
O lançamento de uma pílula para perda de peso amplia as opções de tratamento para a obesidade e o sobrepeso. Aprovada em dezembro pelo Food and Drug Administration (FDA, agência reguladora dos Estados Unidos), o Wegovy (semaglutida) em comprimido já está disponível no país norte-americano. Trata-se de uma formulação oral da medicação injetável por via subcutânea, com efeito muito similar ao da "caneta".
O comprimido é indicado para adultos com obesidade, ou com sobrepeso com problemas médicos relacionados, para reduzir o excesso de peso e manter a redução a longo prazo, bem como para diminuir o risco de eventos cardiovasculares adversos maiores.
As diferenças entre as duas apresentações da semaglutida são a forma e a frequência de administração. No caso do comprimido, a medicação é absorvida no estômago e vai para o sangue, onde atua da mesma maneira. A molécula é agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) – ou seja, substância semelhante ao hormônio gastrointestinal. É a primeira em forma oral aprovada para o controle de peso.
Para atingir efeito similar, porém, é necessária uma dose maior do princípio ativo. Na forma oral, são 25mg em dose diária; na versão injetável, a dose máxima disponível é de 2,4mg, com aplicação semanal. A medicação deve ser acompanhada de uma dieta de calorias reduzidas e aumento da atividade física.
A eficácia das versões é comparável, segundo os especialistas. Enquanto na forma injetável a perda de peso média foi de 12,4%, na oral, foi de 11,4%, de acordo com estudos da Novo Nordisk, indústria farmacêutica dinamarquesa que produz os medicamentos, além do Ozempic (também semaglutida, com indicação para diabetes tipo 2). Os efeitos colaterais foram semelhantes.
Tendência a ser explorada
A nova formulação é interessante sob diferentes aspectos, na avaliação de Fernando Gerchman, endocrinologista, pesquisador e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA):
- Maior acessibilidade, devido à dificuldade de produção do medicamento injetável em escala suficiente para fornecer a toda a população que necessita e pode adquiri-la por via pública ou privada
- Aumento das opções disponíveis, ampliando a competitividade e reduzindo o valor das medicações
- Redução do impacto da poluição com o descarte de canetas
A semaglutida está disponível em forma oral no Brasil para diabetes tipo 2, em uma formulação com doses menores – o que reduz muito a eficácia para a perda de peso, aponta Gerchman, que é líder da Diretriz de Tratamento Farmacológico da Obesidade da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
A nova versão dos medicamentos que acarretam perda de peso é uma tendência que as empresas devem começar a explorar:
— Hoje temos um reconhecimento superimportante da obesidade como uma doença crônica que não tem cura. Então, dessa forma, explorar tratamentos com esse intuito é de fundamental importância. Isso vai ampliando, inclusive, o acesso — diz Georgia Chichelero, endocrinologista e metabologista, diretora científica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia/Regional RS e professora da Universidade de Passo Fundo.

Vantagens e desvantagens
Apesar da nova opção, a versão injetável não deve ser completamente substituída, na avaliação dos médicos. Cada formulação tem suas particularidades, como a necessidade de jejum de 30 minutos antes e após ingerir o comprimido para que seja eficaz – o que impõe dificuldades para uma população que precisa administrar muitos medicamentos.
Por outro lado, é uma alternativa para pessoas que temem injeções. Já a versão subcutânea facilita por ser administrada uma vez por semana.
Além da semaglutida, novas moléculas devem chegar ao mercado em breve, como a orforgliprona, ainda em desenvolvimento pela farmacêutica Eli Lilly. Também análogo do receptor GLP-1, é um derivado não peptídico – ou seja, não é uma proteína, portanto, não é degradado pelo sistema digestivo e dispensa outras substâncias para ajudar na absorção, com a vantagem de poder ser ingerido junto às refeições.
O preço deve ser mais acessível, segundo os especialistas. O medicamento é ligeiramente menos eficaz em termos de perda de peso do que a semaglutida via oral, alcançando 11,2%, conforme estudos de fase III.
— São medicações muito eficazes, então, são alternativas muito legais — ressalta Gerchman. O endocrinologista, porém, ainda considera mais interessante e fácil o uso semanal das versões injetáveis, pouco dolorosas.
Acesso e preço
Com mais uma opção de tratamento disponível, a expectativa é de que o acesso aos medicamentos para perda de peso seja ampliado nos EUA. Embora a obesidade seja uma doença altamente prevalente, o custo ainda é empecilho, tanto no país norte-americano quanto no Brasil.
Nos EUA, o preço do Wegovy injetável chega a US$ 500 (R$ 2,7 mil, na cotação atual), e a cobertura pelos planos de saúde é inconstante. Já a forma oral, que passou a ser comercializada neste início de ano, custará entre US$ 149 (R$ 800, dose mais baixa) e US$ 299 (R$ 1,6 mil, dose mais alta). Pacientes com seguro comercial podem pagar US$ 25 (R$ 134) por mês com desconto.
No Brasil, ainda não é possível saber o preço do medicamento caso seja disponibilizado, visto que o custo depende de uma série de fatores. Antes disso, é preciso aprovação e regulação. Até o momento, porém, a farmacêutica dinamarquesa não submeteu pedido de registro à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
"Não foram identificados pedidos em fila ou em análise nesta forma farmacêutica para ativos agonistas do receptor GLP-1", informou a Anvisa.
A Novo Nordisk informou a Zero Hora que o Brasil é um mercado prioritário para a empresa. "No entanto, seguimos um cronograma global de submissões regulatórias. Neste momento, ainda não há uma data definida para a submissão do dossiê do Wegovy pill à Anvisa", explicou em nota.


