
É praticamente impossível não ter cruzado com a palavra polilaminina ao longo das últimas semanas. Conteúdos sobre a “milagrosa” molécula inundam as redes sociais. Embora de fato represente uma esperança e um possível avanço científico, ainda é cedo para comemorar uma suposta cura para paraplegia ou tetraplegia: as pesquisas realizadas ainda são incipientes e estão em fases iniciais.
Até o momento, os estudos mais promissores foram uma pesquisa realizada com cães e uma experimental com humanos. Contudo, esta última é um pré-print – ou seja, não foi revisada por pares nem publicada em revista científica. Agora, estudos de fase 1 vão começar com aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A substância é promissora, segundo especialistas, que torcem por um medicamento que possa mudar o desfecho da doença – afinal, são entre 250 mil e 500 mil pessoas com lesões medulares a cada ano no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No entanto, é preciso ter cautela e aguardar todas as etapas exigidas pelo rigor científico, para evitar alimentar expectativas irreais.
— É muito fantástico ver uma pesquisa com esse potencial sendo feita no Brasil. Realmente estamos todos torcendo para dar certo. Mas, assim como muitas coisas na medicina, nem sempre resultados positivos em ensaios se confirmam. Estamos acostumados a ter uma certa cautela com qualquer substância nova, porque faz parte da ciência — ressalta Rafael Carra, neurologista que integra o Departamento Científico de Transtornos do Movimento da Academia Brasileira de Neurologia.
Zero Hora conversou com especialistas no tema para responder às principais perguntas sobre a molécula e resultados de estudos até o momento.
O que é a polilaminina?
A laminina é uma proteína presente no corpo humano, sobretudo no desenvolvimento embrionário, que orienta o crescimento dos neurônios, formando um “caminho” para que seus prolongamentos (os chamados axônios) alcancem outras células, explica Osmar Moraes, neurocirurgião, presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). O médico, que também atua no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), integra o comitê de segurança da pesquisa dos estudos de fase 1, que serão conduzidos agora.
Já a polilaminina é uma forma “turbinada” da molécula, que é extraída da placenta e manipulada em laboratório. A proposta consiste em unir várias moléculas de laminina para criar artificialmente esse caminho e estimular o axônio a voltar a crescer em uma área lesionada. A substância foi criada pela bióloga Tatiana de Coelho Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Procurada, ela não respondeu aos pedidos de entrevista.
Como seria o mecanismo de ação da polilaminina?
A polilaminina é aplicada na medula espinhal, parte do sistema nervoso central que conecta o cérebro ao restante do corpo. Protegida pela coluna vertebral, a medula pode ser comparada a um tubo preenchido por milhões de “cabos” microscópicos — os axônios —, responsáveis por levar informações do cérebro aos músculos e trazer de volta as sensações do corpo.
Quando uma pessoa sofre uma lesão medular, diversos neurônios são afetados. A lesão pode ocorrer por trauma, como acidentes ou quedas, mas também por tumores ou doenças degenerativas. A lesão pode ser:
- completa, quando é grave o bastante para impedir qualquer movimento e sensibilidade abaixo do local lesionado
- incompleta, quando é parcialmente afetado, com áreas mais ou menos responsivas
Logo após a lesão, o próprio organismo envia células inflamatórias ao local — provavelmente para reparar o dano, como ocorre quando a pele forma uma casquinha. Porém, essa resposta acaba criando uma barreira que impede que as extremidades do neurônio rompido se reconectem, bloqueando a regeneração. O ambiente favorável ao crescimento não existe mais, e a parte cortada do neurônio tende a degenerar rapidamente em vez de se regenerar.
Tentativas de suprimir a inflamação com quimioterápicos ou corticoides não tiveram sucesso, explica Moraes. Por outro lado, em geral, cerca de 15% a 20% dos pacientes apresentam melhoras significativas espontâneas a longo prazo após uma lesão medular.
Quando ocorre o trauma, alguns pacientes podem enfrentar o choque medular, com perda do movimento. Esse processo pode durar de semanas a meses. Uma vez passado, pode haver retomada de algumas das funções – um processo natural, sem a influência de medicamentos.
— Em até um ano ou mais, você tem algum grau de regeneração, se houver — explica o neurocirurgião, ressaltando que o processo é influenciado por estímulos como fisioterapia.
A polilaminina, por sua vez, atuaria estimulando o crescimento nervoso e a recuperação dos neurônios, sugerem as pesquisas. Ela seria como um suporte estrutural, que permitiria a reconexão nervosa e ofereceria proteção durante esse processo.
— O dano ocorre não somente pelo trauma em si, mas por todo um processo inflamatório que tem a seguir, em volta daquela região, que vai matando mais células — afirma Eduardo Rocha, médico fisiatra da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e ex-presidente da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação. — (A polilaminina) Tem o potencial de ajudar a diminuir aquele processo inflamatório associado.
Não há, no entanto, exames de ressonância magnética prévios que comprovem o crescimento efetivo de novos tecidos nervosos nos pacientes que apresentaram melhora, conforme Moraes. Carra destaca que a melhora poderia acontecer por outros motivos.
Somente pessoas com lesões completas agudas e recentes estarão elegíveis para a próxima etapa dos estudos – a aplicação em pessoas com lesões incompletas, teoricamente, poderia acarretar riscos ou impedir a recuperação já esperada. Até hoje, pacientes com lesões completas dificilmente conseguiram recuperar movimentos, o que impõe um desafio.
