
Ter força sobre-humana, uivar para a lua ou até se transformar em uma criatura de quatro patas. A temática dos lobisomens voltou à tona na última semana, após a Brigada Militar atender uma ocorrência de suposta aparição de lobisomem no Rio Grande do Sul.
Relatos não são raros nas redes sociais e também já viraram pauta em rodas de conversa em outros momentos no Estado.
Quando o assunto chega na ciência, a crença sobre ser um lobo pode estar associada a um sintoma psiquiátrico raro e ainda pouco compreendido: a licantropia clínica.
O que é licantropia clínica?
A licantropia clínica se refere à crença delirante de uma pessoa que diz se sentir um lobo ou poder se transformar em um. Relatos clínicos também já descreveram pacientes que acreditavam ser cães, gatos, pássaros, coelhos, tigres e até roedores. Neste caso, o sintoma também poderia ser descrito como zoantropia.
Conforme o diretor científico adjunto da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), Lucas Primo, a licantropia clínica não é considerada uma doença isolada, mas um sintoma de quadros psicóticos graves. A condição costuma estar associada a transtornos como esquizofrenia, bipolaridade e episódios depressivos com sintomas psicóticos.
— (Karl) Jaspers, que é um dos fundadores da psiquiatria, descreveu essa condição como sendo um estado de transe, mais ou menos semelhante à possessão demoníaca e a outros estados dissociativos. Seriam estados transitórios, ou seja, a pessoa passaria pouco tempo nesse estado e retornaria ao normal depois. Mas isso é muito raro — explica Primo, que também é médico psiquiatra e professor de Psiquiatria da Unisinos.
A raridade é também descrita pelo psicólogo clínico Matheus Rocha Prado, integrante da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul. Como complementa, a intoxicação por substâncias psicotrópicas, como cogumelos, também pode gerar quadros delirantes.
O especialista esclarece, ainda, que pessoas que convivem com algum sintoma de psicose tendem a se isolar e a ter a sensação de estarem sendo perseguidas.
Casos estudados
Uma publicação de 2023 na revista científica Frontiers in Psychiatry relata o caso de um homem britânico de 63 anos diagnosticado com doença de Huntington, que causa movimentos aleatórios e involuntários. Segundo a pesquisa, ele convivia com ansiedade e preocupações obsessivas, progredindo para psicose, e havia desenvolvido licantropia clínica.
O paciente dizia estar se transformando em lobisomem. Conforme os pesquisadores, ele tinha outras ideias apocalípticas e parecia sentir repulsa de si próprio. Os acadêmicos destacam que o homem em questão pode ser tratado com diferentes medicamentos até receber alta e se estabilizar.
Outro estudo, publicado em 1988, mapeou casos de licantropia em pacientes do Hospital McLean, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Os casos foram identificados pelos pesquisadores quando os pacientes relatavam que eram animais ou quando se comportavam de maneira similar, como uivando e rosnando.
Outro artigo publicado na Frontiers in Psychiatry, em 2021, buscou sistematizar o que já foi estudado sobre a temática. Os pesquisadores identificaram 43 casos de licantropia clínica e cinantropia (delírio de transformação em cão) relatados em publicações científicas. Entre as conclusões, foi apontado que a licantropia clínica pode ter influência cultural de mitos e histórias, assim como da exposição a narrativas na internet e em séries.
Influência cultural
Para o médico psiquiatra Lucas Primo, o conteúdo manifestado em casos de licantropia e em outros delírios psicóticos é fortemente influenciado pela cultura local e pelo contexto social do paciente. Em regiões onde o folclore do lobisomem é mais presente, a psicose tende a assumir essa forma.
— Em culturas muito religiosas, são comuns delírios místicos. Após o surgimento de novas tecnologias, há relatos de delírios de pessoas que acreditam que tiveram chips implantados. Então, esse conteúdo varia conforme o contexto cultural — completa.
É possível tratar?
Normalmente, o diagnóstico envolve a observação do discurso e do comportamento do paciente. Entre os sinais, estão relatos verbais da crença de ser ou se transformar em um animal, além de atitudes compatíveis com essa crença, como uivar, rosnar, morder ou engatinhar.
O psicólogo clínico Matheus Rocha Prado ressalta que quem costuma buscar ajuda é a família, o que mostra a importância de uma rede de apoio. A necessidade de uma equipe multidisciplinar no tratamento também é citada por ele:
— O sujeito costuma ser mais resistente a qualquer intervenção. Mas, de fato, um tratamento clínico esperado é que haja tanto o acompanhamento em relação à integridade física e mental quanto o uso de medicações. Se a condição, por exemplo, for psicose, há o uso de antipsicótico, mas, entre outras condições, se for uma depressão aguda, tem outras medicações — acrescenta.
Conforme o psiquiatra Lucas Primo, quando diagnosticados e tratados adequadamente, a maioria dos pacientes apresenta remissão completa dos delírios e consegue retomar a rotina de vida. No entanto, quando a pessoa não é tratada e chega ao ápice de agir como um animal, uma internação psiquiátrica para reversão do quadro se torna necessária e, por vezes, urgente.






