isso.
As mudanças climáticas, primeiro, precisam ser reconhecidas como fato. Ainda tem gente que não acredita em mudança climática.
MARGARETH DALCOLMO
E o desastre de Juiz de Fora, que na verdade emula o que ocorreu no RS, lá não foi inundação, foi chuva, pode acontecer outra vez. Quem mais sofreu foram pessoas que vivem em áreas absolutamente inapropriadas para a construção civil, mas que não tem fiscalização, e quem mais morreu foram pessoas idosas acima de 65 anos.
Temos isso computado. Somando todas as mortes ocorridas nesses 10 episódios de seca extrema, queimada, inundação, foram pessoas idosas e mulheres acima de 65 anos. O ônus social disso é muito grande, além do econômico etc. E o sistema de saúde também sofreu muito com isso. Então, há medidas de saúde pública com as quais o Brasil precisa se preocupar.
E quais são os impactos diretos quando acontece um evento extremo?
Primeiro, traz doenças emergentes, sobretudo transmitidas pela água, muitas, como doenças intestinais, doenças respiratórias, as doenças transmitidas por vetores, a incidência é enorme, devastadora. Há pressão e um exaurimento do sistema de saúde, que não dá conta de responder, então são exigidas medidas de emergência para as quais, muitas vezes, precisa de muita ajuda externa, porque as unidades da federação não têm condições.
As sequelas são muito difíceis de ser controladas e também exigem muito do sistema. (...) O trauma dos desastres climáticos é muito maior do que as pessoas possam pensar
MARGARETH DALCOLMO
E há sequelas, que vão desde a ordem geográfica, física etc. O próprio sistema de saúde sofreu muito nas tragédias climáticas. Foi extremamente abalado, hospitais foram destruídos, centros de saúde, redes inteiras foram destruídas, estoques de medicamentos. O prejuízo econômico e real sobre a saúde das pessoas é incontestável.
Além disso, as sequelas são muito difíceis de ser controladas e também exigem muito do sistema. Desde as sequelas de natureza física, motora, como as psíquicas. O trauma dos desastres climáticos é muito maior do que as pessoas possam pensar.
Então, doenças como dengue, chikungunya, tudo aquilo que depende de vetor, são tragicamente aumentadas nas inundações. Leptospirose. Isso tem um ônus muito grande em termos de como tratá-las, de como reduzir a mortalidade por elas. A mortalidade é muito alta quando, na verdade, são doenças tratáveis na maior parte das vezes, mas são, sobretudo, evitáveis.


