
Era uma terça-feira comum na rotina da enfermeira responsável pela emergência de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em São Leopoldo, no Vale do Sinos, quando o trabalho se transformou em um cenário de medo. A profissional de 49 anos, que prefere não ser identificada, foi agredida pela filha de um paciente.
O caso ocorreu no dia 10 de março e expõe o cenário de violência enfrentado por trabalhadores da enfermagem no Rio Grande do Sul.
— Ela entrou gritando (na UPA). Eu pedi que se acalmasse para conversarmos. Quando me aproximei, me acusou de ter matado o pai dela e me agrediu. Ela tentou me esganar, estou com as marcas no pescoço.
Segundo o relato, a unidade não conta com segurança interna, e a própria equipe precisou intervir. Durante a confusão, a mulher também agrediu uma técnica de enfermagem. A Guarda Municipal foi acionada, e os casos foram registrados na Polícia Civil.
Agressões aumentam 83%
Os relatos evidenciam a gravidade e a persistência da violência nos serviços de saúde. No ano passado, foram registradas 101 notificações envolvendo auxiliares, técnicos e enfermeiros no Rio Grande do Sul.
O número é 83% maior do que o registrado em 2024, quando houve 55 casos notificados. Os dados são do Observatório da Violência contra Profissionais de Enfermagem do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS).
Entre os tipos de ocorrência estão ofensas, ameaças, agressões verbais e físicas, assédio moral, violência psicológica e exposição em redes sociais. Os registros foram contabilizados a partir de denúncias feitas pelos profissionais. Elas podem ser encaminhadas neste link.
Cerca de 34% dos casos ocorreram em hospitais. Conforme o Coren-RS, os dados confirmam que ambientes de alta complexidade e sob intensa pressão assistencial expõem mais os profissionais. Na sequência, aparecem serviços de urgência e emergência, como UPAs, com 22% dos casos.
Também há registros de agressões contra profissionais que atuam na atenção básica, em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e em outros serviços especializados.
Para o presidente do Coren-RS, o enfermeiro Antônio Tolla, o aumento das ocorrências pode estar relacionado à intensificação da divulgação dos canais de denúncia. No entanto, ele ressalta que a violência no trabalho afeta a segurança dos profissionais, a qualidade da assistência e a saúde física e mental da categoria.
— A agressão contra profissionais da enfermagem é histórica. Sempre enfrentamos isso, mas, há cerca de quatro anos, identificamos um aumento dos casos. Essas situações impactam diretamente o exercício da profissão e também a saúde mental e a vida pessoal — explica Tolla.
Mulheres são maioria entre as vítimas
Do total de registros, 85 vítimas são mulheres, o que representa 84% das ocorrências contabilizadas pelo Observatório no último ano. De acordo com o Coren-RS, a enfermagem enfrenta desafios estruturais que vão além da prática profissional, sendo uma área historicamente marcada por relações desiguais de poder.
Segundo Tolla, dos 162 mil profissionais de enfermagem registrados no RS, cerca de 132 mil são mulheres:
— A enfermagem é formada majoritariamente por mulheres. A presença masculina ainda é reduzida nas equipes, o que acaba expondo ainda mais as profissionais.
A sensação de insegurança também é relatada pela enfermeira que atua em São Leopoldo. Conforme a profissional, a equipe em que trabalha é composta por 13 mulheres e apenas um homem.
— Não somos um sexo frágil, sabemos nos defender. Mas, em situações como essas, parece que o fato de sermos mulheres dá mais liberdade para que pacientes nos agridam — relatou.
Demora no atendimento
As unidades de pronto atendimento e hospitais operam, em geral, acima da capacidade. A superlotação e a longa espera acabam sendo os dos principais fatores por trás de agressões e ameaças contra profissionais de enfermagem.
Um técnico de enfermagem de 42 anos – que também prefere não ser identificado após ter levado um chute de um paciente em uma UPA de Santa Maria, na Região Central – relata que agressões verbais são frequentes diante da demora no atendimento:
— A gente escuta com frequência que não queremos trabalhar, que vão nos pegar na saída, que vão arrombar a porta porque o atendimento está demorado. Mas estamos fazendo o trabalho da melhor maneira possível, seguindo os protocolos, e não temos culpa — afirmou o profissional.
