
Quarto tipo mais comum de câncer em mulheres, o câncer do colo do útero deve sofrer uma redução de incidência significativa e até ser erradicado. O motivo é a relação imbricada desse tipo de tumor com o HPV, cuja prevenção ganhou fortes aliados nos últimos anos: a vacinação de pessoas de 9 a 14 anos e a substituição do Papanicolau por um teste de DNA do vírus.
A prevenção e a conscientização sobre o câncer do colo do útero são o tema do Janeiro Verde, celebrado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 2022, 660 mil mulheres foram diagnosticadas no mundo com a doença e 350 mil morreram.
O maior desafio com relação ao câncer do colo do útero é que quando o tumor apresenta manifestações clínicas, como dor pélvica, sensação de dificuldade para urinar, sangramento, secreção ou corrimento vaginal abundante, a paciente já apresenta um quadro mais avançado da doença.
“Foi um capítulo, não a minha história inteira”
Diagnosticada com câncer de colo do útero aos 25 anos, Letícia Guimarães resistiu a falar publicamente sobre a sua história com a doença. Hoje, aos 46, resolveu contar ao perceber que sua experiência poderia ajudar outras mulheres a atravessar o diagnóstico com menos medo. Sua mensagem é simples: existe vida após o câncer.
Na época do diagnóstico, Letícia estava sem plano de saúde e passou dois anos sem ir ao ginecologista. Quando sangramentos sem razão aparente surgiram, foi ao médico e, de início, viveu um momento de negação. A notícia despertou uma urgência inesperada de ser mãe – reação que, hoje, reconhece como parte do choque.
— Eu nunca tinha pensado em ter filhos, mas na hora eu pensei: bom, eu preciso ter um filho agora então, né? Cheguei a fazer uma consulta, o médico disse que dava para induzir, fazer aquelas injeções para coletar óvulos e eu viajei nessa história — lembra a servidora pública.
A cirurgia de retirada dos órgãos reprodutivos de Letícia ocorreu pelo SUS, no Hospital de Clínicas, em 20 de janeiro de 2005. Ela fez a operação com a condição de que um ovário fosse preservado, para que pudesse fazer uma fertilização posterior. Só havia um problema: depois do procedimento, seria necessário fazer radioterapia, o que causaria ressecamento desse ovário, que se tornaria inapto.

Após a operação, um momento chave fez com que a jovem mudasse de ideia:
— Estava internada havia 10 dias no hospital, olhava pela janela, via as pessoas no ônibus, caminhando pela rua, aquele sol. Pensei: "eu não quero morrer; quero viver. Tem vida lá fora e eu quero estar lá". Foi como se tivessem tirado um véu do meu rosto e eu esqueci essa história de fertilização e me concentrei em fazer o possível para estar viva — conta Letícia.
Depois disso, a servidora esqueceu do assunto e levou anos para ter vontade de ser mãe. Aos 34 anos, já casada, a maternidade voltou a ser um projeto – desta vez, por meio da adoção. Luigi chegou ainda bebê e hoje tem nove anos. Letícia define o câncer como um capítulo duro, mas delimitado:
— Não foi algo que me definiu. Foi um capítulo, não a minha vida inteira. Minha vida seguiu, eu construí minha família e sou feliz — constata.
HPV e câncer do colo do útero
Mais de 95% dos casos de câncer do colo do útero têm como agente causador o HPV, que provoca uma alteração celular que desencadeia o tumor. Mas calma: a maioria dos subtipos de HPV não faz isso.
Há mais de 200 tipos de HPV e pelo menos 12 são considerados oncogênicos, mas 70% dos casos de câncer do colo do útero são causados pelos tipos 16 e 18. Já os HPVs 6 e 11, encontrados em 90% dos condilomas genitais e papilomas laríngeos (as verrugas genitais típicas desse vírus), são considerados não oncogênicos.
A boa notícia é que, para os subtipos de HPV mais relacionados ao câncer do colo do útero, uma vacina já está disponível gratuitamente em postos de saúde para pessoas de 9 a 14 anos.
— Essa vacina é extremamente eficaz e consegue combater o vírus antes que ele cause qualquer lesão celular que desencadeie o câncer do colo do útero. Por isso, a imunização contra o HPV é considerada, hoje, uma vacina contra o câncer. Ela é tão eficaz a ponto de prevermos a erradicação do câncer do colo do útero, se conseguirmos uma vacinação em grande volume da população — relata a oncologista Alessandra Morelle, do grupo Oncoclínicas.
O Brasil atingiu 82% de cobertura vacinal contra o HPV entre meninas de 9 a 14 anos em 2024, superando a média global de 12%, segundo dados da OMS. Entre os meninos da mesma faixa etária, a cobertura chegou a 67%.
Teste DNA-HPV
O tradicional exame Papanicolau, normalmente realizado todos os anos em mulheres entre 25 e 59 anos com vida sexual ativa, já ajuda a prevenir o agravamento da enfermidade: é realizada a coleta de células do útero e uma análise citopatológica acusa a presença de células cancerígenas, lesões ou infecção por HPV.
