
O aumento de notificações de suspeita de pancreatite em pacientes que utilizam as canetas emagrecedoras levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir um alerta sobre o risco relacionado ao uso indevido dos medicamentos. A situação ampliou o debate sobre os efeitos dos remédios, incluindo eventos adversos graves.
Embora a suspensão da aplicação não seja necessária, já que é considerada segura, o episódio reforça a necessidade de distinguir reações esperadas ao tratamento com as canetas de sintomas que possam indicar um quadro grave.
No caso da pancreatite, a possibilidade de desenvolver a condição já está descrita na bula da maioria desses medicamentos como evento adverso raro. O alerta é válido para todos os fármacos contendo dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida.
Até o momento, há suspeita de 225 casos de pancreatite e seis mortes relacionadas ao uso de medicação da classe agonista do GLP-1, que estão em averiguação. O aviso não significa, porém, que houve comprovação da relação causal, mas que foram identificados relatos que justificam o monitoramento e o reforço de orientações de segurança.
O que é pancreatite aguda?
A pancreatite aguda é uma inflamação repentina do pâncreas, órgão que ajuda na digestão e no controle do açúcar no sangue. Ela acontece quando as enzimas digestivas são ativadas antes da hora e passam a irritar o próprio órgão, explica Gustavo Drügg Hahn, médico gastroenterologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Na maioria dos casos, com tratamento adequado, o quadro é reversível.
Como diferenciar o quadro?
A inflamação pode ter sinais como náusea e vômitos, efeitos comuns e esperados com o uso dos medicamentos. Um sintoma crucial, entretanto, diferencia a pancreatite aguda: dor abdominal intensa e contínua, geralmente na parte superior do abdômen, que pode ser descrita como uma “faixa” e irradiar para as costas. Embora os medicamentos possam causar algum desconforto, normalmente não causam dor.
Em casos mais graves, pode levar ao comprometimento inflamatório de outros órgãos e à necrose, com a perda da função do pâncreas. Nesses casos, o paciente precisa ser submetido à cirurgia ou a outro procedimento para retirar tecidos necrosados.
Não há medicamento específico para tratar a inflamação no pâncreas. O tratamento consiste em identificar a causa da pancreatite e tratá-la. O tratamento consiste em três pilares: jejum, hidratação intravenosa e controle da dor com remédios.
A presença dos sintomas não significa necessariamente um diagnóstico de pancreatite – trata-se de uma possibilidade, que deve ser investigada. Por isso, diante de dor abdominal intensa persistente, é necessário suspender o uso da caneta e buscar atendimento médico.
Fatores de risco para a pancreatite
Diversos fatores podem contribuir para o surgimento da pancreatite aguda. O risco de pancreatite aguda é maior, sobretudo, para pacientes com:
- obesidade
- diabetes tipo 2
- cálculo de vesícula biliar
- triglicerídeos elevados
- consumo de álcool
— Muitos desses fatores de risco, por conseguinte, são indicações para o uso da caneta — aponta Hahn.
Os medicamentos são formalmente indicados para tratamento do diabetes tipo 2, da obesidade e do sobrepeso com complicações metabólicas (como pressão alta, problemas de colesterol, apneia do sono, gordura no fígado).
Nenhum estudo, porém, mostrou efeito causal direto, ou seja, que a caneta causa a pancreatite de forma direta, reforça o gastroenterologista. O que se sabe é que, entre os fatores de risco, o paciente pode vir a desenvolver a condição por meio do uso das canetas.
Além disso, os medicamentos podem levar a uma rápida perda de peso, o que, por sua vez, pode gerar a formação de cálculos de pedras na vesícula – um dos fatores de risco, como mencionado acima.
Esses cálculos também podem gerar náuseas, dor abdominal e vômitos, e a diferença entre os quadros pode ser difícil. Portanto, os médicos reforçam que, caso o paciente apresente esses sintomas, deve procurar atendimento.
Para o tratamento com as canetas, a orientação é realizar o tratamento ou manejo dos outros fatores de risco associados à pancreatite que o paciente possa ter, pontua Carolina Leães Rech, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional RS (SBEM-RS).
Não há um exame de sangue que possa prever o risco de desenvolver pancreatite. Pacientes com histórico da condição ou de outra doença pancreática devem evitar o uso e conversar com seu médico a respeito.
Além disso, pessoas que tomam o medicamento sem indicação médica, fora da bula ou que fazem uso de produtos irregulares também enfrentam um risco grande de efeitos adversos – inclusive para outras condições além da pancreatite. O uso indiscriminado e irregular (com uma frequência maior do que a preconizada, por exemplo), pode potencializar alguns e sintomas esperados com o uso da medicação.
No alerta, a Anvisa aponta que o uso sem o acompanhamento profissional "dificulta a identificação rápida da pancreatite e outros eventos adversos graves. O risco pode ser ainda maior quando estes medicamentos são utilizados fora das indicações autorizadas".
— Todas as pessoas que estiverem em uso precisam estar fazendo isso com acompanhamento médico continuado, que é o que vai garantir que elas tenham uma orientação, um ajuste de dose, que elas possam fazer uma avaliação clínica detalhada para os fatores de risco que elas já têm — ressalta Carolina, que também é chefe do Serviço de Endocrinologia da Santa Casa de Porto Alegre.
Acompanhamento profissional
Os casos ressaltam a importância de estar alerta e monitorar os sinais do corpo durante o uso das canetas. Pacientes que fazem uso com indicação e assistência de um médico costumam enfrentar menos efeitos, como emagrecimento muito rápido, já que o tratamento é escalonado, com aumento gradual de doses.
— Quando o acompanhamento médico é regular, conseguimos minimizar muito qualquer tipo de efeito colateral ou de problema que possa ter com a medicação. Então, é não usar sem acompanhamento médico. Porque se está tomando sem acompanhamento médico, daí vai ser difícil dar uma indicação formal para que ela possa evitar complicações, porque já está fazendo um uso indevido — enfatiza Carolina.
Benéficas e seguras
As canetas são seguras e eficazes quando utilizadas conforme a bula, salientam os especialistas, que destacam seus benéficos. Sendo assim, não é necessário suspender o uso.
— Os medicamentos são seguros quando adequadamente indicados. Os benefícios superam os riscos — ratifica Gustavo Hahn.
Desde junho de 2025, os remédios são vendidos mediante retenção da receita e não devem ser manipulados. Além disso, não são indicados para uso estético ou para perder “alguns quilinhos”, salienta Carolina.

