
Criadora da pesquisa da polilaminina, substância estudada como possível tratamento para lesões na medula espinhal, a cientista Tatiana Sampaio admitiu falhas no texto da pesquisa e disse que prepara uma nova versão do artigo. As declarações foram feitas em entrevista ao portal g1.
O estudo viralizou nas redes sociais após vídeos de um participante do estudo que voltou a andar, mas tem gerado críticas de outros pesquisadores sobre inconsistências no trabalho.
Segundo Tatiana, o texto vai passar por revisão geral, com correções, ajustes na apresentação de dados e mudanças na descrição dos resultados.
O trabalho foi divulgado em uma versão preliminar em fevereiro de 2024, e é resultado de duas décadas de pesquisas dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O artigo compreende fase experimental em oito pacientes humanos, iniciada em 2018 após testes em cães.
A possível ação da molécula chamou a atenção da farmacêutica Cristália, que investiu R$ 100 milhões na pesquisa para que a polilaminina seja transformada em medicamento.
Repercussão
No início do ano, o estudo e Tatiana começaram a ganhar destaque nas redes sociais quando a cientista passou a dar entrevistas ao lado de Bruno Drummond, participante da pesquisa que teve lesão medular e voltou a andar. A divulgação gerou grande repercussão.
Mas pesquisadores questionaram pontos do trabalho, como inconsistências na apresentação de dados específicos e interpretação de eficácia do tratamento sem que fosse possível isolar o efeito da substância de outras intervenções, como cirurgia e fisioterapia intensiva.
Agora, a cientista diz trabalhar em uma nova versão do artigo na tentativa de publicá-lo em uma revista científica. Porém, negou que as mudanças estejam sendo feitas em resposta às críticas.
O que será alterado
Erro em gráfico de paciente
Uma dos ajustes é referente a um erro de identificação em um dos gráficos do estudo.
Na versão atual, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento. Porém, o texto indica que ele morreu cinco dias após o procedimento.
Segundo Tatiana, os dados pertencem, na verdade, ao participante 2. Ela atribuiu o problema a um erro de digitação.
Mudança na forma como exame é mostrado
Outro questionamento de pesquisadores envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes para indicar possível regeneração após o tratamento.
No artigo, o exame é tratado como um indicativo da evolução de alguns pacientes. Porém, especialistas afirmam que em alguns dos casos descritos como sucesso, a eletromiografia não mostra alterações claras.
Tatiana irá substituir uma das figuras que apresenta esses dados, que, segundo ela, estava “mal programada” e exibia dados brutos.
Separação sobre tipo de lesão
Tatiana também irá incluir no artigo uma análise separando os pacientes por tipo de lesão.
Conforme a cientista, todos os quatro participantes com lesões torácicas no estudo evoluíram do grau A para o grau C na Escala de Avaliação da Lesão Medular (AIS).
Ela afirma que taxa de recuperação espontânea para esse grupo é descrita na literatura científica como próxima de apenas 1% – o que reforçaria a eficácia da polilaminina.
Ajustes na escrita
Além das mudanças técnicas, o texto passará por uma revisão geral.
O que é a polilaminina?
A laminina é uma proteína presente no corpo humano, sobretudo no desenvolvimento embrionário, que orienta o crescimento dos neurônios, formando um “caminho” para que seus prolongamentos (os chamados axônios) alcancem outras células, explica Osmar Moraes, neurocirurgião, presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). O médico, que também atua no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), integra o comitê de segurança da pesquisa dos estudos de fase 1, que serão conduzidos agora.
Já a polilaminina é uma forma “turbinada” da molécula, que é extraída da placenta e manipulada em laboratório. A proposta consiste em unir várias moléculas de laminina para criar artificialmente esse caminho e estimular o axônio a voltar a crescer em uma área lesionada.