— Com o Papanicolau, o patologista identifica precocemente alterações celulares quando elas ainda não estão com manifestação clínica, e aí a chance de cura do câncer do colo do útero aumenta de uma forma muito significativa, chegando a superar 90% quando identificamos em um estágio bem inicial — descreve a oncologista.
Já no teste DNA-HPV, que vem ganhando força nos consultórios ginecológicos, é feita uma coleta do sangue ou da secreção do colo do útero, semelhante à já realizada no Papanicolau. No SUS, a implementação foi iniciada em agosto do ano passado em 10 estados, entre eles o Rio Grande do Sul. Até o final de 2026, a meta é de que toda a rede pública substitua o Papanicolau por esse rastreio, voltado a mulheres de 25 a 64 anos.
O exame detecta 14 genótipos de HPV e identifica a presença do vírus no organismo antes da ocorrência de lesões ou câncer. Por ser mais eficaz, a tecnologia permite ampliar os intervalos de rastreamento para até cinco anos. No Papanicolau, quando duas análises anuais são feitas consecutivamente sem alterações, o exame é repetido a cada três anos.
Erradicação da doença
Erradicação não significa o desaparecimento total da doença, mas sim o atingimento de uma incidência anual de menos de quatro casos para cada 100 mil mulheres. Para cada ano do triênio 2023-2025, a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) era de que surgissem 17.010 novos casos da doença no Brasil, o que representa uma taxa bruta de incidência de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres.
Para eliminar esse tipo de tumor, a OMS estabeleceu uma estratégia a ser cumprida até 2030 conhecida como 90:70:90:
- 90% das meninas vacinadas contra o HPV até os 15 anos
- 70% das mulheres rastreadas com testes de alta performance (como o teste de DNA-HPV) pelo menos duas vezes na vida, aos 35 e aos 45 anos
- 90% das mulheres diagnosticadas com a doença ou lesões precursoras recebendo tratamento adequado
Segundo Alessandra, a redução da incidência do câncer do colo do útero no Brasil deve acontecer nas próximas décadas, uma vez que a vacinação em maior escala contra o HPV no país começou há poucos anos e tem como público-alvo crianças e adolescentes, que, via de regra, ainda não iniciaram sua vida sexual e não estão expostos a contrair o vírus e desenvolver o tumor.
— Se, por exemplo, uma mulher tem contato com um vírus do HPV de alto risco de câncer aos 18 anos, se ela não tomar nenhuma medida de proteção, como fazer avaliação ginecológica ou vacina, esperamos que a doença se instale em uns 20 anos. Por isso, com uma taxa alta de vacinação, devemos perceber a diferença em uns 20 anos também — explica a médica.
Para as mulheres adultas, que não têm direito à vacinação gratuita pelo SUS, a orientação é apostar em acompanhamento com regular com ginecologista, a fim de garantir a detecção precoce da presença do vírus.
Tratamento
Quando o câncer do colo do útero é detectado, por meio de biópsia, o primeiro passo é entender a extensão da doença. O tamanho aproximado da lesão é identificado pelo ginecologista, em exame no consultório e em laboratórios de imagem. É realizado um exame de imagem da pelve, como tomografia ou ressonância magnética, para avaliar se a lesão já atingiu o linfonodo – estruturas de defesa existentes perto do útero.
Tendo em mãos essas informações, o oncologista define se o tratamento indicado é cirúrgico ou se há necessidade de radioterapia com quimioterapia concomitante.
— Quando a doença é mais precoce, a tendência é de que a paciente seja submetida a um tratamento cirúrgico. Mas, se o ginecologista e os exames de imagem nos mostram que o caso não é mais passível de cirurgia curativa, partimos para a radioterapia associada à quimioterapia — detalha Alessandra.
No caso da cirurgia, quando a lesão ainda é pequena e intraepitelial e a paciente é jovem e deseja passar por uma gravidez, o médico pode optar por uma cirurgia parcial, na qual apenas uma porção do colo do útero é retirada. Essa, no entanto, é a exceção à regra – normalmente, é feita a retirada do colo uterino, útero, trompas e ovários.
A novidade dos últimos anos é a imunoterapia, que se mostrou eficaz em duas situações: quando a doença está avançada, ainda que se restrinja ao colo do útero, e quando ela reapareceu após o tratamento inicial ou já conta com metástases.
Impacto emocional
A infertilidade gerada pela cirurgia de câncer do colo do útero pode causar impacto emocional em mulheres que desejavam ser mães biológicas.
— Para algumas mulheres, ser fértil, ter a capacidade de gerar filhos, significa ser mulher, gerar uma vida dentro de si. Pode ser o sonho de uma família construído ao longo da sua trajetória. Por isso, descobrir que não se pode realizar um sonho de vida pode gerar isolamento social, ansiedade e depressão — ressalta a psicóloga Manuela Lopes.
A profissional destaca ainda que há casos em que a relação conjugal pode terminar, "caso o parceiro não lide bem com isso e não queira ou não possa aceitar outros métodos de concepção".
A orientação, nesses casos, é de que a mulher procure ajuda psicológica e acompanhamento médico para lidar com as alterações hormonais geradas pela retirada dos órgãos reprodutivos, semelhantes à menopausa.

