
Já imaginou se fosse possível misturar os sentidos? Palavras com sabor, sons com cores, sentimentos com cheiros. É isso que acontece com pessoas que têm sinestesia, condição neurológica retratada na série All Her Fault. No suspense do Amazon Prime Video lançado em janeiro, que já se tornou fenômeno de audiência, Milo, de 5 anos, apresenta esse comportamento.
Ao perceber que os dois têm essa conexão, a babá Carrie fica obcecada pelo menino, uma vez que o cérebro dela também “funciona dessa forma”, como diz a personagem. A condição é associada ao espectro neurodivergente, embora seja um fenômeno raro – estudos indicam prevalência da sinestesia em apenas 4% da população.
— Em um cérebro típico, um estímulo aciona apenas um sentido. Quando há sinestesia, esse mesmo estímulo acaba acionando mais de um sentido. É como se houvesse uma comunicação misturada dos sentidos, como se o cérebro tivesse essa condição específica de associar sentidos diferentes para um mesmo estímulo — explica a psicoterapeuta Júlia Protas, à frente do núcleo técnico da ÍmPares, plataforma que capacita profissionais para atuação com crianças atípicas.
Segundo a psicóloga, o fenômeno faz com que o indivíduo experimente um sentido através de outro. Por exemplo – a pessoa sente o “cheiro” das emoções, sente um determinado sabor associado a uma temperatura, ou a uma palavra. E isso ocorre de forma involuntária, diferentemente das lembranças, que podem nos remeter a um determinado cheiro ou cor:
— Nós percebemos o mundo através dos órgãos do sentido. Temos o olfato, a visão, o paladar, o tato e a audição. A gente vai captando estímulos e o nosso cérebro organiza esse estímulo em uma experiência sensorial. Na sinestesia, um único estímulo gera mais de uma experiência sensorial, é como se fosse uma fusão de sentidos.
Sinestesia é distúrbio?
Conforme a especialista, a sinestesia não é considerada um distúrbio, mas sim uma característica neurológica, que pode ou não estar associada a outras neurodivergências.
— Muitas vezes, ela vai estar associada a diagnósticos, como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade ou Transtorno do Espectro Autista. Mas a sinestesia, por si só, não é um diagnóstico, é apenas uma condição diferenciada do cérebro — explica.
Uma vez que a sinestesia é difícil de identificar e raramente causa prejuízos cognitivos, é provável que mais pessoas tenham e não saibam. Mesmo não sendo um transtorno e não existindo "tratamento" para isso, a psicóloga orienta que é importante analisar o comportamento, caso seja observado, por meio de avaliação profissional:
— Quanto mais pudermos identificar o funcionamento desse fenômeno, melhor poderemos ajudar a criança a se desenvolver sem que isso atrapalhe. Ou, se já atrapalha na aprendizagem, vamos criar estratégias para mitigar isso. Nosso papel, enquanto adultos, é proporcionar o melhor desenvolvimento possível para as crianças dentro de funcionamentos típicos, e dentro de funcionamentos atípicos também.
Psicólogos, psiquiatras e neurologistas são capazes de realizar essa avaliação neuropsicológica, feita por meio de testes e entrevistas. Pesquisas sugerem que pessoas com sinestesia podem ter maior conexão entre algumas partes do cérebro, característica que pode ser transmitida por fatores genéticos.
A condição pode ser desenvolvida também na vida adulta, associada a quadros de acidente vascular cerebral (AVC) e ao uso de determinadas substâncias psicoativas.
Criatividade aflorada
A psicóloga destaca que a sinestesia é comumente associada à arte, por ter potencial de estimular a criatividade dos sujeitos com essa condição. Nesse sentido, o fenômeno pode ser entendido também como um benefício, capaz de aflorar a imaginação dos sinestésicos e agregar no que diz respeito ao aspecto lúdico.



