
A busca por PrEP – medicação que serve para prevenir o contágio pelo HIV – cresceu acima da média brasileira no Rio Grande do Sul em 2025, na comparação com 2024. Por outro lado, um terço daqueles que iniciaram a profilaxia no Estado abandonou a terapia ao longo do ano.
Os dados são do Painel de Monitoramento da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), do Ministério da Saúde, e foram compilados pela farmacêutica Blanver, responsável pelo medicamento preventivo distribuído no Sistema Único de Saúde (SUS).
No total, 533.488 unidades de PrEP foram distribuídas em 2025 no Brasil, o que representa aumento de 30,3%, em relação a 2024. No RS, a dispensação foi de 27.428 unidades – crescimento de 51,5% no período.
O número de pessoas que retiraram a profilaxia pelo menos uma vez, seja em serviços públicos ou privados, foi 32,9% maior quando são analisados os dados de todas as 1.283 unidades do país e 40,4% maior entre os 69 locais de atendimentos no RS. Em 2025, o percentual desses usuários que chegou ao final do ano tendo descontinuado a busca pelo medicamento foi de 33,6% no Estado e de 35% no Brasil.
Esses dados expressam a falta de ações programáticas que realmente consigam fazer a retenção das pessoas para o uso da PrEP
CARLA ALMEIDA
Presidente do Gapa-RS
No RS, o perfil da população que fez a retirada de unidades da PrEP foi composto majoritariamente por pessoas brancas (80%), gays e homens que fazem sexo com homens (70,9%), com 12 anos ou mais de escolaridade (69%) e com idade entre 30 e 39 anos (39,8%), o que revela uma falha em alcançar o perfil mais contaminado pelo HIV do Estado: mulheres brancas, heterossexuais, com mais de 50 anos.
Prevenção
A PrEP é indicada para pessoas que não vivem com HIV, mas que podem se expor ao vírus de forma recorrente. Entre os públicos prioritários estão homens que fazem sexo com homens, mulheres trans, profissionais do sexo e pessoas com parcerias sorodiferentes.
A PEP é para pessoas que se expuseram a situações de risco. (...) Já o PrEP é voltado para aqueles que constantemente se expõem a situações de risco
EDUARDO SPRINZ
Coordenador do ambulatório de HIV/AIDS do HCPA
Professor do Serviço de Infectologia e coordenador do ambulatório de HIV/AIDS do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Eduardo Sprinz explica que a estratégia difere da Profilaxia Pós-Exposição (PEP), utilizada após uma situação de risco.
— A PEP é para pessoas que se expuseram a situações de risco. Isso pode acontecer com profissionais da saúde, por exemplo, que podem, sem querer, se fincar com uma agulha potencialmente contaminada, ou com profissionais do sexo ou outras pessoas que se envolveram em situações de risco e imediatamente buscam um serviço de saúde evitar a contaminação. Já o PrEP é voltado para aqueles que constantemente se expõem a situações de risco — relata Sprinz.
No caso do PrEP, a pessoa pode tomar o remédio diariamente ou sob demanda em dose maior, quando souber se correrá o risco de se expor ao vírus. Em ambos os casos, as unidades são ingeridas via oral. Uma versão injetável da profilaxia, cuja dose pode ter eficácia por até seis meses, ainda não está disponível no Brasil, mas um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em sete cidades pode ser o início do processo de introdução dessa modalidade da lenacapavir no país.
Abandono
Para especialistas, as 27.428 unidades de PrEP dispensadas no ano passado no Estado estão aquém do público potencialmente exposto ao risco de infecção.
— É muito pouco. Se formos pensar na proporção de pessoas em risco, é quase nada. O que mais achamos que contribui é a dificuldade de acesso às pessoas que mais necessitam dessa profilaxia. As coisas deveriam ser mais fáceis do que são — avalia Sprinz.
Além do acesso, outro desafio é a continuidade do uso. O abandono pode representar risco caso a exposição continue:
— Se essas pessoas se mantiverem em situações de risco e cessarem a profilaxia, inevitavelmente, serão contaminadas. Então as pessoas que abandonam a PrEP podem se colocar em risco para adquirir a infecção — adverte o médico.
Em outros casos, o abandono está relacionado à percepção de mudança no comportamento.
— A pessoa pode ter abandonado por não mais estar se sentindo em risco. E aí, de certa forma, legal e bacana, elas abandonam a prevenção. Mesmo assim, uma pessoa que, de repente, assumiu uma relação estável e acha que não está em risco, pode continuar estando — observa Sprinz.
Expansão
Um ponto positivo sinalizado pela médica Letícia Ikeda, diretora do Hospital Psiquiátrico São Pedro e integrante da política estadual de HIV/Aids, é a expansão da rede no Estado nos últimos anos.
— Nós tivemos um aumento de oferta de quatro municípios para 62 municípios entre 2018 e 2025. Mesmo com essa descontinuidade no tratamento, se tu observares, nós tivemos um aumento de quase 10 mil pessoas entre 2024 e 2025 que acessaram a PrEP. O Rio Grande do Sul levou bastante tempo para entrar e implantar os serviços de PrEP, que são serviços que acontecem dentro do município, mas é uma coisa que vem evoluindo — ressalta Letícia.
Mesmo com essa descontinuidade no tratamento, nós tivemos um aumento de quase 10 mil pessoas entre 2024 e 2025 que acessaram a PrEP
LETÍCIA IKEDA
Diretora do Hospital Psiquiátrico São Pedro
A diretora lembra que o RS foi pioneiro na dispensação da PrEP pelo SUS, por meio do Hospital Sanatório Partenon, que adotou a oferta da profilaxia em sua rotina. A ampliação foi impulsionada por portaria estadual publicada em 2024, que prevê incentivo financeiro para municípios que aderirem aos Centros Regionalizados de Atenção Integral (Craip).
— São R$ 80 mil por mês para cada município que aderir e criar um Craip, o que envolve uma série de ações, entre elas, implantar a PrEP — explica a médica.
Apesar disso, a descontinuidade persiste por questões multifatoriais, segundo Letícia. Entre os motivos estão barreiras estruturais, como dificuldade de acesso e exigências de comparecimento frequente aos serviços, além de fatores sociais.
— Quando a gente fala em barreiras estruturais e sociais na questão da PrEP, vem a questão do preconceito, principalmente o estigma sobre a sexualidade — pontua a especialista, o que é demonstrado, conforme a diretora, pela alta taxa de descontinuidade entre travestis (47%).
Fragilidades
A presidente do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids do Rio Grande do Sul (Gapa-RS), Carla Almeida, avalia que os números refletem fragilidades na política de prevenção.
— Hoje, todas as nossas ações programáticas estão bastante desestruturadas. A estratégia de prevenção não pode se resumir à dispensação do medicamento. Esses dados expressam a falta de ações programáticas que realmente consigam fazer a retenção das pessoas para o uso da PrEP — avalia Carla.
Carla chama atenção para o perfil predominante das pessoas que buscam a profilaxia – de homens brancos com mais de 12 anos de estudo.
— Isso já nos mostra que quem acessa a PrEP não são as pessoas mais vulnerabilizadas, mas são pessoas que têm, especialmente, mais acesso à informação, o que só confirma que a gente não tem uma política de prevenção estruturada e que dialogue com os públicos mais vulnerabilizados — critica a presidente da entidade.
Para Letícia, o enfrentamento exige atuação intersetorial e investimento contínuo em capacitação:
— É conseguir olhar sobre essa perspectiva de que é multifatorial e que a gente tem que ir tentando vencer essas barreiras com diversas estratégias.


