
Estudo de pesquisadores brasileiros aponta que a cannabis medicinal pode auxiliar no tratamento do Alzheimer, levando à estabilização e até à reversão de danos cognitivos, com recuperação de parte da memória.
Publicada na revista científica Journal of Alzheimer’s Disease, em outubro de 2025, a pesquisa foi conduzida na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), no Paraná, com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Johns Hopkins School of Medicine e da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança.
No ensaio clínico, 28 pacientes entre 60 e 80 anos receberam diariamente, por via oral, extrato de canabinoides THC-CBD (tetrahidrocanabinol e canabidiol) ou placebo por seis meses. O grupo que recebeu os canabinoides ganhou 0,67 ponto no Mini-Exame do Estado Mental, considerado padrão ouro, e o grupo placebo perdeu 1,08 ponto – algo já esperado em relação à doença.
— (A pesquisa) Mostra que a cannabis reverteu a perda de memória em pacientes com Alzheimer, em comparação com o placebo. Esse é um resultado de muito impacto. Abre uma janela de terapia, de mais pesquisa — avalia Francisney do Nascimento, professor de Farmacologia Clínica na Unila e coordenador da pesquisa.
Trata-se de um estudo ainda de fase 2, reforça Charles Ferreira, biólogo e professor do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS, que participou da pesquisa:
— Observamos um declínio do grupo não tratado com full spectrum (de cannabis, combinando 0,350 mg de THC e 0,245 mg de CBD) e, no outro, uma melhora cognitiva mantida; na verdade, não teve declínio — ressalta.
Conforme o estudo, inicialmente, foi demonstrado que "baixas doses de THC-CBD podem ser uma opção terapêutica eficaz e segura". Agora, são necessários ensaios mais longos e com mais pessoas para confirmar a descoberta e poder estabelecer os canabinoides como opção de tratamento para a doença.
O potencial dos canabinoides
Intimamente relacionada ao envelhecimento, a doença de Alzheimer causa perda de neurônios, com consequente perda de memória e de atividade cognitiva. Atualmente, há poucas terapias disponíveis.
Os medicamentos no mercado buscam aumentar a disponibilidade de neurotransmissores para melhorar a memória. O funcionamento, entretanto, é limitado ou pouco eficaz, uma vez que os medicamentos não retardam a progressão da doença, apenas tratam os sintomas.
Os pesquisadores veem grande potencial dos canabinoides, devido a três mecanismos:
- efeito antioxidativo
- efeito anti-inflamatório
- efeito neuroprotetor, principalmente do THC, que recupera neurônios
A reversão do potencial déficit cognitivo pode estar relacionadas a esses processos:
— A diminuição dessa neuroinflamação, bem como o potencial para ser um anti-inflamatório de maneira geral e os antioxidantes do full-spectrum, tanto do THC quanto do CBD, mostra que tem um potencial neuroprotetor muito grande — aponta Ferreira.
Resultados anteriores
Estudos anteriores com animais, que serviram de base para a pesquisa, já mostravam que os canabinoides podem melhorar ou recuperar a memória de ratos induzidos de Alzheimer. A possibilidade de reverter ou eliminar a proteína beta-amiloide, substância cujo acúmulo é o principal marcador da doença de Alzheimer, também já foi indicada em estudos desse tipo.
Uma dessas análises indicou que o uso de THC em ratos mais velhos levou à neurogênese (formação de novos neurônios) no hipocampo, região onde são formadas as memórias. A cannabis conseguiu ativar o receptor e produzir proteínas que recuperam o neurônio, resultando em efeito neurogênico e neuroprotetor. Já os ratos jovens tiveram uma redução da memória, porque não enfrentam déficit de neurônios, levando ao desequilíbrio do sistema, com redução do foco.
Com foco em humanos, em 2022, os pesquisadores brasileiros haviam publicado estudo com um único paciente, que mostrou, por meio do Mini-Exame do Estado Mental, que a cannabis melhorou a memória. O paciente permaneceu estável por dois anos. O resultado, considerado espetacular, mostrava que a cannabis poderia recuperar a memória e inspirou os pesquisadores a seguir.
O impacto de microdoses
Os pesquisadores trabalharam com microdoses de THC-CBD. Os estudos com animais já haviam apontado que doses baixas têm melhor efeito – a eficácia da cannabis ocorre em curva invertida: ao aumentar a dose, o efeito diminui.
— Trabalhamos com doses menos de 50 vezes mais baixas do que a dose que começa a ter algum efeito psicoativo. Então, é uma dose muito segura. Nenhum paciente nosso jamais teve algum efeito psicoativo. E é um óleo com gotinhas. São essas doses muito baixas que parecem ter efeito melhor — explicou Nascimento.
A hipótese dos cientistas é de que as microdoses funcionem como reposição para o sistema endocanabinoide, responsável por funções fisiológicas de humor, dor, inflamação, metabolismo, entre outras. À medida em que envelhecemos, passamos a produzir menos canabinoides, o que nos torna mais suscetíveis a doenças do envelhecimento, inflamatórias e degenerativas.
Os pesquisadores explicam que o corpo produz doses muito baixas de canabinoides. Assim, ao ingerir doses altas, há um desequilíbrio; já a reposição de doses baixas poderia restabelecer o equilíbrio do sistema.
Limitações do estudo
Como limitações da pesquisa, Ferreira aponta o caráter local do estudo. Além disso, esta foi a fase 2, cujo objetivo é testar a segurança e eficácia da dose e monitorar os efeitos adversos. Os pesquisadores avançaram para um recorte maior, com 70 pacientes, para analisar as evidências obtidas. No entanto, ainda são necessários estudos com maior número populacional.
Também não há consenso sobre o uso da substância. Estudo publicado em novembro no Journal of the American Medical Association (Jama) afirma que as evidências de ensaios clínicos randomizados são insuficientes e não apoiam o uso de cannabis ou canabinoides para a maioria das condições para as quais são promovidos, como dor aguda e insônia.
Nascimento concorda que faltam estudos de cannabis com pacientes e, grande parte deles, é malfeita. Ele, no entanto, critica a abordagem do artigo publicado no Jama por avaliar derivados de cannabis de forma geral, sem realizar a diferenciação das moléculas e doses, que, na visão do professor, deve fazer parte da análise.
A dificuldade de patentear a planta e seus compostos reduz o interesse da indústria farmacêutica, especialmente nos Estados Unidos, avalia Nascimento. Já o Brasil registra mudanças recentes na legislação, com a aprovação do cultivo de cannabis para fins medicinais pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com isso, a expectativa é de que o Brasil possa se tornar um dos países que mais avança em termos de pesquisa e evidências.




