
Na última semana, a influenciadora digital Evelin Camargo chamou a atenção nas redes sociais ao compartilhar o diagnóstico de linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário (BIA-ALCL). A doença foi descoberta após a produtora de conteúdo perceber um aumento súbito das mamas, que quase triplicaram de tamanho, o que a levou a buscar atendimento médico.
Há seis anos, Evelin havia realizado uma cirurgia para redução das mamas, quando também colocou próteses de silicone, como relata em um vídeo no qual busca conscientizar sobre a condição (assista abaixo).
Esse tipo de câncer, entretanto, é raro e não deve ser motivo de pânico, asseguram especialistas.
Estudos estimam que, globalmente, 35 milhões de mulheres tenham implantes mamários, já que não há registros oficiais. No Brasil, em 2024, foram realizados cerca de 232 mil procedimentos de aumento de mama, segundo um relatório da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (Isaps).
De acordo com a literatura científica, a incidência da doença é de um caso a cada 30 mil pacientes com implante. No mundo, até 2024, 1.687 casos e 59 mortes haviam sido registrados em 51 países, conforme a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos.
No Brasil, a estimativa de especialistas, em 2023, era de 350 casos, com 50 documentados, mas, sem uma plataforma oficial para registro, a notificação é deficitária.
O que é o BIA-ALCL?
Há vários tipos de linfoma, mas o que foi mencionado por Evelin é um tumor (câncer) das células T, que são células de defesa do corpo, parte do sistema linfático. Quando há a presença de um corpo estranho, as células linfáticas geram inflamação e formam uma cápsula para isolá-lo. É nessa cápsula que acontece o BIA-ALCL, associado a próteses texturizadas.
O corpo sempre entende a prótese como um corpo estranho – não ao ponto de rejeitá-la, mas sempre gerando inflamação, em maior ou menor intensidade. Esse processo inflamatório crônico pode sair de controle, provocando a duplicação celular ao tentar responder com uma defesa desproporcional, explica Stephen Stefani, oncologista do grupo OncoClínicas RS. Quanto mais duplicações, ao longo dos anos, mais aumentam as chances de um processo inadequado ou de o sistema de controle de qualidade falhar.
Quanto mais texturizada a prótese, maior a reação inflamatória – os médicos acreditam que essa reação exacerbada pode desencadear uma superprodução de células T, que podem, em algum momento, se tornar malignas.
Atualmente, a maioria das próteses utilizadas no Brasil é lisa ou quase lisa. Entre 2019 e 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu o uso de próteses texturizadas de determinados tipos.
Apesar do local, não se trata de um câncer de mama: o tumor ocorre nas células linfáticas, ao redor da prótese, nos tecidos adjacentes.
— A maioria dos casos é muito inicial. Ou seja, restrito à prótese. Não tem metástase à distância — pontua Andréa Damin, chefe do Serviço de Mastologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e presidente da regional RS da Sociedade Brasileira de Mastologia.
Os dados indicam que o procedimento é suficientemente seguro, como reforça Stefani. O Brasil é um dos países do mundo que mais utiliza próteses de silicone, portanto, é evidente que o nível de atenção, epidemiologicamente, é maior.
— Não há indicação de sair correndo para tirar as próteses. Não tem sentido nenhum. Mas o que elas precisam fazer? Manter o acompanhamento de rotina, conforme a orientação. É importante lembrar: a colocação da prótese não é um ato que se faz uma vez na vida e acaba. Envolve colocar a prótese e manter o acompanhamento com o seu médico, para ter certeza que não deve se trocar ou que não vão acontecer intercorrências, mesmo que muito raras — complementa Stefani.
Atenção ao inchaço e à dor
O seroma tardio — aumento de líquido que costuma circundar as próteses surge como uma reação inflamatória. Os principais sintomas são o inchaço e aumento súbito da mama, com desconforto e dor, e ocorrem, geralmente, uma década após o implante. Por vezes, pode ser confundido com deslocamento, extravasamento ou rompimento da prótese, ou com alguma infecção relacionada.
O quadro de Evelin Camargo, que é elogiada por Stefani pelas informações coerentes prestadas à população, é característico da doença, conforme o médico.
Andréa lembra que nem todos os seromas tardios são linfomas. Para obter esse diagnóstico, é necessário passar por uma avaliação médica. O processo inclui realização de ecografia ou ressonância, para observar a presença de líquido. Sempre que há seroma tardio, é feita uma punção e análise imunohistoquímica de marcadores presentes.
Por esse motivo, em caso de suspeita, a paciente deve buscar atendimento médico, com o cirurgião plástico que realizou o procedimento ou com mastologista.
Veja o relato da influenciadora Evelin Camargo sobre BIA-ALCL
Cuidados e tratamento
O tratamento, na maioria dos casos, consiste no explante, ou seja, na retirada da prótese e da cápsula. Não há necessidade de complementar com radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia, conforme o oncologista.
Após o procedimento, muitas precisam realizar redução da mama ou lipoenxertia (colocar gordura na mama), pois a mama tende a perder volume, principalmente quando há uso da prótese há mais de uma década, devido ao atrofiamento da mama.
— Geralmente tem de fazer uma correção estética, não dá para só tirar o implante e a cápsula — afirma a mastologista do HCPA.
A recomendação é de que pacientes diagnosticadas, mesmo em estágio inicial, realizem, durante cinco anos, uma avaliação de corpo inteiro, com PET-CT, ao menos uma vez por ano, para monitoramento. Pacientes com prótese devem buscar se informar sobre o tipo utilizado – geralmente, a informação consta em um documento fornecido pelo cirurgião.
No caso de prótese texturizada, a Sociedade Americana de Cirurgia Plástica recomenda a realização de análises de imagens a cada dois ou três anos, a iniciar cinco anos após a colocação da prótese. Embora o linfoma seja raro, a realização do exame pode ajudar a descobrir e tratar precocemente.