O protocolo da pesquisa definiu a aplicação da substância em até 72 horas após a lesão – critério questionado pelos especialistas como uma janela arbitrária, e não técnica.
Os pacientes recuperaram os movimentos?
Segundo o estudo piloto realizado em humanos, todos os pacientes que receberam a polilaminina tinham lesão completa aguda e recuperaram, em algum grau, os movimentos abaixo da lesão. Um deles, que era tetraplégico, voltou a andar. No entanto, não é possível associar a recuperação dos pacientes diretamente à polilaminina.
A melhora pode ter ocorrido após a saída do estado de choque medular, de reabilitação intensiva ou de uma evolução natural do paciente:
— Não tem nenhum caso em que você pode inferir que foi a medicação que fez isso. Nós não sabemos nem a dose — destaca o neurocirurgião Moraes.
A substância já está em produção pela indústria farmacêutica Cristália. O medicamento é fornecido somente por via judicial e nos casos do chamado uso compassivo, quando o paciente já esgotou as opções terapêuticas. o remédio não pode ser comercializado. Entre os que receberam a substância judicialmente, também há relatos de recuperação de movimentos. Três morreram devido a complicações dos próprios traumas, segundo a Cristália.
— Nenhum dado, até o momento, justifica você injetar a droga, fazer alguma coisa em alguém, porque ainda não tem resultado — reforça Moraes.
Para o neurologista, um ponto de destaque é o estudo em cães com lesão crônica, no qual a melhora observada é considerada impressionante por ocorrer em um estágio em que a recuperação natural da medula normalmente já se encerrou. No entanto, a substância foi utilizada em conjunto com outras, o que dificulta atribuir o resultado à polilaminina.

Por que é preciso ter cautela?
Ainda não é possível falar em cura milagrosa. O estudo experimental em humanos não foi publicado. A pesquisa é vista por especialistas com ceticismo por não incluir um grupo controle, elemento essencial para demonstrar que os resultados se devem de fato ao medicamento e não a outros fatores ou vieses. Esta é a forma mais segura de avaliar se um tratamento funciona.
— É natural, em quase qualquer doença pesquisada, que os pacientes que participam da pesquisa, mesmo do braço placebo (controle), costumam ir um pouco melhor do que as pessoas normalmente vão no dia a dia. Por isso, na pesquisa clínica, temos todas as fases de estudo para considerar que algo seja realmente eficaz — explica Carra.
O número reduzido de voluntários também pode impactar na pesquisa. Além disso, é importante lembrar que estudos em animais dificilmente são aplicáveis a seres humanos, devido a diferenças anatômicas, fisiológicas e da própria natureza do trauma e da recuperação, dizem os especialistas.
Outro alerta é que a fase inicial de segurança ainda não começou, o que torna a aplicação da substância, neste momento, um risco potencial de agravar a lesão. Os estudos clínicos em humanos são divididos em fases para avaliar progressivamente a segurança e a eficácia de um medicamento:
- Fase 1: testa apenas a segurança e define doses seguras em um pequeno grupo
- Fase 2: verifica se o tratamento funciona e continua avaliando riscos
- Fase 3: envolve muitos participantes para confirmar eficácia e comparar com terapias existentes ou placebo
Entidades científicas, como a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), também se manifestaram pedindo cautela para evitar “expectativas desproporcionais” com o medicamento.
— A polilaminina é uma grande ideia, é teórica, e, na prática, faz imaginar que ela tenha um resultado na regeneração. Em respeito a quem tem a lesão e à sociedade como um todo, é fundamental ajudar a ser comprovada a eficácia. Porém, neste momento, nós não conseguimos comprovar a segurança do uso, que é o primeiro momento. E, a partir daí, todos os esforços devem se voltar a provar a eficácia da droga — enfatiza Moraes.
Quais são as próximas etapas?
A Anvisa autorizou a realização de um estudo de fase 1, em cinco pacientes, a ser conduzido a partir de março pela Faculdade de Medicina da USP e pela Santa Casa de São Paulo – de modo a ser multicêntrico e reduzir vieses na pesquisa. Depois disso, poderão ser conduzidos estudos de fase 2 e fase 3 – somente com esses resultados, poderá se afirmar se a molécula funciona.
O processo é longo e pode levar anos – estima-se que a consolidação dos resultados possa levar de três a seis anos.
Como são os tratamentos atuais?
Até o momento, não há medicamento capaz de regenerar a lesão medular. A cirurgia é importante para estabilizar a coluna e evitar a piora do dano inflamatório, mas a recuperação depende principalmente de reabilitação. O cuidado envolve uma equipe multiprofissional, com fisioterapia, terapia ocupacional e apoio psicológico, além do uso de órteses, cadeiras de rodas, tecnologias como estimulação elétrica e, em alguns casos, robótica e exoesqueletos — recursos modernos, porém caros.
De modo geral, as intervenções buscam melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida, já que a recuperação completa é rara, afirma o fisiatra Eduardo Rocha. Para ele, mesmo que a polilaminina se mostre promissora, ela não deve ser vista como uma cura: a redução das sequelas já seria uma cura, ainda que nem todos voltem a andar.