Na avaliação do Coren-RS, parte do problema está na falta de compreensão dos pacientes sobre a classificação de risco. O sistema é utilizado em avaliação inicial para definir a prioridade de atendimento. No Brasil, o modelo mais comum é o Protocolo de Manchester, que utiliza cores para indicar o grau de gravidade de cada paciente:
- Vermelho – emergência, atendimento imediato
- Laranja – muito urgente, até 10 minutos
- Amarelo – urgente, até 60 minutos
- Verde – pouco urgente, até 120 minutos
- Azul – não urgente, até 240 minutos
O impacto na saúde mental
Além das consequências físicas, a violência no ambiente de trabalho tem reflexos diretos na saúde mental dos profissionais de enfermagem. Medo, ansiedade e sensação constante de insegurança fazem parte da rotina de quem atua na linha de frente.
A enfermeira agredida em São Leopoldo relata que, mesmo após o episódio, segue apreensiva e ainda não conseguiu retornar ao trabalho:
— Eu me senti um lixo sendo agredida dentro do meu trabalho. Fico nervosa em pensar no retorno, estou fazendo acompanhamento com psicólogo. Sinto que na próxima vez em que alguém gritar, eu vou precisar me esconder.
Para a psicóloga Emanuelle Fagundes, presidente da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul (SPRGS), o caso de violência impacta o lado profissional, mas também o pessoal.
— O profissional passa a ter insegurança, se isola e pode levar a ter síndrome de burnout. Mas, isso vai impactar também a vida pessoal. Por vezes, a pessoa não consegue falar sobre o caso por achar que tem culpa da violência que sofreu. Se sente impotente e afeta a autoestima. Acaba tendo ansiedade e sentimento de tristeza profundo — explicou.
O que dizem as entidades
Secretaria Estadual da Saúde (SES)
A SES informou que existe um canal de notificação nacional para que profissionais registrem casos de violência sofridos no ambiente de trabalho. O sistema faz parte do Ministério da Saúde.
Além disso, a pasta mantém um trabalho junto à atenção primária para garantir atendimento psicológico aos trabalhadores que passaram por esse tipo de situação. O apoio é oferecido por meio da rede básica de saúde.
Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Rio Grande do Sul (Fehosul):
A Fehosul manifestou preocupação com a violência contra profissionais de saúde, destacando que os atos são "inaceitáveis e devem ser tratados com rigor". Segundo a entidade, s segurança e a integridade física e mental dos trabalhadores são fundamentais para garantir a qualidade do atendimento.
Para a federação, a limitação de recursos frequentemente dificulta a contratação de mais profissionais de saúde, o que pode resultar em "aumento do tempo de espera para atendimento", sobrecarga das equipes e pressão assistencial nas unidades. Esse ambiente pode contribuir para situações de estresse e conflitos.
A entidade explicou que as instituições estão adotando medidas, entre elas protocolos de resposta imediata, assistência integral ao colaborador vítima, fortalecimento de políticas institucionais de prevenção à violência e campanhas que reforçam o respeito aos profissionais de saúde.
Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (Ideas)
O Ideas, responsável pela unidade de São Leopoldo, informou que a agressão às profissionais foi rapidamente contida pela equipe. As funcionárias receberam "suporte institucional", e o caso foi registrado junto à polícia.
A instituição afirmou, em nota, que não houve falha no atendimento ao paciente, que seguiu os protocolos, incluindo a regulação de leitos pela Central de Regulação.
O Ideas destacou que a unidade possui "controle de acesso por meio de portaria" e que, após o episódio, adotou medidas para reforçar a segurança.
Associação Franciscana de Assistência a Saúde (Sefas)
Em nota, a Sefas, responsável pela UPA de Santa Maria, repudiou qualquer forma de violência contra os profissionais e se solidarizou com os servidores que foram agredidos.
A associação afirma que foram tomadas medidas imediatas, incluindo suporte às vítimas e atuação das autoridades para responsabilizar o agressor. Conforme a Sefas, embora isolado, o episódio reflete um "problema crescente no ambiente da saúde pública". Ações estão sendo implementadas para garantir que casos como este não se repitam.



