
O cantor Zé Felipe, filho de Leonardo, recentemente anunciou nas redes sociais que faz uso de implante subcutâneo de testosterona.
Segundo o artista de 27 anos, tudo começou com exames que apontaram cortisol alto e testosterona baixa. Ele iniciou o tratamento com acompanhamento médico e disse ter notado melhoras.
— Esses dias fiz uns exames aí, cortisol alto, testosterona baixou — afirmou o cantor.
A revelação veio acompanhada de curiosidade e dúvidas sobre o que é esse tal "chip", para quem ele serve e por que médicos e entidades de saúde têm levantado alertas sobre o uso indiscriminado.
O que é o "chip de testosterona"

O nome "chip" é marketing. O que existe, na prática, são implantes subcutâneos bioabsorvíveis, também chamados de pellets, que são pequenos cilindros de testosterona pura inseridos sob a pele por meio de uma incisão, geralmente na região glútea, feita por um profissional qualificado.
Daniel Freitas, urologista, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia e diretor da Andrologia Moinhos, explica que o termo se popularizou como estratégia comercial.
— Esse termo chip ficou muito popularizado. Acredito ser uma estratégia de marketing. O que são, na verdade, os implantes subcutâneos — detalha.
A testosterona é um hormônio lipossolúvel, o que faz do tecido gorduroso uma boa via de absorção.
Uma vez inseridos, os pellets liberam o hormônio de forma gradual e contínua, evitando os picos e quedas que ocorrem com injeções ou géis de uso diário. A duração do tratamento varia entre seis meses e um ano.
A quantidade de pellets e a frequência de inserção são definidas pelo médico com base nas necessidades individuais do paciente.
— É só mais uma via de administrar, assim como existem géis e testosteronas injetáveis. A grande vantagem do implante é a duração e a praticidade — diz Freitas.
Para que serve a testosterona
Antes de entender o tratamento, vale entender o hormônio. A testosterona é um esteroide produzido principalmente nos testículos.
Está envolvida no desempenho sexual, na produção de esperma, na regulação da massa muscular e óssea, na distribuição de gordura corporal, na função cardiovascular e na regulação do humor. Em quantidades menores, também desempenha papel importante no organismo feminino.
Quando os testículos produzem pouca ou nenhuma testosterona, o equilíbrio dessas funções é afetado. Essa condição se chama hipogonadismo e pode ter origem genética, decorrer de lesões, infecções, doenças crônicas ou simplesmente do envelhecimento.
Quando o tratamento é indicado — e quando não é
A reposição hormonal de testosterona tem indicação clínica bem definida: é para homens com hipogonadismo comprovado em pelo menos dois exames colhidos pela manhã, quando os níveis hormonais estão no pico, e com sintomas associados à deficiência.
Esses sintomas se manifestam nas esferas física, sexual e cognitiva. Entre os sinais mais comuns estão:
- queda da libido
- cansaço persistente
- perda de massa muscular
- alterações cognitivas ou de humor
- piora da performance sexual
O problema, segundo o especialista, é que esses sintomas são também os de uma vida moderna mal cuidada.
— Nosso estilo de vida hoje nos proporciona esse tipo de sintoma. Todo mundo se sente cansado de alguma forma. É muito fácil querer achar que isso é sintoma de testosterona baixa. Na maioria das vezes é resultado do nosso estilo de vida — alerta Freitas.
O médico é preciso ao descrever quem não tem indicação para o tratamento. Alguém jovem, saudável e com tempo para se exercitar não tem nenhuma razão, em princípio, para fazer reposição.
— Reposição pressupõe carência. Muitas vezes a pessoa faz uso off-label ("fora da bula"), inadequado de testosterona. A indicação precisa ser muito sólida — afirma Freitas.
Quando o implante é usado nesse perfil, a motivação costuma ser estética ou de performance: mais músculo, mais libido, mais disposição.
Esse uso é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com respaldo das principais sociedades médicas do país.
Banalização nas redes sociais
Perguntado sobre a banalização do tratamento nos perfis de influenciadores, Freitas não titubeia.
— Sem dúvida. A rede social estabeleceu um padrão estético que muitas vezes é inatingível naturalmente. As pessoas buscam atalhos.
O urologista lembra que a testosterona é um marcador sensível de saúde geral. Uma pessoa sedentária e acima do peso pode ter níveis mais baixos do hormônio, mas a solução, nesse caso, começa antes do implante.
— Diante de um paciente com testosterona baixa, é importante buscar a causa. Pode ser relacionada a estilo de vida, alto nível de estresse, ou pode ser consequência de alguma doença ou uso de alguma medicação. A primeira linha de tratamento é mudança de estilo de vida. Contudo, se a qualidade de vida de fato está sendo muito impactada, podemos associar a reposição de testosterona à mudança de estilo de vida — explica.
O médico faz ainda uma distinção importante: repor testosterona é elevar ao nível normal, não ao nível suprafisiológico.
— Usar o hormônio para ir além do que o próprio corpo produziria em condições ideais é outro terreno, e é onde mora boa parte do risco — completa.
Riscos reais
Quando o implante é usado com critério, sob supervisão médica e na dose adequada, os riscos são administráveis. O problema está nos chips manipulados sem controle de dose, os mesmos que inundaram o mercado nos últimos anos sob o rótulo de "chips da beleza".
O risco mais imediato é a infertilidade. O uso de testosterona exógena suprime a produção natural do hormônio pelo organismo, o que reduz e pode zerar a produção de espermatozoides.
Outro efeito sério é o aumento do hematócrito, a concentração de glóbulos vermelhos no sangue, que fica mais espesso e circula com mais dificuldade, elevando o risco de trombose, infarto e acidente vascular cerebral. Em níveis elevados do hormônio, há efeitos adversos diretos na musculatura cardíaca.
— Inclusive aumentando o risco de morte súbita — afirma Freitas.
A lista de efeitos colaterais inclui acne e pele oleosa, retenção de líquidos, piora da apneia do sono e aumento da pressão arterial.
Localmente, o implante pode causar dor, inflamação ou extrusão, quando o corpo rejeita e expele o objeto. Fígado, rins e pele também podem ser afetados.
Ansiedade, agressividade, dependência e depressão estão entre as manifestações psicológicas relatadas.
Durante todo o tratamento, é necessário monitorar próstata, sangue e níveis hormonais regularmente.
Alerta oficial
Em 2023, a Sociedade Brasileira de Urologia, ao lado da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, da Sociedade Brasileira de Diabetes e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, enviou um pedido formal à Anvisa exigindo providências contra o uso indiscriminado dos chips da beleza no Brasil.
"Não existe dose, tampouco acompanhamento médico que garanta segurança para o uso de hormônios para fins estéticos ou de performance. Os efeitos colaterais podem ser imprevisíveis e graves, com os riscos ultrapassando qualquer possível benefício. Casos de infarto agudo do miocárdio, de tromboembolismo e de acidente vascular cerebral vêm se tornando frequentes", cita um trecho do documento.
"Nem todo homem vai precisar"
A queda natural da testosterona começa, em média, a partir dos 40 anos, de forma gradual e diferente da menopausa feminina. Ela não acontece de uma vez e não atinge todos os homens da mesma forma.
— Nem todo homem vai precisar. A queda existe, mas nem sempre atinge níveis que justifiquem intervenção médica. Depende muito de genética, hábitos de vida e presença de doenças crônicas — diz Freitas.
O tratamento, quando bem indicado, custa entre R$ 5 mil e R$ 20 mil, com variação conforme a clínica, o tipo de implante e o acompanhamento incluído.


