
O volume abdominal que persiste, mesmo com treinos e alimentação equilibrada, nem sempre está relacionado apenas ao acúmulo de gordura. Em muitos casos, o motivo pode ser a diástase abdominal – condição caracterizada pela separação dos músculos do abdômen. Embora seja mais comum durante a gravidez e no puerpério, o problema também pode surgir em pessoas com rotinas intensas de exercícios ou com maior fragilidade do tecido conjuntivo.
Segundo a ginecologista e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ana Selma Picoloto, a diástase abdominal ocorre quando há o afastamento dos músculos retos do abdômen, que ficam na parte frontal da barriga. Essa separação acontece na linha alba, uma faixa de tecido que fica no centro do abdômen e tem a função de unir os músculos dos dois lados. Quando esse tecido se estica ou perde firmeza, deixa de manter os músculos próximos.
— Além de ser uma alteração estética, que incomoda a mulher porque causa uma saliência na região abdominal, a diástase também pode ter efeitos funcionais. A fraqueza da musculatura abdominal, muitas vezes, tem repercussão na pelve e na dor lombar. Isso pode causar dores crônicas e ter um impacto na qualidade de vida — acrescenta a especialista.
O que pode causar a diástase abdominal?
Diversos fatores podem levar ao surgimento da diástase abdominal. A gestação é a causa mais conhecida, já que o crescimento do útero aumenta a pressão sobre a parede abdominal e pode esticar a linha alba para acomodar o desenvolvimento do bebê. Alterações hormonais típicas desse período também contribuem para tornar as fibras mais flexíveis e suscetíveis ao afastamento.
— Não tem nenhum risco para o bebê, que fica dentro do útero, protegido pela cavidade amniótica que o protege do impacto. A diástase é uma condição relacionada apenas ao corpo da mãe. Se desenvolve na gravidez e, muitas vezes, só é percebida no período pós-parto, quando essa separação pode ser mais evidente — afirma Ana Selma, que também é especialista em uroginecologia e estática pélvica.
A médica destaca que algumas mulheres podem ter maior predisposição ao desenvolvimento da diástase abdominal, especialmente por fatores genéticos ligados à qualidade do colágeno, proteína responsável pela resistência e elasticidade dos tecidos.
No contexto da gestação, certas condições também aumentam o risco, como gravidez de gêmeos ou múltiplos, bebês com peso elevado ao nascer (acima de quatro quilos), obesidade ou índice de massa corporal elevado e idade materna mais avançada.
A fisioterapeuta pélvica Déborah Corrêa afirma que outras situações também podem favorecer o problema, como ganho de peso significativo, acúmulo de gordura abdominal e a prática de exercícios de alta intensidade, com cargas elevadas e sem orientação adequada. Uma predisposição genética para tecidos conjuntivos mais frágeis também pode aumentar o risco. A especialista reforça, ainda, que a condição não é restrita às mulheres.
— O diagnóstico pode ser feito por exames como a ecografia, por exemplo. No consultório, eu avalio a distância desses músculos quando a pessoa está em repouso, em movimento, de pé, deitada e sentada, todos os aspectos. Mas é possível notar pela aparência, porque é diferente do sobrepeso normal. É o que chamamos de aspecto de abdômen de avental, mais caído. Ou quando o estômago é mais alto e parece que tem uma bola, um calombo, embaixo do peito, também dá para notar — explica a fisioterapeuta, que é especializada em saúde da mulher.
A separação dos músculos do abdômen pode aparecer de maneiras diferentes, dependendo da região afetada. Em alguns casos, o afastamento ocorre apenas acima do umbigo; em outros, é mais evidente na parte inferior. Também pode se estender por toda a linha média do abdômen, da região superior à inferior.
Opções de tratamento
De acordo com as especialistas, a diástase abdominal não tratada pode desencadear uma série de problemas que vão além da aparência física. Entre as possíveis consequências estão a perda de força da musculatura abdominal, alterações na postura e até incontinência urinária, já que o enfraquecimento do core também afeta o assoalho pélvico.
Déborah destaca a importância de um diagnóstico adequado para definir a melhor estratégia de tratamento. A primeira abordagem costuma ser a fisioterapia pélvica:
— Normalmente, o tratamento consiste em exercícios que trabalham a musculatura de dentro para fora. Ou seja, trabalhar músculos de estabilização, do períneo, do transverso, respiratório. Quando o paciente consegue estabilizar, vamos para outros exercícios, como o abdominal convencional. A ideia é gerar estresse mecânico nesse tecido conjuntivo para que ele adquira mais colágeno.
Além disso, na fisioterapia, é possível usar a eletroterapia, que é um tratamento que utiliza correntes elétricas para estimular músculos e tecidos. Déborah afirma que, outros aparelhos, como o de radiofrequência, que estimula a produção de colágeno, também pode ajudar a melhorar a condição, quando associado aos exercícios.
— Em casos mais graves, que tenham uma alteração funcional, comprometam qualidade de vida e que o tratamento conservador da fisioterapia pélvica não funcionar, podemos levar a paciente para um procedimento cirúrgico para correção da diástase — conclui a ginecologista Ana Selma.



